Edição 1901 . 20 de abril de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Auto-retrato
VEJA on-line
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 
Auto-retrato
Katie Dallam

John Nowak/The New York Times


Em 1996, a americana Katie Dallam, na época boxeadora profissional, foi vítima de uma luta violenta e desleal. Enfrentando a jamaicana Sumya Anani, recebeu mais de 100 golpes na cabeça. Ficou três dias em coma, perdeu os movimentos por seis meses e tentou o suicídio. Sua tragédia inspirou o filme Menina de Ouro, de Clint Eastwood. De Spring Hills, no Kansas, Katie, hoje com 45 anos, falou à repórter Gabriela Carelli.

QUAL FOI SUA PRIMEIRA REAÇÃO AO ACORDAR, DEPOIS DO COMA?
Senti muita raiva. Os médicos diziam que provavelmente eu não voltaria a andar, a dirigir, que passaria minha vida ligada a aparelhos. Eu sabia que o boxe era violento, mas não podia imaginar que praticar um esporte iria me deixar entre a vida e a morte ou, pior, numa quase-vida para sempre. A primeira solução que me veio à cabeça foi o suicídio. Guardei vários remédios que os enfermeiros me davam, para tomar todos de uma vez e acabar com a agonia. Minha irmã descobriu o plano e impediu que se consumasse. Passou a me vigiar 24 horas por dia.  

VOLTOU A PENSAR EM SUICÍDIO POSTERIORMENTE?
Não. Depois da primeira tentativa, pensei que devia haver um motivo para continuar no mundo. Foi um milagre que eu tenha sobrevivido, por isso decidi batalhar pela vida que me restava. Passei os últimos nove anos em clínicas de reabilitação, em tratamento. Os golpes deixaram o lado direito do meu corpo praticamente paralisado. Mas pude reaprender a falar e a andar um pouco. Minha visão foi afetada, às vezes não enxergo nada e a leitura faz doer os olhos. Não posso sair de casa sozinha porque sofro lapsos de memória. Tenho pesadelos quase todas as noites. Mas posso pintar. São as telas que preenchem o meu dia. Quando crio um quadro, fico muito feliz. Foi a forma que encontrei de lidar com a raiva e a frustração.  

QUE LEMBRANÇAS TEM DA LUTA QUE QUASE A MATOU?
Lembro-me dos braços da minha adversária vindo para cima de mim, girando rápido, rápido demais. Ela não parava de bater e ninguém interrompia a luta. Lembro que pensava, já caída no chão: "Isto não é boxe. O que estou fazendo aqui?". Nunca tinha visto aquilo na vida. Era uma selvageria completa.  

POR QUE SEU TREINADOR NÃO PAROU A LUTA QUANDO VIU QUE A SENHORA ESTAVA MUITO MACHUCADA?
Que sirva de alerta para as boxeadoras: é preciso conhecer muito bem o treinador e confiar nele. O meu sabia que a adversária era perigosa, mas não se preocupou. Queria ganhar dinheiro de qualquer forma. Isso é muito comum no boxe. Ele nem tentou parar a luta. Fez com que eu continuasse no ringue mesmo com ferimentos graves.  

A SENHORA FALOU COM SUA ADVERSÁRIA DEPOIS DO OCORRIDO?
Ela tentou falar comigo, mas eu não quis. Não iria suportar. Sei que ela deu declarações à imprensa e se disse arrependida pelo que fez. Isso pode ter feito bem a ela, não a mim.  

O QUE ACHOU DO FILME MENINA DE OURO?
Relutei ao máximo em ver o filme, mas resolvi encarar o velho fantasma. Até então, evitava tomar contato com qualquer coisa relacionada ao boxe. Acho que foi bom assistir. A personagem foi criada com base na minha história em muitos aspectos. Também era pobre, nasceu no mesmo estado que eu, começou a treinar depois dos 30 anos e sofreu lesões graves numa luta desleal. Foi sofrido relembrar isso tudo. No filme, a personagem é uma lutadora muito superior àquela que fui. Apesar de saber que esse detalhe da história é ficcional, saí do cinema aliviada, sem me culpar tanto pelo ocorrido, pela minha falta de técnica. Ela era melhor do que eu e perdeu também. Isso pode acontecer a qualquer um. No cinema ou na vida.  

O QUE A SENHORA APRENDEU COM O SEU DRAMA PESSOAL?
Aprendi a nunca desistir, mesmo quando tudo conspira contra você.

 
 
 
 
topovoltar