Edição 1901 . 20 de abril de 2005

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Entrevista: Jane Fonda
"Eu me traí"

De volta ao cinema e com uma autobiografia na
praça, a atriz diz que hoje sua missão é imunizar
as jovens contra a doença de querer agradar


Isabela Boscov

Ruth Fremson/The New York Times

"As mulheres não hesitam em ceder a alma, o coração e o corpo para ser populares e amadas ou segurar o seu homem. Eu fiz isso"

Da tímida filha de Henry Fonda, um dos maiores astros do cinema americano, à mulher segura de hoje, que decidiu fazer do terceiro ato de sua vida o mais relevante, Jane Fonda passou por um sem-número de encarnações. Foi o ícone sexy de Barbarella, na época em que estava casada com o diretor francês Roger Vadim. Foi "Hanói Jane", a ativista sem meias palavras que visitou o Vietnã do Norte em plena guerra e que logo se casaria com outro ativista, Tom Hayden, a quem ajudou a eleger deputado pelo Partido Democrata. Foi a produtora de libelos como Amargo Regresso e de filmes em que buscava purgar suas espinhosas relações familiares, como Num Lago Dourado. Foi a primeira, e até hoje a maior, rainha americana do fitness, que fez o mundo inteiro queimar calorias e castigar articulações com seus vídeos de ginástica aeróbica. Foi também a esposa calada do magnata das comunicações Ted Turner – de quem está separada há quatro anos –, mais dedicada a organizações benemerentes do que a aparecer sob os holofotes. Agora, porém, aos 67 anos – e ainda esplendidamente bela –, Jane Fonda saiu com gosto da aposentadoria. Depois de quinze anos, voltou aos cinemas com a comédia Até que a Sogra Nos Separe (com estréia prevista no Brasil para o início de maio), em que atormenta a vida da nora interpretada por Jennifer Lopez, e acaba de lançar uma autobiografia, My Life So Far (Minha Vida até Aqui), em que narra episódios de bulimia, submissão e sexo grupal. Na semana passada, Fonda recebeu VEJA em Los Angeles para a seguinte entrevista.

Veja – Na sua autobiografia, a senhora fala abertamente de temas como a sua bulimia e o fato de sair em busca de prostitutas para fazer ménages à trois e assim agradar a seu primeiro marido, Roger Vadim. Por que essa franqueza?
Jane – A idéia não era falar dos meus problemas alimentares e conjugais de forma salaz. Mas que importância teria o livro se eu não fosse 100% honesta e só tratasse do que aparento ser? Isso é o que se encontra na maioria das biografias de celebridades: uma reafirmação das aparências e de inverdades. Chega dessa bobagem. Meu objetivo é o oposto. É mostrar que as pessoas traem a si mesmas por insegurança, e que perfeição e sucesso são fraudes a que não temos de almejar.

Veja – A senhora se submeteria de novo se encontrasse o homem certo?
Jane – Essa é uma das razões pelas quais eu gostaria de encontrar o homem certo: não vou saber até que o encontre, não é? No momento as únicas criaturas com que posso me testar são meus cachorros e meus netos.

Veja – A senhora diz que o objetivo do seu livro é ajudar os leitores. De que forma?
Jane – Falo de como as mulheres, desde a infância, perdem a identidade e a capacidade de se impor porque acham que não são boas o suficiente e que, para ser amadas, têm de ser perfeitas. As mulheres não hesitam em ceder a alma e o coração e em trair seu corpo, como eu fiz, para ser populares ou amadas, ou segurar seu homem. Por isso fui tão franca. Quero que entendam que isso pode acontecer com qualquer mulher, mesmo que seja uma estrela de cinema.

Veja – Por quanto tempo a senhora foi bulímica?
Jane – Desde muito jovem, e por décadas. Mantive a bulimia em segredo durante quase toda a minha vida. Hoje, nas palestras que faço para adolescentes em escolas do país, me assusta ver que ela se tornou epidêmica.

Veja – É em parte por causa das estrelas magérrimas, como a senhora foi, que a bulimia se alastrou entre as adolescentes?
Jane – Em parte, sim. Mas acho que a pressão para que as garotas se adaptem a um padrão está entranhada na nossa cultura. Ela começa na infância, a cada vez que seus pais fazem você sentir que o amor deles está condicionado à sua busca por ser o que eles desejam. Meu pai, por exemplo, achava que eu era gorda. Nunca fui gorda. Nunca. Mas por gerações os homens da família Fonda foram obcecados pela magreza feminina. Todas as esposas eram magérrimas, e algumas se tornaram bulímicas. As estrelas, as modelos e as meninas das escolas do interior são todas sintomas da mesma doença: a nossa tradição patriarcal, que prega que as mulheres têm de ser frágeis, maleáveis e perfeitas.

Veja – A senhora conseguiu sair dessa armadilha?
Jane – E quem consegue, de fato? Mas calculo ter coberto 90% do caminho de aceitar que sou o que sou. Não vou, aos 67 anos, me encher de Botox e colágeno, por exemplo. Tenho rugas, mas e daí? Nenhum homem olha para mim mesmo.

Veja – Como não? A senhora continua muito bonita.
Jane – Mas sou velha. Acredite: quando uma mulher chega a uma certa idade os homens simplesmente param de enxergá-la. Se você foi muito olhada na sua vida, como eu fui, não há como não notar isso.

Veja – Se essa tradição patriarcal continua tão viva quanto a senhora diz, será que o feminismo realmente funcionou?
Jane – Claro que sim. O que não significa que o patriarcado seja um assunto morto. As mulheres ainda ganham um terço menos do que os homens para desempenhar as mesmas funções, quase sempre são responsáveis também por cuidar da casa e dos filhos, ainda são vítimas de violência física e psicológica – quase sempre dentro da própria casa – e continuam acreditando que, para ser aceitas, têm de ser como os outros querem.

Veja – Existe esperança de que essa situação mude?
Jane – Precisamos educar nossas filhas para que se sustentem sozinhas. Segundo, é preciso ensiná-las a não ceder às pressões que descrevi. Mais fácil do que alguém da minha geração recuperar o senso de identidade é garantir que as meninas que estão crescendo agora permaneçam íntegras e intactas. Com meu livro, quero imunizar as meninas contra a doença de querer agradar. Além disso, temos de educar nossos filhos homens para ser emocionalmente alfabetizados, como gosto de dizer.

Veja – Os homens também sofrem com esse mundo patriarcal?
Jane – Embora o patriarcado favoreça os homens, eles pagam um preço tóxico por ele. Trata-se de um contrato faustiano: eles vendem seus sentimentos para obter os benefícios do sistema. Ele mutila os homens tanto quanto às mulheres. Algumas delas, inclusive, acabam se tornando meras ventríloquas do patriarcado. Vemos isso na política – e não vou citar nomes, porque nem é preciso. Só porque uma criatura usa saia e tem seios não significa que ela seja uma fêmea da espécie.

Veja – Seu pai, Henry Fonda, foi um homem frio e distante para com a senhora e seu irmão, Peter. Essa dificuldade de comunicar afeição foi motivo de sofrimento para ele?
Jane – Com toda a certeza. Não sei que tipo de infância meu pai em particular teve. Mas ele era de uma geração e de um lugar – o Meio-Oeste americano – em que ser adulto era não expressar nenhum tipo de emoção e nunca, jamais, depender de ninguém para nada. Quando as mulheres com quem ele se casou, entre elas minha mãe, demonstravam alguma fraqueza ou carência, a única reação dele era de desprezo. Não porque fosse um homem ruim, mas porque fora educado assim. Isso obviamente não fez dele um homem feliz.

Veja – Em Num Lago Dourado, a senhora e seu pai interpretaram um conflito familiar muito semelhante ao que viviam em casa. O filme o ajudou a se reconciliar com seus sentimentos?
Jane – Gosto de imaginar que sim, embora ele nunca fosse confessar algo do gênero. Homens como ele não costumam praticar auto-reflexão, e duvido que ele tenha gastado muito tempo pensando em qual o significado de a filha dele produzir um filme com esse tema. Nas vezes em que tentei falar disso, ele nunca deixou a conversa ir adiante.

Veja – Foi fácil perdoar seus pais pelos erros deles?
Jane – De jeito nenhum. Mas existe um estatuto implícito, eu acho, que limita até que idade se pode ter raiva dos pais e culpá-los pelo que vai mal na vida. Quando se é jovem, pôr a culpa nos outros e reclamar de uma infância difícil até ajuda a angariar a simpatia alheia. Quanto mais o tempo passa, porém, menos atraente essa atitude se torna.

Veja – A senhora não atuava havia quinze anos. O que a fez voltar à cena?
Jane – Sou uma pessoa muito diferente hoje e quis saber como isso se manifestaria num filme. Além disso, eu nunca tinha interpretado uma personagem tão rasgadamente cômica quanto Viola. Mas não sei se minha carreira vai prosseguir. Por enquanto não recebi outras ofertas.

Veja – A senhora não ficou nervosa por estar novamente diante de uma câmera?
Jane – Não. Atuar é como sexo – a gente sempre se lembra do que fazer. Há quinze anos, me aposentei porque odiava atuar, e o trabalho parecia um calvário. Meu casamento com o deputado Tom Hayden tinha se tornado infeliz e, como eu não queria admitir o fracasso, me divorciei dos meus sentimentos. Não há quem possa ser criativo nesse estado de espírito. Meus três últimos filmes foram uma agonia. Enquanto eu estava ponderando que rumo seguir, conheci Ted Turner – e aí não tive mais com que me preocupar.

Veja – Ao menos na aparência, essa foi uma união improvável. A senhora tem um longo passado de militância, e Turner tem uma sólida imagem de machão.
Jane – Muita gente achou esse um casamento estranho. De fato, ele poderia ter sido desastroso. Mas, ao contrário, foi uma decisão excelente, ainda que estejamos separados. Ted não tinha medo do meu sucesso ou da minha força. E o mais lindo de tudo é que ele não tinha medo de que eu soubesse quanto ele precisava de mim. E eu precisava que um homem poderoso precisasse de mim. O fato de ele me amar verdadeiramente fez com que me sentisse bem, melhor do que nunca, na minha pele.

Veja – Por que então a relação terminou?
Jane – Eu queria tanto que o casamento desse certo que me dispus a superar o meu terror da intimidade e de me manifestar. Fiz análise, refleti muito e finalmente juntei coragem para me fazer ouvida de fato. Quando eu consegui isso, descobri que Ted gostava mais da Jane de antes. Não quero que essa declaração o faça parecer mesquinho. Ted é um homem maravilhoso. Mas eu não era mais a mulher com quem ele tinha se casado. Nessa altura, tive de decidir se me recolheria de novo à minha mudez, por assim dizer, e continuaria a ser meia pessoa – mas casada – ou se diria: "Querido, sinto muito. Amo você, mas não quero me perder de vista de novo – então até logo". Fiquei com a última opção, e não me arrependo. Ted e eu continuamos amicíssimos e nos vemos o tempo todo. Mas sou mais feliz agora.

Veja – Nos anos 80, a senhora foi a rainha do fitness, e até hoje nenhum título bateu o recorde de vendas de seu vídeo de ginástica aeróbica. A senhora ainda se exercita?
Jane – Não, porque sofro de osteoartrite e tenho muitas dores. Em junho vou fazer uma cirurgia para colocar uma prótese de quadril. Aí, os médicos me garantem, poderei voltar a me exercitar.

Veja – A osteoartrite pode ser resultado dos anos em que a senhora praticou aeróbica de alto impacto?
Jane – Essa foi a primeira pergunta que fiz ao cirurgião. Mas ele me disse que não. Simplesmente tenho uma propensão hereditária à doença.

Veja – Quando a senhora tinha 12 anos, sua mãe cometeu suicídio. Que herança esse episódio deixou?
Jane – Um mês antes de se matar, minha mãe saiu da clínica psiquiátrica em que estava internada para fazer o que depois descobri ser uma visita de despedida a mim e ao meu irmão. Eu me recusei a vê-la. Quando um dos pais comete suicídio, a criança inevitavelmente conclui que a culpa é dela. Foi o que eu também concluí. Por que eu não quis vê-la naquela visita, por que não fui uma filha melhor – essas são as perguntas que me fiz incontáveis vezes. Mas, ao fazer a pesquisa para meu livro e descobrir que ela havia sido vítima de abuso sexual, pude finalmente entendê-la e perdoá-la. Não foi fácil, porém, viver com essa lembrança.

Veja – A senhora é religiosa?
Jane – Sou uma feminista cristã, sem denominação. Não posso seguir um dogma, porque o dogma cristão é terrível para com as mulheres. Com todas as qualidades que o papa João Paulo II demonstrou no comando da Igreja Católica, por exemplo, a posição dele com relação à contracepção é, para mim, inaceitável.

Veja – A senhora se arrepende da vida que teve?
Jane – Tive uma vida incrível. Meu único arrependimento é não ter sido uma mãe melhor para a minha primogênita, Vanessa. Hoje, tento compensá-la por isso de todas as maneiras. Normalmente, os filhos têm de passar sozinhos pela dura jornada de descobrir por que seus pais eram como eram, para entender que a culpa pelos problemas em família não foi deles. Então procuro ajudar Vanessa a entender que foram os meus problemas, não os dela, os responsáveis pelas nossas diferenças. É um processo doloroso, que me obriga a me manter constantemente vulnerável para com minha filha. E não é sempre que ela quer ouvir o que eu tenho a dizer. Mas continuo falando, porque acho que no fundo ela quer, sim, me ouvir, ainda que não admita. Não tenho medo de morrer, mas tenho medo de chegar ao fim da vida com arrependimentos. E o maior deles seria não ter demonstrado aos meus filhos quanto eu os amo. Sua vida pode ser fabulosa, mas, se seus filhos não são felizes, nada mais tem sentido.

 
 
 
 
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