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Diogo
Mainardi Oposicionistas de poltrona
"Vim
pedir instruções a um notório golpista Millôr
Fernandes. Ele já derrubou
um governo. O dos militares. Agora pode me explicar como derrubar o dos
petistas" Quero derrubar o governo. Só
não sei como. Vim pedir instruções a um notório golpista
Millôr Fernandes. Ele já derrubou um governo. O dos militares.
Agora pode me explicar como derrubar o dos petistas. MILLÔR
EU NÃO DERRUBEI GOVERNO NENHUM.
A prova de que ele derrubou o governo é a revista Pif Paf, que acaba
de ser republicada pela editora Argumento. Millôr a lançou imediatamente
depois do golpe, em maio de 1964, decretando que "Todo homem tem o direito sagrado
de torcer pelo Vasco na arquibancada do Flamengo". Pela minha reconstrução,
Pif Paf não apenas derrubou o governo militar, como o derrubou sozinha.
MILLÔR NÃO É VERDADE.
O último número da Pif Paf
é de agosto de 1964. Está lá, na contracapa: "Se o governo
continuar deixando que circule esta revista, dentro em breve estaremos caindo
numa democracia". O que fez o governo? Não percebeu a cilada e fechou a
revista. Pif Paf tirou a ditadura do armário. Com a ditadura fora
do armário, ficou mais fácil enfrentá-la. MILLÔR
A DITADURA AINDA DUROU MUITO TEMPO.
A TV do estúdio de Millôr está ligada, sem volume, num filme
sobre alpinistas no Himalaia. Ele fala de sua admiração por aventureiros.
Relembro que em "Aventureiros de poltrona", na Pif Paf número 4,
ele sonha ser esquiador, balonista, caçador de leões, automobilista
e presidente da República, mas, no fim, se contenta em não fazer
nada, indo apenas "de casa pro trabalho, do trabalho pra casa". Sentados em seu
estúdio, somos dois oposicionistas de poltrona, que sonham em derrubar
o governo. MILLÔR LULA VISITOU
A CATEDRAL DE ASSIS. O QUE ELE SABE SOBRE GIOTTO, CIMABUE, BEATO ANGELICO? A IGNORÂNCIA
DELE JÁ FICOU ESTABELECIDA, MAS NÃO É PELO RIDÍCULO
QUE ELE VAI CAIR. Meu mestre é um conspirador
dispersivo. De Giotto, Cimabue e Beato Angelico, ele desvia sua atenção
para João Paulo II. Abre a Enciclopédia dos Espiões
e me mostra o trajeto de Ali Agca da Turquia à Itália, onde cometeu
o atentado contra o papa. Peço para ver em primeira mão seu último
trabalho, uma colagem da figura de João Paulo II sobre o quadro O Grito,
de Edvard Munch (veja na pág. 40).
Elogio seu extraordinário talento artístico. Ele aproveita para
comentar a biografia de Saul Steinberg, e faz uma pausa para atender o técnico
do computador. Quando volta à poltrona, o assunto é Veneza, e de
Veneza vai direto para Goldoni, e de Goldoni para Molière, que ele traduziu.
Tento retomar o tema do nosso encontro. Depois de duas horas de conversa, ainda
não sei como derrubar o governo. MILLÔR
É SIMPLES. É SÓ INVESTIGAR A ORIGEM DO DINHEIRO. O
dinheiro do partido? MILLÔR DESCONFIO
SEMPRE DE TODO IDEALISTA QUE LUCRA COM SEU IDEAL.
A essa altura, estamos num restaurante. Ele conta que é feliz. Eu conto
que sou feliz. Dá empate em matéria de felicidade. Volto para casa.
Antes de dormir, penso em Pif Paf, Cimabue, fundos de pensão e CPI
do Banco Santos. |