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Edição 1 743 - 20 de março de 2002
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A sétima mentira
sobre o dinheiro

Nem mesmo quando disse falar
a verdade Murad deixou de
contar uma nova lorota

Policarpo Junior e Malu Gaspar

Murad, ao ler a nota: as versões trazem as digitais do ex-secretário


Clique nas imagens para vê-las ampliadas
O PRIMEIRO PASSO DA FARSA
Inicialmente, Jorge Murad e seus amigos fabricaram um contrato de empréstimo, de 650 000 reais. Murad, que disse não saber de nada, assinou o contrato fajuto como uma das testemunhas. Como o documento foi feito com data retroativa, 14 de fevereiro, as assinaturas não foram reconhecidas em cartório – para que o carimbo não revelasse que, na verdade, se tratava de um documento atual.
O SEGUNDO PASSO DA FARSA
Depois de fabricarem o contrato de empréstimo de 650.000 reais, Jorge Murad e seus amigos criaram a história de que haviam vendido vinte chalés de um resort no litoral maranhense – o que justificaria a soma total de 1,34 milhão de reais. Para dar credibilidade à farsa, o empréstimo e as vendas foram então acrescentados ao balancete contábil da empresa Pousada dos Lençóis.


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Fórum: Dê sua opinião sobre a conduta dos presidenciáveis. É correto um fazer dossiês sobre a vida do outro? De onde vem o dinheiro das campanhas? Você se preocupa com a vida pregressa dos candidatos?

Depois de seis versões diferentes para explicar a existência de 1,34 milhão de reais no cofre de sua empresa, Jorge Murad, marido da governadora Roseana Sarney, protagonizou uma cena patética na semana passada. Na terça-feira, diante dos holofotes, Murad leu uma nota em que afirmava que o dinheiro fora arrecadado por ele mesmo para bancar despesas da pré-candidatura presidencial de sua mulher e que fizera tudo sozinho, sem o conhecimento prévio de Roseana. Em seguida, disse que todas as explicações anteriores foram divulgadas por "amigos das horas difíceis" que, na solidária tentativa de ajudá-lo, fizeram "exposição pública de versões não autorizadas". Foi a sétima mentira sobre a origem da dinheirama apreendida pela polícia. A última versão, segundo a qual o dinheiro decorria da venda de chalés e de um empréstimo, foi minuciosamente inventada por Murad e seus "amigos das horas difíceis", e a exposição pública foi ensaiada. Para dar alguma veracidade à fábula, Murad e seus amigos fabricaram um contrato de empréstimo e ainda falsificaram, às pressas, o balancete contábil de fevereiro de uma empresa.

No fim de semana seguinte à apreensão do dinheiro, Murad e os amigos se ocuparam em forjar uma versão. Primeiro, decidiram inventar que o dinheiro não era da Lunus, mas de outra empresa, que funciona no mesmo local, a Pousada dos Lençóis – da qual Roseana Sarney não é sócia. Em seguida, criaram um contrato de empréstimo, no valor de 650.000 reais, para a Pousada dos Lençóis. Escalaram o empresário, amigo e sócio Luís Carlos Cantanhede Fernandes, dono de uma empresa de segurança, a Atlântica, para o papel de emprestador do dinheiro. O contrato, que leva o nome de Instrumento Particular de Contrato de Mútuo e Outras Avenças, foi idéia dos advogados de Murad. Ao final do "documento", Cantanhede Fernandes assina como mutuante, e Severino Francisco Cabral, um dos sócios da Pousada dos Lençóis, como mutuário. O contrato tem três páginas, traz data de 14 de fevereiro e termina assim: "Por estarem de comum acordo, as partes assinam o presente juntamente com duas testemunhas que a tudo assistiram". Uma das testemunhas que a tudo assistiu, e cuja assinatura está lá, é Jorge Murad – ele, que não sabia de nada.

 
Ana Araujo
O material apreendido pela polícia no escritório AC Rebouças: papéis da Lunus e pilhas de cheques

Para dar ares de autenticidade à história, os amigos Jorge, Cantanhede e Severino montaram em seguida um segundo capítulo. Os três são sócios no complexo turístico Pousada dos Lençóis. O negócio prevê a construção de 100 chalés numa das áreas mais belas do Maranhão. Lançado em dezembro, o empreendimento foi quase todo vendido. Só que, antes de as vendas começarem, a tróica separou na planta os melhores chalés do resort, reservando-os para si próprios e alguns amigos. Como não havia contrato formal, encontraram aí um bom álibi para justificar outra parte do dinheiro. Bastava combinar com os amigos, que ainda não tinham desembolsado um único tostão pelo imóvel, para que dissessem que a compra acontecera em fevereiro. Como já tinham forjado o empréstimo de 650.000 reais, para completar o 1,34 milhão faltavam 690.000 reais. Bastava, então, simular a venda de dezessete chalés, a 40.500 reais cada um. Decidiram "vender" vinte para dar mais credibilidade à história. A diferença, justificariam, se preciso, era em razão de algumas despesas já realizadas para iniciar as obras do resort.

Para concluir a farsa, Murad e Cantanhede forjaram então a entrada do dinheiro no balancete contábil da Pousada dos Lençóis do mês de fevereiro. No balancete, que estava no computador, registraram as duas operações – o empréstimo e as vendas – que nunca existiram de fato. Tudo muito semelhante à célebre Operação Uruguai, uma farsa montada pelo ex-presidente Fernando Collor para justificar a existência de 5 milhões de dólares – igualmente avalizada por dois empresários e amigos, o senador cassado Luiz Estevão e o deputado Paulo Octávio. Apesar do empenho, a versão maranhense do 1,34 milhão de reais não colou. Na segunda-feira passada, Jorge Murad e Roseana se reuniram com um grupo de assessores para analisar o caso. Surgiu a idéia de dizer que o dinheiro era caixa de campanha. "Isso é um crime perigosíssimo", insistia o advogado Vinícius Berredo Martins, que era contra essa versão. "Admitir que esse dinheiro é de campanha vai liquidar de vez essa candidatura", ponderou um assessor de Roseana. Foi quando Murad fez uma intervenção decisiva. "Desculpe, mas a candidatura já acabou", disse ele. Foi o sinal verde para que a nova versão começasse a ganhar forma.

 
O deputado Francisco Coelho (à esq.) e o consultor Aldenor da Cunha Rebouças: pagamento em cheque

Ninguém sabe, realmente, se o dinheiro era para a campanha de Roseana Sarney ou não. Mesmo porque os recursos, quando oferecidos na surdina, só se tornam "dinheiro de campanha" na hora da saída – e não na de entrada. As contribuições recolhidas por Murad não foram feitas no período legal, pois a candidatura de Roseana nem sequer foi oficialmente registrada, e também não se deram por meio do mecanismo adequado, que é o bônus eleitoral. Assim, empresários podem até ter contribuído com Murad, julgando que estavam auxiliando nos gastos de Roseana, mas isso só se materializaria no momento em que o dinheiro realmente fosse usado na campanha eleitoral – o que não aconteceu. O único aspecto que incomodava Murad para assumir essa versão era a revelação dos doadores. "Vou ter de expor o nome de pessoas que colaboraram conosco", reclamou Murad. Os advogados tranqüilizaram-no, dizendo que isso poderia ser feito apenas em juízo. Na terça-feira, portanto, Murad chamou a imprensa e leu sua nota.

Analisada sob seus diversos ângulos, a história alça Jorge Murad à condição de fenômeno. Significa que o homem mais poderoso do governo de Roseana Sarney, responsável por áreas centrais da administração pública e controlador de quase metade do orçamento do Estado do Maranhão, era também um caixa clandestino de campanha. Num paralelo histórico, guardadas as proporções e as circunstâncias, era como se PC Farias, o célebre caixa eleitoral, tivesse sido, além de tudo, o mais poderoso ministro de Estado durante o governo de Fernando Collor. No caso de Murad, as conexões são fabulosas. Além de caixa eleitoral e secretário todo-poderoso, cargo ao qual foi constrangido a renunciar na semana passada, Murad espalha tentáculos cruzados entre negócios públicos e privados. A construção do resort em Lençóis Maranhenses, que esteve no centro da mentira sobre o 1,34 milhão de reais, é apenas uma entre as estrelas dessa constelação de interesses.

Há algum tempo, Luís Carlos Cantanhede Fernandes, dono de uma agência de viagens, convidou o amigo Jorge Murad para tocarem juntos um empreendimento de exploração turística do litoral do Estado. Fundaram a Pousada dos Lençóis, que depois também recebeu como sócio o engenheiro Severino Cabral. O projeto, inicialmente, previa investimento de 5 milhões de reais, mas estudos preliminares indicavam que era dinheiro demais para colocar num lugar de difícil acesso, onde não havia nem estrada asfaltada. Como num consórcio de amigos, tudo começou a se resolver. O governo do Maranhão construiu a estrada ligando São Luís a Barreirinhas, município onde se localizará o resort. A parte final da estrada, que viabilizou o projeto e valorizou a região, foi feita pela construtora Sucesso, do empresário piauiense João Claudino. Quando a Polícia Federal bateu na Lunus, encontrou 150.000 reais, com uma tarja identificando que era dinheiro da Sucesso. Murad, agora, diz que se tratava de recursos de campanha. Ou seja: um projeto privado se viabilizou, o Estado pagou a obra, a obra foi feita por um amigo – e o amigo pingou dinheiro no caixa eleitoral.

A parceria se desdobrou em outros campos. Hoje, a Sucesso mantém um canteiro de obras no Estado que já lhe rendeu 55 milhões de reais. Além da estrada para Barreirinhas, a empreiteira construiu um shopping center. Começou a obra sozinha, enfrentou problemas burocráticos, mas acabou por concluí-la depois que aceitou como sócio um amigo de Jorge Murad, Miguel Ethel. A construtora também atuou no mercado imobiliário, erguendo um prédio numa das áreas mais valorizadas de São Luís. O engenheiro responsável é Severino Cabral, também dono de uma empreiteira e sócio de Jorge Murad na Pousada dos Lençóis. O luxuoso edifício, construído no bairro da Ponta d'Areia, encantou Jorge Murad. Ele foi um dos primeiros a comprar uma unidade.

As relações de parentesco também fazem parte das engrenagens de Murad. Seus primos, por exemplo, possuem empresas que atuam em diversos setores – construção civil, revenda de veículos, instalações elétricas – e costumam usar o governo do Estado como centro de gravidade. Um de seus primos, Miguel Dualibe, é dono de duas empresas, a Remoel e a Premolde. Outros dois primos, Henry e Francisco Dualibe, são donos de duas empresas, a Ducol e a Duvel. Examinando-se o orçamento do Estado do Maranhão desde 1998, quando Roseana se elegeu para o segundo mandato, constata-se que as empresas dos primos de Murad já foram contratadas para fazer diversas obras públicas. Somadas, essas obras passam de 100 milhões de reais. É uma quantia razoável, considerando que o orçamento anual do governo maranhense não chega a 3 bilhões.

Como se fossem satélites, algumas empresas do Maranhão estão sempre na órbita de pessoas importantes e do governo. A construtora Planor, por exemplo, especializou-se num ramo curioso da engenharia – o das obras fantasmas. Recebeu 16 milhões de reais para construir uma estrada entre os municípios de Paulo Ramos e Arame. A estrada não existe. Foi a empreiteira contratada para fazer o serviço de terraplanagem da Usimar, aquela empresa que meteu a mão em 44 milhões da Sudam e também não existe. Os sócios da Planor são amigos de faculdade de Fernando Sarney, irmão de Roseana, o responsável por administrar os negócios da família Sarney. Adalberto Furtado, outro amigo de Fernando Sarney, também é um construtor assíduo no Maranhão. Dono da Skala Engenharia, seu empreendimento mais marcante foi o estacionamento do aeroporto do Maranhão. A empresa venceu a licitação por 840.000 reais. A obra acabou saindo por 2,9 milhões. A Skala também construiu a nova sede da TV Mirante, a emissora da família Sarney.

"Aqui não há licitação dirigida", afirma Francisco Baptista, presidente da Comissão Permanente de Licitação do governo maranhense. "Ganham empresas dos amigos da família, mas também ganham outras que nada têm a ver", completa. Uma das empresas que nunca levaram nada do Estado é a AC Rebouças, o escritório de consultoria que virou uma usina de projetos destinados a fraudar a Sudam. Não arrancou um tostão do Estado, mas contou com a ajuda de Murad e Roseana para aprovar alguns projetos fraudados – entre eles, o maior de todos, a megafraude da Usimar. O escritório AC Rebouças oferecia serviço completo. Fazia o projeto, acompanhava a aprovação, subornava fiscais para que emitissem laudos fajutos e, por fim, ficava com um pedaço do dinheiro. A polícia já sabe que a AC Rebouças desviou, sozinha, 36 milhões de reais. Parte do dinheiro escoou para paraísos fiscais, onde estariam contas administradas pelos verdadeiros donos do dinheiro. No escritório AC Rebouças, a Polícia Federal encontrou documentos da Lunus e, também, cópias de cheques pagos a políticos ligados à família Sarney – entre eles, o deputado Francisco Coelho, do PFL do Maranhão. É incrível, mas eles sempre ganham.

Com reportagem de Vannildo Mendes
 
 
   
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