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20 de fevereiro de 2008
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Mistura moderna

Personagens da Bíblia e da mitologia grega convivem
em uma peça do dramaturgo português Gil Vicente


Rinaldo Gama

Considerado ainda hoje o maior nome do teatro português, Gil Vicente (1465-1536) também escreveu peças em castelhano. Dos 42 textos que levou ao palco em 34 anos de carreira, consta que pelo menos onze teriam sido redigidos em espanhol – entre eles, o Auto da Sibila Cassandra (tradução de Alexandre Soares Carneiro e Orna Messer Levin; Cosac Naify; 160 páginas; 32 reais), que ganha agora uma bem-cuidada edição bilíngüe. Com data provável de 1513, essa nona peça do dramaturgo não alcançou a notoriedade de alguns de seus outros trabalhos, como o Auto da Barca do Inferno (1517). Trata-se, contudo, de uma obra surpreendente, cuja mistura de personagens da Bíblia e da mitologia grega soa moderna.

O que chama atenção no texto é o modo original com que Gil Vicente explora os limites de um dos gêneros mais tradicionais do teatro ibérico, o auto natalino. Tendo em sua perspectiva o nascimento de Cristo, o dramaturgo põe em cena uma engenhosa mistura de tempo e espaço, trazendo à tona a discussão de temas como a condição da mulher. Para tanto, Gil Vicente resgata da mitologia grega a personagem Cassandra, profetisa (sibila) que arrastava uma maldição: ninguém punha fé em seus vaticínios. Os troianos, por exemplo, não lhe deram ouvidos quando ela advertiu que não deviam aceitar o cavalo de madeira que os gregos haviam lhes dado de presente – dentro do qual se escondiam soldados. A Cassandra de Gil Vicente repele com veemência as investidas do rei bíblico Salomão, interessado em desposá-la. Sem se render ao palavrório de três outras sibilas e de Isaías, Moisés e Abraão, figuras do Velho Testamento convocadas por Salomão para tentar dobrá-la, Cassandra, enfim, revela por que não aceita se casar: acredita que será a Virgem escolhida por Deus para dar à luz o Messias. Dessa vez, porém, a profecia está obviamente errada. Por fim, diante do "aparato do Nascimento", ela abandona sua postura rebelde de concorrente de Maria e passa a venerar a mãe de Jesus.

Divulgação
Músicos e dançarinos medievais em celebração natalina: convenções postas em xeque

Gil Vicente não perde a oportunidade de pôr em xeque uma série de convenções morais e estéticas de seu tempo. Protegido pela rainha dona Leonor, o teatrólogo, ao longo de sua obra, não poupou críticas à sociedade portuguesa. Vê-lo, entretanto, como mero cronista de uma época é reduzir seu talento. Escritor de transição entre o período medieval e o Renascimento, assombrado pela religiosidade e pelo humanismo, Gil Vicente armou seu Auto da Sibila Cassandra com recursos estruturais que lhe dão o tom de atualidade. É isso que explica a sua permanência, depois de quase 500 anos em que foi visto pela primeira vez.


 

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