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Edição 1 743 - 20 de março de 2002
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A virada na corrida presidencial
A guerra suja dos dossiês
A nova mentira de Jorge Murad
José Serra toma o segundo lugar, que era de Roseana
As oligarquias locais perdem poder nacional

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O começo do fim
das oligarquias

As dinastias políticas regionais
vêem seu poder ser confinado
aos redutos eleitorais

Daniel Hessel Teich e José Edward

Sergio Dutti
Álbum de família
Família Sarney: escândalo minou o objetivo da segunda geração de chegar ao Planalto ACM abraçado ao filho Luís Eduardo: poder consolidado na Bahia e distância de Brasília


Veja também
  VEJA on-line fez uma seleção de textos de especialistas que falam sobre as oligarquias no Brasil. Confira:
Revolução de 1930 e Governo Provisório
A República Velha: o município como instrumento do coronelismo estadual
O coronelismo
A farda do tendeiro: cotidiano e recrutamento no Império
Democracia municipal na mira
Democracia elvetica, sans-serif" size="1">Democracia municipal na mira
Democracia na América Latina
O conceito de coronelismo
É a vez de Serra
E as bruxarias andam soltas
A sétima mentira sobre o dinheiro
O homem da máquina já incomoda
O começo do fim das oligarquias
Fórum: Dê sua opinião sobre a conduta dos presidenciáveis. É correto um fazer dossiês sobre a vida do outro? De onde vem o dinheiro das campanhas? Você se preocupa com a vida pregressa dos candidatos?

Todas as instituições que a ética atual condena foram um dia modernas e inovadoras, ensina o autor americano Jacques Barzun. As oligarquias familiares obedecem a essa regra. Na América Latina elas estiveram à frente das lutas de independência, dos movimentos liberais e praticamente inventaram a economia voltada para a exportação. No Brasil, foram até vanguardistas culturais, tendo financiado e apoiado o movimento dos intelectuais modernistas nos anos 20. Obviamente, elas cobram um preço alto da sociedade. Concentram riqueza. Encastelam-se no poder. Monopolizam os cofres públicos. A história mostra que, felizmente, os clãs políticos tendem a sair de cena a cada virada de ciclo econômico. O Brasil pode estar vivendo agora o início de um desses ciclos, em que velhos chefes políticos regionais começam a parecer tão inadequados para a convivência nacional que se refugiam em seus feudos. O escândalo envolvendo Roseana Sarney, governadora do Maranhão, é um episódio que reflete esse momento. Mas não é o único. No Norte e no Nordeste o coronelismo está refluindo e concentrando seu poder nos redutos onde sua vontade ainda é lei. "Essa gente vive de concentrar riqueza e distribuí-la como quer. Esse sistema entrou em pane. Por isso os coronéis vão ficar cada vez mais isolados", diz Renato Janine Ribeiro, professor de filosofia política da Universidade de São Paulo.

Os Sarney podem estar sendo atacados pela mesma onda que já acuou outras dinastias políticas, como os Collor, em Alagoas, e, mais recentemente, os Barbalho, no Pará. Atingidas por vexames e repudiadas pela opinião pública, elas se viram obrigadas a renunciar a ambições maiores no cenário nacional. O Brasil está mudando. A opinião pública está menos tolerante. Há menos de um ano, Jader Fontenelle Barbalho era influente político do PMDB, presidente do Senado e peça-chave nas articulações de sucessão do presidente Fernando Henrique Cardoso. Como não soube explicar a origem de sua fortuna, desmesurada para um político, conforme denúncia de VEJA, Jader Barbalho acabou renunciando. Há dias apareceu algemado, escoltado por policiais federais a pedido de promotores que investigam seu papel no desvio de verbas da Sudam. Dificilmente Jader voltará a ser um político de expressão nacional – embora o poder local de sua família e de seu grupo de amigos esteja longe de ser desmantelado. Em grau menor, está também na muda outro cacique, Antonio Carlos Magalhães, que há décadas é uma espécie de vice-rei da Bahia. São seus fiéis aliados 380 dos 415 prefeitos baianos. O atual governador, César Borges, juízes e empresários baianos gravitam em torno de ACM. Ele lidera todas as pesquisas de intenção de voto para a próxima eleição ao Senado, de onde saiu no ano passado em meio a acusações de ter sido conivente com a fraude do placar de votações da casa. Mas pouca gente aposta que ACM voltará a exercer a mesma influência que teve na política brasileira até ser obrigado a deixar o Senado em 2001.

 
Renato de Sousa/Rep. álbum de família
mília
Família Collor com o patriarca Arnon de Mello: ofuscada pelo impeachment de Fernando Jader preso e algemado: fortuna inexplicada de 30 milhões de reais

Até mesmo a fonte principal de manutenção do poder local dos grandes oligarcas, o domínio completo da imprensa, pode estar começando a minguar. Por força de contratos com as grandes redes, os repetidores locais de televisão são obrigados a transmitir na íntegra os telejornais e até gerar notícias pedidas pelas redações no Rio de Janeiro e em São Paulo. A televisão dos Sarney foi obrigada a transmitir para o Maranhão, sem cortes, todo o noticiário do Jornal Nacional sobre o escândalo Roseana. Uma equipe da televisão dos Sarney teve de gravar cenas de uma passeata local de mulheres que gritavam slogans contra Roseana e pediam a apuração das fraudes da Sudam e da origem do 1,3 milhão encontrado no cofre da empresa da governadora e de seu marido, Jorge Murad. Para dar sua versão particular do caso, Roseana convocou uma rede de televisão estadual. Falou, então, só o que queria.

Foi um golpe no controle absoluto da informação que os coronéis eletrônicos cultivam. Atualmente, 25% das 250 emissoras comerciais de televisão do país estão em mãos de políticos. Nos Estados do Norte e Nordeste elas são dominadas por grandes dinastias políticas locais. Além de ACM, os ex-presidentes José Sarney e Fernando Collor de Mello, os governadores Tasso Jereissati (Ceará), Garibaldi Alves (Rio Grande do Norte) e Albano Franco (Sergipe) e o ex-senador Jader Barbalho (Pará) são donos de redes locais de televisão. O processo é aquele que se conhece. As concessões são barganhadas em Brasília, e os governos locais cuidam de adubar as emissoras com verbas públicas. Em Alagoas, os Collor de Mello souberam tirar todo o proveito da comunicação. Afastada do poder desde o impeachment de Fernando Collor de Mello em 1992, a família ainda garante sua força regional por meio da Organização Arnon de Mello, conglomerado fundado na década de 50 que reúne onze empresas encabeçadas por uma emissora de TV e o jornal Gazeta de Alagoas. No Maranhão, o governo Roseana Sarney destina 64% das verbas publicitárias oficiais para a televisão da própria família. Quando até esse reduto começa a ser atacado por um estilo de comportamento público menos carunchado, os motivos de preocupação para as oligarquias são muito reais. "A instituição do coronelismo eletrônico foi responsável pela sobrevivência de muitas famílias poderosas que estavam em decadência econômica acentuada", diz o historiador José Octávio de Arruda Mello. "Sem essa arma, eles perdem uma importante viga de sustentação."

As dinastias de poder prosperaram de forma mais visível no Nordeste do país. O fenômeno se manifesta no sul, mas de maneira mais branda. Um dos mais antigos clãs nordestinos é o dos Maia, que sempre teve atuação em dois Estados: Paraíba e Rio Grande do Norte. O atual líder do PFL no Senado, José Agripino Maia, é um dos herdeiros desse ramo, que há vários anos divide o poder no Rio Grande do Norte com os Alves (do ex-governador Aluizio e do atual Garibaldi) e com os Bezerra (do ex-ministro e senador Fernando Bezerra). A política está cheia de exemplos de que as oligarquias, termo que os gregos inventaram para descrever os governos exercidos por poucos – e maus –, não costumam ceder com facilidade, mesmo quando o ambiente se torna muito adverso. As redes subterrâneas em que todos os beneficiados têm o mesmo sobrenome há tempos vêm sendo substituídas por grupos de interesses mais amplos e métodos muito mais ousados em seus avanços sobre o dinheiro público. As ramificações em torno das grandes empreiteiras no passado recente do país são uma evidência disso. A quadrilha organizada em volta do juiz Nicolau dos Santos, o "Lalau", para roubar 169 milhões de reais das obras do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo é um exemplo ainda mais recente. "Esses grupos sobrevivem em transações em que o Estado sempre entra com dinheiro", diz o historiador José Murilo de Carvalho, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como em todo negócio que envolve dinheiro público, sempre que há vigilância e transparência as assombrações, tradicionais ou modernas, tendem a sumir.

 
 
   
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