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O começo do
fim
das oligarquias
As dinastias
políticas regionais
vêem seu poder ser confinado
aos redutos eleitorais

Daniel Hessel
Teich e José Edward
Sergio Dutti
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Álbum de família
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| Família
Sarney: escândalo minou o objetivo da segunda geração
de chegar ao Planalto |
ACM
abraçado ao filho Luís Eduardo: poder consolidado na
Bahia e distância de Brasília |

Veja também |
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Todas as
instituições que a ética atual condena foram um dia
modernas e inovadoras, ensina o autor americano Jacques Barzun. As oligarquias
familiares obedecem a essa regra. Na América Latina elas estiveram
à frente das lutas de independência, dos movimentos liberais
e praticamente inventaram a economia voltada para a exportação.
No Brasil, foram até vanguardistas culturais, tendo financiado
e apoiado o movimento dos intelectuais modernistas nos anos 20. Obviamente,
elas cobram um preço alto da sociedade. Concentram riqueza. Encastelam-se
no poder. Monopolizam os cofres públicos. A história mostra
que, felizmente, os clãs políticos tendem a sair de cena
a cada virada de ciclo econômico. O Brasil pode estar vivendo agora
o início de um desses ciclos, em que velhos chefes políticos
regionais começam a parecer tão inadequados para a convivência
nacional que se refugiam em seus feudos. O escândalo envolvendo
Roseana Sarney, governadora do Maranhão, é um episódio
que reflete esse momento. Mas não é o único. No Norte
e no Nordeste o coronelismo está refluindo e concentrando seu poder
nos redutos onde sua vontade ainda é lei. "Essa gente vive de concentrar
riqueza e distribuí-la como quer. Esse sistema entrou em pane.
Por isso os coronéis vão ficar cada vez mais isolados",
diz Renato Janine Ribeiro, professor de filosofia política da Universidade
de São Paulo.
Os Sarney
podem estar sendo atacados pela mesma onda que já acuou outras
dinastias políticas, como os Collor, em Alagoas, e, mais recentemente,
os Barbalho, no Pará. Atingidas por vexames e repudiadas pela opinião
pública, elas se viram obrigadas a renunciar a ambições
maiores no cenário nacional. O Brasil está mudando. A opinião
pública está menos tolerante. Há menos de um ano,
Jader Fontenelle Barbalho era influente político do PMDB, presidente
do Senado e peça-chave nas articulações de sucessão
do presidente Fernando Henrique Cardoso. Como não soube explicar
a origem de sua fortuna, desmesurada para um político, conforme
denúncia de VEJA, Jader Barbalho acabou renunciando. Há
dias apareceu algemado, escoltado por policiais federais a pedido de promotores
que investigam seu papel no desvio de verbas da Sudam. Dificilmente Jader
voltará a ser um político de expressão nacional
embora o poder local de sua família e de seu grupo de amigos esteja
longe de ser desmantelado. Em grau menor, está também na
muda outro cacique, Antonio Carlos Magalhães, que há décadas
é uma espécie de vice-rei da Bahia. São seus fiéis
aliados 380 dos 415 prefeitos baianos. O atual governador, César
Borges, juízes e empresários baianos gravitam em torno de
ACM. Ele lidera todas as pesquisas de intenção de voto para
a próxima eleição ao Senado, de onde saiu no ano
passado em meio a acusações de ter sido conivente com a
fraude do placar de votações da casa. Mas pouca gente aposta
que ACM voltará a exercer a mesma influência que teve na
política brasileira até ser obrigado a deixar o Senado em
2001.
Renato de Sousa/Rep. álbum de família
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mília
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| Família
Collor com o patriarca Arnon de Mello: ofuscada pelo impeachment de
Fernando |
Jader
preso e algemado: fortuna inexplicada de 30 milhões de reais
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Até
mesmo a fonte principal de manutenção do poder local dos
grandes oligarcas, o domínio completo da imprensa, pode estar começando
a minguar. Por força de contratos com as grandes redes, os repetidores
locais de televisão são obrigados a transmitir na íntegra
os telejornais e até gerar notícias pedidas pelas redações
no Rio de Janeiro e em São Paulo. A televisão dos Sarney
foi obrigada a transmitir para o Maranhão, sem cortes, todo o noticiário
do Jornal Nacional sobre o escândalo Roseana. Uma equipe
da televisão dos Sarney teve de gravar cenas de uma passeata local
de mulheres que gritavam slogans contra Roseana e pediam a apuração
das fraudes da Sudam e da origem do 1,3 milhão encontrado no cofre
da empresa da governadora e de seu marido, Jorge Murad. Para dar sua versão
particular do caso, Roseana convocou uma rede de televisão estadual.
Falou, então, só o que queria.
Foi um golpe
no controle absoluto da informação que os coronéis
eletrônicos cultivam. Atualmente, 25% das 250 emissoras comerciais
de televisão do país estão em mãos de políticos.
Nos Estados do Norte e Nordeste elas são dominadas por grandes
dinastias políticas locais. Além de ACM, os ex-presidentes
José Sarney e Fernando Collor de Mello, os governadores Tasso Jereissati
(Ceará), Garibaldi Alves (Rio Grande do Norte) e Albano Franco
(Sergipe) e o ex-senador Jader Barbalho (Pará) são donos
de redes locais de televisão. O processo é aquele que se
conhece. As concessões são barganhadas em Brasília,
e os governos locais cuidam de adubar as emissoras com verbas públicas.
Em Alagoas, os Collor de Mello souberam tirar todo o proveito da comunicação.
Afastada do poder desde o impeachment de Fernando Collor de Mello em 1992,
a família ainda garante sua força regional por meio da Organização
Arnon de Mello, conglomerado fundado na década de 50 que reúne
onze empresas encabeçadas por uma emissora de TV e o jornal Gazeta
de Alagoas. No Maranhão, o governo Roseana Sarney destina 64%
das verbas publicitárias oficiais para a televisão da própria
família. Quando até esse reduto começa a ser atacado
por um estilo de comportamento público menos carunchado, os motivos
de preocupação para as oligarquias são muito reais.
"A instituição do coronelismo eletrônico foi responsável
pela sobrevivência de muitas famílias poderosas que estavam
em decadência econômica acentuada", diz o historiador José
Octávio de Arruda Mello. "Sem essa arma, eles perdem uma importante
viga de sustentação."
As dinastias
de poder prosperaram de forma mais visível no Nordeste do país.
O fenômeno se manifesta no sul, mas de maneira mais branda. Um dos
mais antigos clãs nordestinos é o dos Maia, que sempre teve
atuação em dois Estados: Paraíba e Rio Grande do
Norte. O atual líder do PFL no Senado, José Agripino Maia,
é um dos herdeiros desse ramo, que há vários anos
divide o poder no Rio Grande do Norte com os Alves (do ex-governador Aluizio
e do atual Garibaldi) e com os Bezerra (do ex-ministro e senador Fernando
Bezerra). A política está cheia de exemplos de que as oligarquias,
termo que os gregos inventaram para descrever os governos exercidos por
poucos e maus , não costumam ceder com facilidade,
mesmo quando o ambiente se torna muito adverso. As redes subterrâneas
em que todos os beneficiados têm o mesmo sobrenome há tempos
vêm sendo substituídas por grupos de interesses mais amplos
e métodos muito mais ousados em seus avanços sobre o dinheiro
público. As ramificações em torno das grandes empreiteiras
no passado recente do país são uma evidência disso.
A quadrilha organizada em volta do juiz Nicolau dos Santos, o "Lalau",
para roubar 169 milhões de reais das obras do Tribunal Regional
do Trabalho de São Paulo é um exemplo ainda mais recente.
"Esses grupos sobrevivem em transações em que o Estado sempre
entra com dinheiro", diz o historiador José Murilo de Carvalho,
professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como em todo negócio
que envolve dinheiro público, sempre que há vigilância
e transparência as assombrações, tradicionais ou modernas,
tendem a sumir.
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