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Edição 1 743 - 20 de março de 2002
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O homem da máquina
já incomoda

Serra cresce nas pesquisas, vira alvo
do PFL e, pela primeira vez, demonstra
fôlego para chegar ao segundo turno

Maurício Lima

Roberto Castro/AE
Serra: amigos influentes no governo geram suspeita de manipulações nos bastidores


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O homem da máquina já incomoda
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Fórum: Dê sua opinião sobre a conduta dos presidenciáveis. É correto um fazer dossiês sobre a vida do outro? De onde vem o dinheiro das campanhas? Você se preocupa com a vida pregressa dos candidatos?

José Serra diz que seu governo será, em relação ao de Fernando Henrique Cardoso, "a continuidade sem continuísmo". É um slogan. Maleável ao gosto do criador, como todos os slogans. Invertam-se os termos e se terá outro slogan: "continuísmo sem continuidade". Também faz sentido. Serra, se eleito, será a continuação tucana no poder, mas a continuidade estará rompida em termos de estilo de mando. Ambos, Serra e Fernando Henrique, têm mais ou menos a mesma formação na esquerda dos anos 50 e 60 e foram se adaptando aos novos tempos. Vieram de São Paulo, romperam com o PMDB de Orestes Quércia, subiram juntos os degraus do tucanato, têm amigos comuns. É no temperamento e nas atitudes cotidianas que está a grande diferença. Fernando Henrique é afável, conciliador. Nunca diz não a uma idéia apresentada, ainda que tenha a intenção de contradizê-la logo adiante sem parecer que discorda. Não descarta o pedido que recebe, mesmo com a intenção deliberada de engavetá-lo mais tarde. Serra é o oposto. Interage com impessoalidade de executivo, diz não como método de trabalho, busca resultados e não persuasão. Ficou conhecida em Brasília sua impaciência com as comitivas de parlamentares que fazem filas nas ante-salas dos ministros com listas de pedidos nas mãos.

Os aliados de Serra o definem como competente e sério. Os adversários acham que é antipático e desagregador. "O Serra deveria trabalhar como construtor de fossos. Ele só sabe separar as pessoas. Nunca juntar", dizia na semana passada um alto dirigente pefelista. Dirigentes pefelistas já não gostavam de Serra antes. Agora que a empresa da candidata Roseana Sarney sofreu uma devassa policial no Maranhão, gostam ainda menos. O escritório de Roseana e do marido, Jorge Murad, estava carunchado de alto a baixo por documentos suspeitos e uma bolada de 1,3 milhão de reais em espécie estocada nas prateleiras de um cofre. Não importa aos pefelistas que o flagrante ordenado pela Justiça se tenha justificado plenamente. Eles atribuem a manobra ao grupo de Serra e querem vingança. "A cúpula do PFL quer beber o sangue de Serra", disse a VEJA um dos mais destacados tucanos brasileiros na semana passada.

Filho único de imigrantes italianos, José Serra vem de família modesta. Seu pai era feirante e seu avô, analfabeto. Até os 5 anos de idade, Serra dividia a mesma cama com os pais, numa casa pequena no bairro da Mooca, em São Paulo. Casado com a psicóloga chilena Mônica Allende, que foi bailarina clássica, teve dois filhos, Luciano e Verônica. Nesta terça-feira, 19, Serra faz 60 anos e já ganhou o presente por antecipação. Subiu como um foguete nas pesquisas de opinião. Na do Ibope, tem 19% das intenções de voto. É o segundo colocado na disputa, atrás de Luís Inácio Lula da Silva, com 25%. A hipótese, agora mais real, de que venha a ser presidente, dada a inclinação de Lula para se estiolar no segundo turno, aumentou muito a curiosidade em torno de Serra. Afinal, ele é o candidato do partido que governa o país há sete anos, que detém o Orçamento e a caneta até dezembro, que tem o presidente da República, cinco ministros, seis governadores, o presidente da Câmara e 93 deputados federais. Entra na campanha carregado por uma máquina gigantesca e tem entre seus eleitores uma boa parcela do PIB nacional.

O candidato tucano é famoso também pelas manias. Não apenas aquelas do trabalho que incluem ser um cobrador implicante de prazos e qualidade. Notívago, dorme muito tarde e acorda depois das 9 da manhã. Daí o apelido que o incomoda um pouco, "Nosferatu". Entre os ajudantes-de-ordens da Presidência da República é conhecido por ligar altas horas da noite para falar com Fernando Henrique. "Presidente do Brasil não tem direito a sono", costuma dizer, para irritação de FHC. À noite, é comum disparar telefonemas enquanto se exercita na esteira ergométrica. Suas preferências gastronômicas são peculiares. É fã de pizza de soja, não gosta de nada que tenha cebola e foge de doces. Como convidado, fica à vontade. Às vezes até demais. Sempre pede para ver a garrafa do vinho oferecido. Recusou uma codorna recheada na casa do vice-presidente Marco Maciel, alegando que não gosta de passarinho. Serra também é esquisito em relação à saúde. É hipocondríaco. Sempre carrega algum remédio. Dizem que não fica longe de uma maletinha de primeiros socorros, com gotas para os olhos, para o nariz e erva-de-são-joão, para combater stress e evitar depressão.

Serra tem um bom currículo e uma ambição desmedida. Militante esquerdista na juventude, exilado no Chile durante o governo militar, foi secretário de Economia de São Paulo, deputado, senador, ministro do Planejamento e da Saúde. Como FHC, estudou e depois deu aulas em universidades nos Estados Unidos. Fala idiomas. Nunca, porém, se elegeu para cargos executivos. Foi derrotado por um desconhecido Celso Pitta em 1996, quando tentou ser prefeito de São Paulo. Por onde passou deixou fama de administrador detalhista a ponto de parecer neurótico. Até os adversários reconhecem sua obstinação em fazer funcionar a máquina estatal sob seu comando. Para ver acontecer as coisas, Serra atropela e vai deixando inimigos pelo caminho. Isso ressalta um traço positivo de homem público, o comprometimento total com um objetivo. O problema, dizem os que não gostam do ex-ministro, é que seu zelo por resultados administrativos é apenas um ornamento para ambições políticas.

De olho na sucessão de Fernando Henrique, Serra espalhou aliados por postos-chave do governo. Quando outros graduados tucanos tentaram bater asas rumo a uma candidatura, foram prontamente rechaçados. Um deles, o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, não toca no assunto por correção e elegância, mas falava abertamente sobre suas diferenças com o colega nos tempos em que ainda lutava para ser o candidato tucano ao Planalto. Achava que Serra conseguia, por exemplo, muito mais tempo de exposição na TV para promover sua administração na Saúde, pressionando para que ele, Paulo Renato, ficasse com menos. A amizade que tiveram por mais de trinta anos hoje se resume a cumprimentos formais. Outro tucano, Tasso Jereissati, governador do Ceará, também dá apoio público à campanha de Serra, lembrando que é um "homem de partido". Em particular, comenta com amigos que o ex-ministro produz discórdia por onde passa.

 
Bruno Stuckert/ObritoNews
Reunião da executiva do PFL: a cúpula do partido está unida contra o ex-ministro

A questão com Serra é mais sutil. Se o candidato tucano tem tantos aliados encastelados em cargos decisivos do governo, isso só mostra que em certo sentido ele consegue agregar. O problema aparece só para os que o desafiam naquilo em que ele se considera imbatível: a capacidade de comandar. Agrega, portanto, da mesma forma que um general num regimento. Como Serra tem realmente muitos seguidores em postos de comando, ele acaba pagando por todos os desmandos e erros, reais ou imaginários, dos correligionários. Os pefelistas não piscam em apontar que houve o dedo de Aloysio Nunes Ferreira, ministro da Justiça, na operação policial realizada na empresa da governadora do Maranhão. O ministro é do grupo serrista radical. A substituição na semana passada de um delegado da Polícia Federal que investigava um aliado de José Serra, Ricardo Sérgio de Oliveira, foi interpretada como mais uma manobra do tucano para deixar a pista livre para a decolagem de sua candidatura. Ricardo Sérgio é aquele diretor do Banco do Brasil que atuava com desembaraço na Previ, o bilionário fundo de pensão dos funcionários do BB. Ele perdeu o cargo em 1998, quando foi flagrado numa gravação clandestina confessando que agira "no limite da irresponsabilidade" no processo de privatização da telefonia.

O ódio do PFL a Serra não começou com o escândalo Roseana. O partido da base aliada do governo há tempos percebeu as intenções de Serra de concorrer à Presidência com um discurso à esquerda da pefelândia, o que a alijaria do processo sucessório. As relações com o ministro azedaram no episódio da eleição para a presidência da Câmara e a do Senado. Na ocasião, o PFL queria eleger o deputado federal Inocêncio Oliveira na Câmara. Já com vista à eleição presidencial, Serra trabalhou num acordo entre PSDB e PMDB para eleger o peemedebista Jader Barbalho no Senado e o tucano Aécio Neves na Câmara. No dia da eleição, Serra se empenhou fisicamente para garantir a vitória da dobradinha. Do Palácio do Planalto, ligou para vários deputados e senadores pedindo voto. O PFL nunca perdoou tanta dedicação. Os amigos enxergam na influência tentacular de Serra no governo apenas o reflexo de sua eficiência administrativa. "Isso só prova que ele é capaz de trabalhar em conjunto, sabe fazer equipe e conhece a máquina como poucos", diz o senador Artur da Távola, líder do governo no Senado. Nos próximos meses, caberá aos eleitores dar seu julgamento sobre a personalidade de José Serra. Com o deslocamento de Roseana Sarney para a margem da disputa, os holofotes apontam com mais intensidade para o tucano.

 
 
   
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