Edição 1901 . 20 de abril de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Auto-retrato
VEJA on-line
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

André Petry
Todos contra Vera...

"Adoro fazer cabelo, fazer unha. Adoro coisa
de beleza.
Já vi coisa muito feia. Exumação
de cadáver é a coisa mais triste
do mundo"

...mas Vera está ganhando de todos. Verá Lúcia Silva dos Santos é casada, tem 42 anos e dois filhos, fala com o sotaque peculiar dos subúrbios cariocas e tem uma história pessoal que impressiona pela resistência – e revolta pelo descaso descomunal, ultrajante, promovido pelo casal Rosinha e Anthony Garotinho.

Em 1993, na chacina de Vigário Geral, Vera perdeu toda a família: o pai, a mãe, os cinco irmãos e uma cunhada. Todos assassinados por policiais criminosos numa noite de domingo, quando se preparavam para dormir. A vida de Vera desmoronou. Um ano depois, ela já ingressava na Justiça com uma ação em que pleiteava uma indenização, uma ajuda, um apoio – enfim, um naco de justiça. E nada.

Em 2000, o então governador Anthony Garotinho, pressionado até por organismos internacionais de direitos humanos, resolveu fazer "justiça": concedeu a Vera 10.000 reais (para comprar uma casa!) e uma pensão vitalícia (de um salário mínimo!). Era justiça com miséria, mas, em todo caso, era alguma justiça. Mal sabia Vera que era um golpe.

Ela seguiu pleiteando uma indenização séria na Justiça. Em março do ano passado, saiu a sentença lhe dando 120.000 reais de indenização. O Estado, agora sob o comando da mulher de Garotinho, recorreu da sentença! Alegou que os policiais que massacraram a família de Vera (e outras treze pessoas) não estavam a serviço. Que ela já fora devidamente indenizada. Que 120.000 reais era muito dinheiro. Há poucos dias, a Justiça deu ganho de causa a Vera e mandou o Estado pagar os 120.000 reais para ela. Mas o Estado já anunciou que vai recorrer de novo. Com as mesmas alegações. Vera, na sua humildade, não consegue entender.

– Não sei mais o que eu tenho de provar – diz ela, perplexa. – Está tudo mais do que provado.

Vera é vítima de policiais assassinos, e o Estado que os empregou massacra Vera como se a criminosa fosse ela, querendo arrancar do Estado uma fortuna indevida.

– Está provado que perdi toda a minha família quando esses animais invadiram a casa... Animais, não. Animais só matam para comer... Eles são piores que animais.

Será que Vera pensou algum dia, no tormento da revolta, em fazer justiça com as próprias mãos?

– Não podemos fazer justiça com as próprias mãos, senão este mundo nunca vai ter jeito mesmo. A Justiça é cega, capenga, mas tem de segurar com ela mesmo.

Vera mora com seu atual marido, os dois filhos e uma sobrinha, sobrevivente da chacina. Em casa, ajuda na renda da família trabalhando como cabeleireira e manicure.

– Adoro fazer cabelo, fazer unha. Adoro coisa de beleza – diz ela, explicando em seguida o porquê de seu tributo ao belo. – Já vi coisa muito feia. Exumação de cadáver é a coisa mais triste do mundo.

Essa é a mulher que o casal Garotinho quer manter à míngua, enquanto os criminosos seguem impunes.

Alguma dúvida sobre por que policiais acabam de chacinar três dezenas de inocentes em Nova Iguaçu e Queimados?

 
 
 
 
topovoltar