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O
homem da máquina
já incomoda
Serra cresce nas pesquisas, vira alvo
do
PFL e, pela primeira vez, demonstra
fôlego para chegar ao segundo turno
Maurício Lima
Roberto Castro/AE
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| Serra:
amigos influentes no governo geram suspeita de manipulações nos bastidores
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Veja também |
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José
Serra diz que seu governo será, em relação ao de
Fernando Henrique Cardoso, "a continuidade sem continuísmo". É
um slogan. Maleável ao gosto do criador, como todos os slogans.
Invertam-se os termos e se terá outro slogan: "continuísmo
sem continuidade". Também faz sentido. Serra, se eleito, será
a continuação tucana no poder, mas a continuidade estará
rompida em termos de estilo de mando. Ambos, Serra e Fernando Henrique,
têm mais ou menos a mesma formação na esquerda dos
anos 50 e 60 e foram se adaptando aos novos tempos. Vieram de São
Paulo, romperam com o PMDB de Orestes Quércia, subiram juntos os
degraus do tucanato, têm amigos comuns. É no temperamento
e nas atitudes cotidianas que está a grande diferença. Fernando
Henrique é afável, conciliador. Nunca diz não a uma
idéia apresentada, ainda que tenha a intenção de
contradizê-la logo adiante sem parecer que discorda. Não
descarta o pedido que recebe, mesmo com a intenção deliberada
de engavetá-lo mais tarde. Serra é o oposto. Interage com
impessoalidade de executivo, diz não como método de trabalho,
busca resultados e não persuasão. Ficou conhecida em Brasília
sua impaciência com as comitivas de parlamentares que fazem filas
nas ante-salas dos ministros com listas de pedidos nas mãos.
Os aliados de Serra o definem como competente e sério. Os adversários
acham que é antipático e desagregador. "O Serra deveria
trabalhar como construtor de fossos. Ele só sabe separar as pessoas.
Nunca juntar", dizia na semana passada um alto dirigente pefelista. Dirigentes
pefelistas já não gostavam de Serra antes. Agora que a empresa
da candidata Roseana Sarney sofreu uma devassa policial no Maranhão,
gostam ainda menos. O escritório de Roseana e do marido, Jorge
Murad, estava carunchado de alto a baixo por documentos suspeitos e uma
bolada de 1,3 milhão de reais em espécie estocada nas prateleiras
de um cofre. Não importa aos pefelistas que o flagrante ordenado
pela Justiça se tenha justificado plenamente. Eles atribuem a manobra
ao grupo de Serra e querem vingança. "A cúpula do PFL quer
beber o sangue de Serra", disse a VEJA um dos mais destacados tucanos
brasileiros na semana passada.
Filho único de imigrantes italianos, José Serra vem de família
modesta. Seu pai era feirante e seu avô, analfabeto. Até
os 5 anos de idade, Serra dividia a mesma cama com os pais, numa casa
pequena no bairro da Mooca, em São Paulo. Casado com a psicóloga
chilena Mônica Allende, que foi bailarina clássica, teve
dois filhos, Luciano e Verônica. Nesta terça-feira, 19, Serra
faz 60 anos e já ganhou o presente por antecipação.
Subiu como um foguete nas pesquisas de opinião. Na do Ibope, tem
19% das intenções de voto. É o segundo colocado na
disputa, atrás de Luís Inácio Lula da Silva, com
25%. A hipótese, agora mais real, de que venha a ser presidente,
dada a inclinação de Lula para se estiolar no segundo turno,
aumentou muito a curiosidade em torno de Serra. Afinal, ele é o
candidato do partido que governa o país há sete anos, que
detém o Orçamento e a caneta até dezembro, que tem
o presidente da República, cinco ministros, seis governadores,
o presidente da Câmara e 93 deputados federais. Entra na campanha
carregado por uma máquina gigantesca e tem entre seus eleitores
uma boa parcela do PIB nacional.
O candidato tucano é famoso também pelas manias. Não
apenas aquelas do trabalho que incluem ser um cobrador implicante de prazos
e qualidade. Notívago, dorme muito tarde e acorda depois das 9
da manhã. Daí o apelido que o incomoda um pouco, "Nosferatu".
Entre os ajudantes-de-ordens da Presidência da República
é conhecido por ligar altas horas da noite para falar com Fernando
Henrique. "Presidente do Brasil não tem direito a sono", costuma
dizer, para irritação de FHC. À noite, é comum
disparar telefonemas enquanto se exercita na esteira ergométrica.
Suas preferências gastronômicas são peculiares. É
fã de pizza de soja, não gosta de nada que tenha cebola
e foge de doces. Como convidado, fica à vontade. Às vezes
até demais. Sempre pede para ver a garrafa do vinho oferecido.
Recusou uma codorna recheada na casa do vice-presidente Marco Maciel,
alegando que não gosta de passarinho. Serra também é
esquisito em relação à saúde. É hipocondríaco.
Sempre carrega algum remédio. Dizem que não fica longe de
uma maletinha de primeiros socorros, com gotas para os olhos, para o nariz
e erva-de-são-joão, para combater stress e evitar depressão.
Serra tem um bom currículo e uma ambição desmedida.
Militante esquerdista na juventude, exilado no Chile durante o governo
militar, foi secretário de Economia de São Paulo, deputado,
senador, ministro do Planejamento e da Saúde. Como FHC, estudou
e depois deu aulas em universidades nos Estados Unidos. Fala idiomas.
Nunca, porém, se elegeu para cargos executivos. Foi derrotado por
um desconhecido Celso Pitta em 1996, quando tentou ser prefeito de São
Paulo. Por onde passou deixou fama de administrador detalhista a ponto
de parecer neurótico. Até os adversários reconhecem
sua obstinação em fazer funcionar a máquina estatal
sob seu comando. Para ver acontecer as coisas, Serra atropela e vai deixando
inimigos pelo caminho. Isso ressalta um traço positivo de homem
público, o comprometimento total com um objetivo. O problema, dizem
os que não gostam do ex-ministro, é que seu zelo por resultados
administrativos é apenas um ornamento para ambições
políticas.
De olho na sucessão de Fernando Henrique, Serra espalhou aliados
por postos-chave do governo. Quando outros graduados tucanos tentaram
bater asas rumo a uma candidatura, foram prontamente rechaçados.
Um deles, o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, não
toca no assunto por correção e elegância, mas falava
abertamente sobre suas diferenças com o colega nos tempos em que
ainda lutava para ser o candidato tucano ao Planalto. Achava que Serra
conseguia, por exemplo, muito mais tempo de exposição na
TV para promover sua administração na Saúde, pressionando
para que ele, Paulo Renato, ficasse com menos. A amizade que tiveram por
mais de trinta anos hoje se resume a cumprimentos formais. Outro tucano,
Tasso Jereissati, governador do Ceará, também dá
apoio público à campanha de Serra, lembrando que é
um "homem de partido". Em particular, comenta com amigos que o ex-ministro
produz discórdia por onde passa.
Bruno Stuckert/ObritoNews
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| Reunião
da executiva do PFL: a cúpula do partido está unida contra o ex-ministro |
A
questão com Serra é mais sutil. Se o candidato tucano tem
tantos aliados encastelados em cargos decisivos do governo, isso só
mostra que em certo sentido ele consegue agregar. O problema aparece só
para os que o desafiam naquilo em que ele se considera imbatível:
a capacidade de comandar. Agrega, portanto, da mesma forma que um general
num regimento. Como Serra tem realmente muitos seguidores em postos de
comando, ele acaba pagando por todos os desmandos e erros, reais ou imaginários,
dos correligionários. Os pefelistas não piscam em apontar
que houve o dedo de Aloysio Nunes Ferreira, ministro da Justiça,
na operação policial realizada na empresa da governadora
do Maranhão. O ministro é do grupo serrista radical. A substituição
na semana passada de um delegado da Polícia Federal que investigava
um aliado de José Serra, Ricardo Sérgio de Oliveira, foi
interpretada como mais uma manobra do tucano para deixar a pista livre
para a decolagem de sua candidatura. Ricardo Sérgio é aquele
diretor do Banco do Brasil que atuava com desembaraço na Previ,
o bilionário fundo de pensão dos funcionários do
BB. Ele perdeu o cargo em 1998, quando foi flagrado numa gravação
clandestina confessando que agira "no limite da irresponsabilidade" no
processo de privatização da telefonia.
O ódio do PFL a Serra não começou com o escândalo
Roseana. O partido da base aliada do governo há tempos percebeu
as intenções de Serra de concorrer à Presidência
com um discurso à esquerda da pefelândia, o que a alijaria
do processo sucessório. As relações com o ministro
azedaram no episódio da eleição para a presidência
da Câmara e a do Senado. Na ocasião, o PFL queria eleger
o deputado federal Inocêncio Oliveira na Câmara. Já
com vista à eleição presidencial, Serra trabalhou
num acordo entre PSDB e PMDB para eleger o peemedebista Jader Barbalho
no Senado e o tucano Aécio Neves na Câmara. No dia da eleição,
Serra se empenhou fisicamente para garantir a vitória da dobradinha.
Do Palácio do Planalto, ligou para vários deputados e senadores
pedindo voto. O PFL nunca perdoou tanta dedicação. Os amigos
enxergam na influência tentacular de Serra no governo apenas o reflexo
de sua eficiência administrativa. "Isso só prova que ele
é capaz de trabalhar em conjunto, sabe fazer equipe e conhece a
máquina como poucos", diz o senador Artur da Távola, líder
do governo no Senado. Nos próximos meses, caberá aos eleitores
dar seu julgamento sobre a personalidade de José Serra. Com o deslocamento
de Roseana Sarney para a margem da disputa, os holofotes apontam com mais
intensidade para o tucano.
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