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20 de fevereiro de 2008
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Cinema
A revolução e ela

Persépolis começa como um relato fascinante da vida
no Irã – e termina como um chororô de adolescente


Isabela Boscov

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Trailer do filme

Marjane Satrapi era pequena quando a revolução fundamentalista de 1979 virou seu Irã natal de ponta-cabeça: intelectuais de esquerda como seu pai e seu tio, que vinham apoiando a derrubada do xá Reza Pahlevi, foram atropelados pelo ardor islâmico; mulheres modernas, como sua mãe, se viram de um dia para o outro cobertas em véus; e meninas que gostavam de filmes de Bruce Lee, como ela, passaram a ter de comprar seus discos em esquinas mal freqüentadas de Teerã, de homens que vendiam música como quem trafica drogas. Essa perplexidade e sentimento de traição são o que há de genuíno em Persépolis (Persepolis, França/Estados Unidos, 2007), o desenho animado que estréia nesta sexta-feira no país. Co-dirigido por Marjane com base na história em quadrinhos autobiográfica que publicou em 2000, o filme dramatiza a revolução, a guerra com o Iraque e o auto-exílio da autora – primeiro em Viena, depois em Paris – em matizes de preto-e-branco e em texturas ricas, que dão a ele uma qualidade pictórica. Marjane brinca ainda com a arte tradicional persa e com o grafismo ocidental, criando uma combinação extremamente expressiva (que rendeu a indicação ao Oscar de animação). Isso, pelo menos, na primeira parte do filme, em que o tom didático está de acordo com o tema e com a idade da protagonista. A partir do momento em que Marjane vai ser rebelde em Viena, Persépolis pára de crescer e, de dramatização, passa a ser tão-somente simplificação.

Gino Domenico/AP
Marjane: quadrinho adotado no currículo até de West Point


Segundo o New York Times, o quadrinho Persépolis foi adotado pelo currículo de 118 faculdades americanas – entre as quais a academia militar de elite de West Point. Essa é ao mesmo tempo a recomendação e a praga que atinge a obra de Marjane: a supervalorização que advém da raridade dos relatos femininos da vida sob o islamismo. Esse é o dado que levou a França a apontar Persépolis como seu concorrente à categoria de filme estrangeiro (não emplacou), em vez do tiro certo que seria Piaf. E é esse também o aspecto que tem obscurecido o grande defeito do filme: em sua segunda metade, ele não é muito mais do que o chororô de uma adolescente que acha que o mundo e as revoluções estão contra ela. Nada mais globalizado, ou mais aborrecido, do que esse egocentrismo.



 

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