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Edição 1 743 - 20 de março de 2002
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É a vez de Serra

Acesso rápido
Capas de VEJA
2000 | 2001 | 2002

O tucano rouba o lugar de Roseana Sarney nas pesquisas e deixa mordida
a cúpula do PFL, que só
fala em vingança





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Fórum: Dê sua opinião sobre a conduta dos presidenciáveis. É correto um fazer dossiês sobre a vida do outro? De onde vem o dinheiro das campanhas? Você se preocupa com a vida pregressa dos candidatos?

As últimas pesquisas de opinião divulgadas na semana passada dão a exata dimensão do prejuízo provocado na candidatura de Roseana Sarney pela devassa feita pela Polícia Federal em seu escritório. Em pouco mais de dois meses, de acordo com dados do Datafolha, Roseana caiu de 21% das intenções de voto para 15%, perdendo o segundo lugar para o candidato tucano, José Serra, que subiu de 7% para 17%. Serra esperava melhorar sua posição nas pesquisas aos poucos. Segundo suas contas, lá pelo mês de junho estaria brigando pelo segundo lugar. Mas acabou tomando o posto de Roseana já em março. Diante do novo cenário, pode-se dizer que o tucano abraça chances muito maiores de chegar ao Palácio do Planalto que aquelas que a filha de José Sarney tinha antes da batida policial. Mais uma vez, o candidato do PT, Luís Inácio Lula da Silva, corre o risco de atuar como figurante para valorizar a vitória do candidato anti-PT. Aconteceu isso em 1989, quando Fernando Collor e Lula fizeram o segundo turno, mas há agora uma diferença notável que dificulta ainda mais a missão do petista. Serra chega à corrida com apoio da máquina do governo, tendo a empurrá-lo Fernando Henrique Cardoso, cujo prestígio está ascendente, de acordo com as pesquisas. Outro fator decisivo diz respeito ao apoio seguro que Serra recebe no meio empresarial paulista. Nesse sentido, pode-se dizer que chegou a vez de Serra.

Na outra ponta, o PFL está em estado de catalepsia. Perdeu seu lugar no governo, está perdendo sua esperança de concorrer com candidato próprio e procura desesperadamente soluções que evitem sua rendição humilhante ao tucano José Serra. Na semana passada, a cúpula do partido falava em tomar carona na candidatura Ciro Gomes. E teve até gente lembrando de apelar para que Silvio Santos concorra à Presidência com a camisa pefelê. "Eles sempre pensam no meu nome em momentos de crise", disse a VEJA o empresário. "Mas não tenho planos de entrar nessa aventura."

O PFL é portador do vírus governista, para o qual não se conhece uma vacina. Está em seu DNA aderir de novo. Mas, por enquanto, é impensável que seus cardeais voltem de cabeça baixa a procurar o homem a quem atribuem a desgraça de sua candidata. Enquanto não se decidem pelo que fazer, agarram-se a qualquer chance de vingança. Na semana passada, os pefelistas entusiasmaram-se com a criação de uma "CPI do grampo" em união amiga com o PT, que sempre detestaram, sob o pretexto de que o Ministério da Saúde, com Serra à frente, contratou uma firma de arapongagem. Ao mesmo tempo que pressiona, o PFL reza para que o PSDB acabe optando por uma candidatura alternativa à de José Serra, como a de Aécio Neves, para que o partido possa aderir sem vexame. Nesse sentido, também se pode dizer que chegou a vez de Serra – a vez de Serra virar alvo.

Nesse ambiente hostil envolvendo os dois principais partidos da base governista, espalha-se pelo Brasil afora um clima de delação. Dossiês recheados de denúncia, na maior parte calúnias, circulam nervosamente de mão em mão. É a campanha mais lamacenta que o país já viu desde o fim da ditadura militar. Fernando Collor apelou para a difamação contra Lula, mas só fez uso dessa arma insidiosa no fim da campanha. Com um detalhe: ele teve a coragem de divulgar denúncias contra Lula no próprio programa eleitoral, correndo o risco de ser punido pelo eleitor em razão da baixaria. Agora, não. Os apócrifos dossiês, a arapongagem e a difamação começaram sete meses antes da eleição. Não há provas nesses dossiês. Aliás, nem é esse seu propósito. O que eles provam, na verdade, é que os bandidos são seus autores, e não as pessoas que neles são denunciadas. O PT acompanha calado a movimentação e o povo a tudo vê com espanto. Numa pesquisa feita pelo Instituto Vox Populi, mais da metade dos brasileiros acham que esses dossiês só servem para intimidar e 75% acreditam que político faz qualquer coisa para ganhar eleição. Com isso, a campanha desce do patamar desejável da discussão dos temas relevantes e se projeta na sarjeta da acusação pessoal. Não é um padrão civilizado e construtivo, marcado pela busca de idéias e receitas para melhorar o país.

 
 
   
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