|
|
Entrevista: Jane
Fonda "Eu me traí"
De volta ao cinema e com uma autobiografia na praça, a atriz diz que
hoje sua missão é imunizar as jovens contra a doença
de querer agradar  Isabela
Boscov
Ruth Fremson/The New York Times
 | "As
mulheres não hesitam em ceder a alma, o coração e o corpo para ser populares e
amadas ou segurar o seu homem. Eu fiz isso" | | Da
tímida filha de Henry Fonda, um dos maiores astros do cinema americano,
à mulher segura de hoje, que decidiu fazer do terceiro ato de sua vida
o mais relevante, Jane Fonda passou por um sem-número de encarnações.
Foi o ícone sexy de Barbarella, na época em que estava casada
com o diretor francês Roger Vadim. Foi "Hanói Jane", a ativista sem
meias palavras que visitou o Vietnã do Norte em plena guerra e que logo
se casaria com outro ativista, Tom Hayden, a quem ajudou a eleger deputado pelo
Partido Democrata. Foi a produtora de libelos como Amargo Regresso e de
filmes em que buscava purgar suas espinhosas relações familiares,
como Num Lago Dourado. Foi a primeira, e até hoje a maior, rainha
americana do fitness, que fez o mundo inteiro queimar calorias e castigar articulações
com seus vídeos de ginástica aeróbica. Foi também
a esposa calada do magnata das comunicações Ted Turner de
quem está separada há quatro anos , mais dedicada a organizações
benemerentes do que a aparecer sob os holofotes. Agora, porém, aos 67 anos
e ainda esplendidamente bela , Jane Fonda saiu com gosto da aposentadoria.
Depois de quinze anos, voltou aos cinemas com a comédia Até que
a Sogra Nos Separe (com estréia prevista no Brasil para o início
de maio), em que atormenta a vida da nora interpretada por Jennifer Lopez, e acaba
de lançar uma autobiografia, My Life So Far (Minha Vida até
Aqui), em que narra episódios de bulimia, submissão e sexo grupal.
Na semana passada, Fonda recebeu VEJA em Los Angeles para a seguinte entrevista.
Veja Na sua autobiografia, a senhora
fala abertamente de temas como a sua bulimia e o fato de sair em busca de prostitutas
para fazer ménages à trois e assim agradar a seu primeiro
marido, Roger Vadim. Por que essa franqueza? Jane A idéia
não era falar dos meus problemas alimentares e conjugais de forma salaz.
Mas que importância teria o livro se eu não fosse 100% honesta e
só tratasse do que aparento ser? Isso é o que se encontra na maioria
das biografias de celebridades: uma reafirmação das aparências
e de inverdades. Chega dessa bobagem. Meu objetivo é o oposto. É
mostrar que as pessoas traem a si mesmas por insegurança, e que perfeição
e sucesso são fraudes a que não temos de almejar. Veja
A senhora se submeteria de novo se encontrasse o homem certo? Jane
Essa é uma das razões pelas quais eu gostaria de encontrar
o homem certo: não vou saber até que o encontre, não é?
No momento as únicas criaturas com que posso me testar são meus
cachorros e meus netos. Veja A
senhora diz que o objetivo do seu livro é ajudar os leitores. De que forma? Jane
Falo de como as mulheres, desde a infância, perdem a identidade
e a capacidade de se impor porque acham que não são boas o suficiente
e que, para ser amadas, têm de ser perfeitas. As mulheres não hesitam
em ceder a alma e o coração e em trair seu corpo, como eu fiz, para
ser populares ou amadas, ou segurar seu homem. Por isso fui tão franca.
Quero que entendam que isso pode acontecer com qualquer mulher, mesmo que seja
uma estrela de cinema. Veja Por
quanto tempo a senhora foi bulímica? Jane Desde muito
jovem, e por décadas. Mantive a bulimia em segredo durante quase toda a
minha vida. Hoje, nas palestras que faço para adolescentes em escolas do
país, me assusta ver que ela se tornou epidêmica. Veja
É em parte por causa das estrelas magérrimas, como
a senhora foi, que a bulimia se alastrou entre as adolescentes? Jane
Em parte, sim. Mas acho que a pressão para que as garotas se
adaptem a um padrão está entranhada na nossa cultura. Ela começa
na infância, a cada vez que seus pais fazem você sentir que o amor
deles está condicionado à sua busca por ser o que eles desejam.
Meu pai, por exemplo, achava que eu era gorda. Nunca fui gorda. Nunca. Mas por
gerações os homens da família Fonda foram obcecados pela
magreza feminina. Todas as esposas eram magérrimas, e algumas se tornaram
bulímicas. As estrelas, as modelos e as meninas das escolas do interior
são todas sintomas da mesma doença: a nossa tradição
patriarcal, que prega que as mulheres têm de ser frágeis, maleáveis
e perfeitas. Veja A senhora conseguiu
sair dessa armadilha? Jane E quem consegue, de fato? Mas
calculo ter coberto 90% do caminho de aceitar que sou o que sou. Não vou,
aos 67 anos, me encher de Botox e colágeno, por exemplo. Tenho rugas, mas
e daí? Nenhum homem olha para mim mesmo. Veja
Como não? A senhora continua muito bonita. Jane
Mas sou velha. Acredite: quando uma mulher chega a uma certa idade
os homens simplesmente param de enxergá-la. Se você foi muito olhada
na sua vida, como eu fui, não há como não notar isso. Veja
Se essa tradição patriarcal continua tão viva
quanto a senhora diz, será que o feminismo realmente funcionou? Jane
Claro que sim. O que não significa que o patriarcado seja um
assunto morto. As mulheres ainda ganham um terço menos do que os homens
para desempenhar as mesmas funções, quase sempre são responsáveis
também por cuidar da casa e dos filhos, ainda são vítimas
de violência física e psicológica quase sempre dentro
da própria casa e continuam acreditando que, para ser aceitas, têm
de ser como os outros querem. Veja
Existe esperança de que essa situação mude? Jane
Precisamos educar nossas filhas para que se sustentem sozinhas. Segundo,
é preciso ensiná-las a não ceder às pressões
que descrevi. Mais fácil do que alguém da minha geração
recuperar o senso de identidade é garantir que as meninas que estão
crescendo agora permaneçam íntegras e intactas. Com meu livro, quero
imunizar as meninas contra a doença de querer agradar. Além disso,
temos de educar nossos filhos homens para ser emocionalmente alfabetizados, como
gosto de dizer. Veja Os homens
também sofrem com esse mundo patriarcal? Jane Embora
o patriarcado favoreça os homens, eles pagam um preço tóxico
por ele. Trata-se de um contrato faustiano: eles vendem seus sentimentos para
obter os benefícios do sistema. Ele mutila os homens tanto quanto às
mulheres. Algumas delas, inclusive, acabam se tornando meras ventríloquas
do patriarcado. Vemos isso na política e não vou citar nomes,
porque nem é preciso. Só porque uma criatura usa saia e tem seios
não significa que ela seja uma fêmea da espécie. Veja
Seu pai, Henry Fonda, foi um homem frio e distante para com a senhora
e seu irmão, Peter. Essa dificuldade de comunicar afeição
foi motivo de sofrimento para ele? Jane Com toda a certeza.
Não sei que tipo de infância meu pai em particular teve. Mas ele
era de uma geração e de um lugar o Meio-Oeste americano
em que ser adulto era não expressar nenhum tipo de emoção
e nunca, jamais, depender de ninguém para nada. Quando as mulheres com
quem ele se casou, entre elas minha mãe, demonstravam alguma fraqueza ou
carência, a única reação dele era de desprezo. Não
porque fosse um homem ruim, mas porque fora educado assim. Isso obviamente não
fez dele um homem feliz. Veja Em
Num Lago Dourado, a senhora e seu pai interpretaram um conflito familiar
muito semelhante ao que viviam em casa. O filme o ajudou a se reconciliar com
seus sentimentos? Jane Gosto de imaginar que sim, embora
ele nunca fosse confessar algo do gênero. Homens como ele não costumam
praticar auto-reflexão, e duvido que ele tenha gastado muito tempo pensando
em qual o significado de a filha dele produzir um filme com esse tema. Nas vezes
em que tentei falar disso, ele nunca deixou a conversa ir adiante. Veja
Foi fácil perdoar seus pais pelos erros deles? Jane
De jeito nenhum. Mas existe um estatuto implícito, eu acho,
que limita até que idade se pode ter raiva dos pais e culpá-los
pelo que vai mal na vida. Quando se é jovem, pôr a culpa nos outros
e reclamar de uma infância difícil até ajuda a angariar a
simpatia alheia. Quanto mais o tempo passa, porém, menos atraente essa
atitude se torna. Veja A senhora
não atuava havia quinze anos. O que a fez voltar à cena? Jane
Sou uma pessoa muito diferente hoje e quis saber como isso se manifestaria
num filme. Além disso, eu nunca tinha interpretado uma personagem tão
rasgadamente cômica quanto Viola. Mas não sei se minha carreira vai
prosseguir. Por enquanto não recebi outras ofertas. Veja
A senhora não ficou nervosa por estar novamente diante de
uma câmera? Jane Não. Atuar é como sexo
a gente sempre se lembra do que fazer. Há quinze anos, me aposentei
porque odiava atuar, e o trabalho parecia um calvário. Meu casamento com
o deputado Tom Hayden tinha se tornado infeliz e, como eu não queria admitir
o fracasso, me divorciei dos meus sentimentos. Não há quem possa
ser criativo nesse estado de espírito. Meus três últimos filmes
foram uma agonia. Enquanto eu estava ponderando que rumo seguir, conheci Ted Turner
e aí não tive mais com que me preocupar. Veja
Ao menos na aparência, essa foi uma união improvável.
A senhora tem um longo passado de militância, e Turner tem uma sólida
imagem de machão. Jane Muita gente achou esse um casamento
estranho. De fato, ele poderia ter sido desastroso. Mas, ao contrário,
foi uma decisão excelente, ainda que estejamos separados. Ted não
tinha medo do meu sucesso ou da minha força. E o mais lindo de tudo é
que ele não tinha medo de que eu soubesse quanto ele precisava de mim.
E eu precisava que um homem poderoso precisasse de mim. O fato de ele me amar
verdadeiramente fez com que me sentisse bem, melhor do que nunca, na minha pele.
Veja Por que então a relação
terminou? Jane Eu queria tanto que o casamento desse certo
que me dispus a superar o meu terror da intimidade e de me manifestar. Fiz análise,
refleti muito e finalmente juntei coragem para me fazer ouvida de fato. Quando
eu consegui isso, descobri que Ted gostava mais da Jane de antes. Não quero
que essa declaração o faça parecer mesquinho. Ted é
um homem maravilhoso. Mas eu não era mais a mulher com quem ele tinha se
casado. Nessa altura, tive de decidir se me recolheria de novo à minha
mudez, por assim dizer, e continuaria a ser meia pessoa mas casada
ou se diria: "Querido, sinto muito. Amo você, mas não quero me perder
de vista de novo então até logo". Fiquei com a última
opção, e não me arrependo. Ted e eu continuamos amicíssimos
e nos vemos o tempo todo. Mas sou mais feliz agora. Veja
Nos anos 80, a senhora foi a rainha do fitness, e até hoje
nenhum título bateu o recorde de vendas de seu vídeo de ginástica
aeróbica. A senhora ainda se exercita? Jane Não,
porque sofro de osteoartrite e tenho muitas dores. Em junho vou fazer uma cirurgia
para colocar uma prótese de quadril. Aí, os médicos me garantem,
poderei voltar a me exercitar. Veja
A osteoartrite pode ser resultado dos anos em que a senhora praticou aeróbica
de alto impacto? Jane Essa foi a primeira pergunta que fiz
ao cirurgião. Mas ele me disse que não. Simplesmente tenho uma propensão
hereditária à doença. Veja
Quando a senhora tinha 12 anos, sua mãe cometeu suicídio.
Que herança esse episódio deixou? Jane Um mês
antes de se matar, minha mãe saiu da clínica psiquiátrica
em que estava internada para fazer o que depois descobri ser uma visita de despedida
a mim e ao meu irmão. Eu me recusei a vê-la. Quando um dos pais comete
suicídio, a criança inevitavelmente conclui que a culpa é
dela. Foi o que eu também concluí. Por que eu não quis vê-la
naquela visita, por que não fui uma filha melhor essas são
as perguntas que me fiz incontáveis vezes. Mas, ao fazer a pesquisa para
meu livro e descobrir que ela havia sido vítima de abuso sexual, pude finalmente
entendê-la e perdoá-la. Não foi fácil, porém,
viver com essa lembrança. Veja
A senhora é religiosa? Jane Sou uma feminista cristã,
sem denominação. Não posso seguir um dogma, porque o dogma
cristão é terrível para com as mulheres. Com todas as qualidades
que o papa João Paulo II demonstrou no comando da Igreja Católica,
por exemplo, a posição dele com relação à contracepção
é, para mim, inaceitável. Veja
A senhora se arrepende da vida que teve? Jane
Tive uma vida incrível. Meu único arrependimento é não
ter sido uma mãe melhor para a minha primogênita, Vanessa. Hoje,
tento compensá-la por isso de todas as maneiras. Normalmente, os filhos
têm de passar sozinhos pela dura jornada de descobrir por que seus pais
eram como eram, para entender que a culpa pelos problemas em família não
foi deles. Então procuro ajudar Vanessa a entender que foram os meus problemas,
não os dela, os responsáveis pelas nossas diferenças. É
um processo doloroso, que me obriga a me manter constantemente vulnerável
para com minha filha. E não é sempre que ela quer ouvir o que eu
tenho a dizer. Mas continuo falando, porque acho que no fundo ela quer, sim, me
ouvir, ainda que não admita. Não tenho medo de morrer, mas tenho
medo de chegar ao fim da vida com arrependimentos. E o maior deles seria não
ter demonstrado aos meus filhos quanto eu os amo. Sua vida pode ser fabulosa,
mas, se seus filhos não são felizes, nada mais tem sentido. |