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André
Petry Todos contra Vera...
"Adoro
fazer cabelo, fazer unha.
Adoro coisa de beleza. Já vi coisa muito
feia. Exumação de cadáver é a coisa
mais triste do mundo" ...mas
Vera está ganhando de todos. Verá Lúcia Silva dos Santos
é casada, tem 42 anos e dois filhos, fala com o sotaque peculiar dos subúrbios
cariocas e tem uma história pessoal que impressiona pela resistência
e revolta pelo descaso descomunal, ultrajante, promovido pelo casal Rosinha
e Anthony Garotinho. Em 1993, na chacina de Vigário
Geral, Vera perdeu toda a família: o pai, a mãe, os cinco irmãos
e uma cunhada. Todos assassinados por policiais criminosos numa noite de domingo,
quando se preparavam para dormir. A vida de Vera desmoronou. Um ano depois, ela
já ingressava na Justiça com uma ação em que pleiteava
uma indenização, uma ajuda, um apoio enfim, um naco de justiça.
E nada. Em 2000, o então governador Anthony
Garotinho, pressionado até por organismos internacionais de direitos humanos,
resolveu fazer "justiça": concedeu a Vera 10.000 reais (para comprar uma
casa!) e uma pensão vitalícia (de um salário mínimo!).
Era justiça com miséria, mas, em todo caso, era alguma justiça.
Mal sabia Vera que era um golpe. Ela seguiu pleiteando
uma indenização séria na Justiça. Em março
do ano passado, saiu a sentença lhe dando 120.000 reais de indenização.
O Estado, agora sob o comando da mulher de Garotinho, recorreu da sentença!
Alegou que os policiais que massacraram a família de Vera (e outras treze
pessoas) não estavam a serviço. Que ela já fora devidamente
indenizada. Que 120.000 reais era muito dinheiro. Há poucos dias, a Justiça
deu ganho de causa a Vera e mandou o Estado pagar os 120.000 reais para ela. Mas
o Estado já anunciou que vai recorrer de novo. Com as mesmas alegações.
Vera, na sua humildade, não consegue entender.
Não sei mais o que eu tenho de provar diz ela, perplexa.
Está tudo mais do que provado. Vera é
vítima de policiais assassinos, e o Estado que os empregou massacra Vera
como se a criminosa fosse ela, querendo arrancar do Estado uma fortuna indevida.
Está provado que perdi toda a minha
família quando esses animais invadiram a casa... Animais, não. Animais
só matam para comer... Eles são piores que animais.
Será que Vera pensou algum dia, no tormento da revolta, em fazer justiça
com as próprias mãos? Não
podemos fazer justiça com as próprias mãos, senão
este mundo nunca vai ter jeito mesmo. A Justiça é cega, capenga,
mas tem de segurar com ela mesmo. Vera mora com
seu atual marido, os dois filhos e uma sobrinha, sobrevivente da chacina. Em casa,
ajuda na renda da família trabalhando como cabeleireira e manicure.
Adoro fazer cabelo, fazer unha. Adoro coisa de beleza
diz ela, explicando em seguida o porquê de seu tributo ao belo.
Já vi coisa muito feia. Exumação de cadáver é
a coisa mais triste do mundo. Essa é a mulher
que o casal Garotinho quer manter à míngua, enquanto os criminosos
seguem impunes. Alguma dúvida sobre por
que policiais acabam de chacinar três dezenas de inocentes em Nova Iguaçu
e Queimados? |