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Edição 2048

20 de fevereiro de 2008
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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Perdido na tradução

Histórias do Quênia, segundo um queniano
– do Quênia real e do Quênia como metáfora

Simiyu Barasa é um jovem (28 anos) escritor, roteirista de TV e cineasta queniano. Poucas semanas atrás, num artigo veiculado na internet, ele declarou-se morto. "Adeus, amigos", escreveu. "Tomo como exemplo as casas de fast-food, nas quais sempre há avisos pedindo aos clientes que ‘paguem adiantado’, e digo adeus adiantado." O artigo intitula-se "O obituário de Simiyu Barasa escrito por ele mesmo". Como morreu Barasa? Ele diz estar em dúvida quanto a esse ponto. Pode ser que tenha morrido trancado junto com outras pessoas numa igreja, a que em seguida botaram fogo. Também pode ser que tenha sido arrastado do ônibus em que viajava e massacrado por uma turba que bloqueava a estrada. Em qualquer caso, estando acostumado, como profissional de cinema e de TV, a ensaiar e procurar as melhores circunstâncias para cada cena, também para este caso se preparou. Na morte na igreja, sentiu o cheiro da gasolina sendo jogada por entre as janelas e espalhando-se pelos corpos dos que estavam lá dentro. Na morte na estrada, caprichou no sorriso com que respondia aos golpes de seus algozes.

Na verdade, Simiyu Barasa declara-se morto por seu país. O Quênia, até então um dos mais pacíficos e relativamente prósperos países da África, regrediu, desde o fim do ano passado, à barbárie de grupos que se estraçalham porque falam línguas diferentes. O começo da história é uma eleição que, fraudada pelo atual presidente, Mwai Kibaki, teve seu resultado contestado pela oposição, reunida em torno da candidatura de Raila Odinga. A disputa política degenerou em lutas tribais. Os episódios em que Barasa imagina que tenha morrido são reais. O mais escandaloso foi o da igreja em que dezenas de pessoas da etnia quicuio, a mesma do presidente, haviam se refugiado, depois de ter suas casas queimadas. Inimigos da etnia luo, a que pertence o oposicionista Odinga, atearam fogo à igreja. No episódio da estrada, um dos homens que a bloqueavam entra no ônibus e ordena aos passageiros: "Todo mundo com a carteira de identidade na mão!". Os que pertenciam a tribos consideradas inimigas eram arrastados para fora e mortos a pauladas e facadas, em cenas registradas pela TV e observadas passivamente por policiais.

Um bom modo de descobrir a qual etnia uma pessoa pertence, entre as várias que compõem o Quênia, é pela língua materna. A irmã de Barasa, a enfermeira Rozi, viveu um caso aterrorizante quando teve a ambulância em que viajava parada numa estrada. O motorista era da tribo local e foi deixado de lado. Os outros tinham de provar a que grupo pertenciam, e enquanto eram interrogados Rozi percebeu que nos arredores havia cadáveres ainda frescos. Na vez dela, Rozi disse ser da etnia luia. Pediram então que falasse a língua luia, mas ela não sabia. "Não aprendi o luia porque minha mãe é taita", disse. Ela trazia consigo um documento da mãe, e pôde provar que o que dizia era verdade. Foi uma sorte, porque, além do inglês e do suaíli, a língua geral da costa leste da África, a única língua que Rozi fala é o quicuio – exatamente a da tribo que a turba da estrada procurava.

O problema de Simiyu Barasa, segundo afirma no "obituário", é que ele não se sente de tribo alguma. E isso não só porque pertence a uma família mista, como muitas outras, mas porque acreditava no país chamado Quênia, cujas línguas oficiais são o inglês e o suaíli. De repente todo mundo começou a achar que, antes de queniano, é quicuio, ou luo, ou luia, ou calenjim. Barasa costumava caçoar dos amigos que emigravam para os Estados Unidos, onde iriam "limpar toaletes". Em vez do sonho americano, acreditou num "sonho africano" – do qual nas últimas semanas foi brutalmente despertado. "Eu não tenho lugar algum para ir. Nenhuma tribo para a qual correr. Nenhuma para me proteger." Qualquer idioma que venha a falar, segundo afirma, vai traí-lo. Daí preferir declarar-se, desde já, morto, e apresentar suas despedidas: "Eu os amava, meus compatriotas. Eu os amava sem pensar na linhagem de seus pais. Eu amava o Quênia. Mas olhem o que este país fez em mim: sodomizou meu senso de humanidade e meu orgulho".

Para quem não está ligando o nome à pessoa, o Quênia é o país, primeiro, dos fabulosos campeões das maratonas e, segundo, da família paterna de Barack Obama (por sinal, da etnia luo). Mas o Quênia deste texto, assim como o do obituário de Barasa, pode também ser entendido como nenhum país em especial, e todos – é qualquer lugar em que tribos não se entendem porque falam línguas diferentes. Nem sempre são tribos no sentido de etnias. Nem sempre se trata de língua no sentido de idioma. E nem sempre é necessário chegar às vias de fato como as que, selvagemente, o Quênia vem experimentando. Com todo o respeito pelo dilaceramento e pelo sofrimento muito concretos vividos pelo Quênia real, o Quênia é também uma metáfora – a metáfora do ato de buscar refúgio em um modo de falar só meu e dos meus muito próximos, para melhor afastar, e no limite aniquilar, os outros.



 

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