Entrevista: José
Eduardo Cardozo O mensalão existiu
O
novo secretário-geral do PT reconhece a existência de esquema
de cooptação de políticos e diz que o partido precisa
retomar a bandeira da ética
Otávio
Cabral
Ana Araújo
"Vou
ser claro: teve pagamento ilegal de recursos para políticos aliados? Teve.
Ponto final. É ilegal? É. É indiscutível? É.
Nós não podemos esconder esse fato da sociedade"
O deputado José Eduardo Cardozo
assumiu a secretaria-geral do PT, o segundo posto mais alto da hierarquia do partido
cargo que já foi ocupado por Silvio Pereira, o Silvinho, uma das
estrelas do escândalo do mensalão. Nas últimas eleições
internas do PT, José Eduardo disputou a presidência com um discurso
crítico em relação ao comportamento e às atitudes
dos atuais comandantes da legenda. Prometia que, se eleito, promoveria uma faxina
ética no partido. Foi derrotado. Ex-integrante da CPI dos Correios, o deputado
acompanhou de perto as investigações que revelaram os métodos
utilizados pelas lideranças petistas para comprar apoio político
no Congresso. Por isso, ao contrário dos seus colegas de partido, talvez
ele seja o único a reconhecer a existência do mensalão e a
defender a punição dos envolvidos. O deputado assume o cargo que
exercerá ao lado de figuras que prometia combater. Na semana passada, José
Eduardo Cardozo falou a VEJA sobre o desafio de fazer uma depuração
ética no PT e sobre o paradoxo de ter ao lado companheiros que colaboraram
para levar o partido ao fundo do poço.
Veja
O senhor foi candidato à presidência do PT com a proposta
de refundação do partido, de expurgar os corruptos e as práticas
de corrupção. Dois meses depois de ser derrotado, assume a secretaria-geral
do partido presidido por um aloprado (Ricardo Berzoini) ecom influência
de mensaleiros. Como explicar essa contradição? José
Eduardo Cardozo Não há contradição. A executiva
do PT é formada proporcionalmente por todas as correntes. A chapa pela
qual eu fui candidato, a Mensagem ao Partido, chegou em terceiro lugar e ficou
com parte do comando. Garanto que todos os membros de nossa chapa no diretório
nacional seguirão nossas propostas, nossa linha de conduta. Vamos defender
a instituição do código de ética, o resgate da democracia
partidária e a depuração ética do partido. Só
aceitei assumir a secretaria-geral com esses compromissos.
Veja
Mas é possível conseguir isso com o partido ainda
dominado pelo Campo Majoritário dos "aloprados"? José
Eduardo Espero que sim. Há uma percepção hoje
em todas as correntes do PT de que é necessário resgatar os compromissos
éticos históricos do partido.
Veja
O seu nome chegou a ser cogitado para ocupar a relatoria da CPI
dos Cartões. O senhor acha correto uma investigação deixar
de fora os gastos pessoais e familiares do presidente Lula e do ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso? José Eduardo É inaceitável
um tipo de acordo que implique cumplicidade com o ilícito. Aliás,
acordos na vida política devem ser feitos à luz do dia e dentro
de parâmetros éticos. Mas é importante frisar que em assuntos
que envolvam segurança de estado e de autoridades há que ter muita
cautela para que, no calor de uma disputa política, não se criem
problemas para o país. Tudo deverá ser investigado, mas o que trouxer
riscos para a segurança do estado não poderá ser divulgado
publicamente.
Veja Vamos analisar, então, uma questão prática. A ex-ministra
da Igualdade Racial Matilde Ribeiro deixou o cargo depois da revelação
sobre seus gastos irregulares com o cartão corporativo. Mas o PT, em vez
de repreendê-la ou abrir um processo interno, soltou uma nota atribuindo
sua saída ao preconceito das elites. Não está na hora de
o PT parar de passar a mão na cabeça de seus aloprados? José
Eduardo Não quero analisar situações individuais,
pré-julgamentos são sempre ruins. Mas qualquer desvio ético
que um petista cometa tem de ser rigorosamente punido. Nós temos de ser
mais duros com nossos militantes e dirigentes do que somos com nossos adversários.
Um partido que entende que a ética é indispensável para a
construção da democracia, como nós sempre sustentamos, não
pode defender a ética para fora e não colocar a ética para
dentro. Em qualquer escândalo, denúncia ou suspeita, o PT tem de
ter uma postura ativa. Seja para absolver, seja para condenar. Não pode
se omitir, não pode passar a mão na cabeça.
Veja
Mas, no caso dos cartões, o PT não está passando
a mão na cabeça? José Eduardo Não.
A intenção clara do PT é que qualquer situação
que envolva o uso de cartões corporativos seja investigada a fundo. Mas
não se pode esquecer que esse caso dos cartões é um problema
de descontrole administrativo da máquina da União não só
no atual governo. É um problema pontual, envolvendo alguns funcionários,
que os nossos adversários utilizavam para transformar em uma crise política
do governo do PT. Querem carimbar no PT e em Lula uma questão administrativa,
o que é um erro. Como seria um erro se tentássemos carimbar no PSDB
erros do governo FHC no uso de cartões. Esse perío-do no governo
nos ensinou que devemos dar o peso e o tom certos às coisas, sob pena de
nossa retórica política se voltar contra nós mesmos. Isso
não significa impunidade. Mas nunca devemos pegar uma situação
estrutural e administrativa, que tem de ser corrigida, e transformá-la
em uma crise. Esse comportamento leva a generalizações do tipo "todo
mundo é igual". E nem todo mundo é igual na política.
Veja
Mas não são as práticas dos políticos
brasileiros, a sucessão de escândalos em todos os partidos, que levam
a essa generalização? José Eduardo Estou
convencido de que a questão da ética e da falta de dimensão
republicana de separar a coisa pública da coisa privada é o principal
problema brasileiro da atualidade. Não é uma questão nova.
Desde a chegada de Cabral até hoje, a distinção entre o público
e o privado não existe. Não é à toa que se consolidaram
frases como "Rouba, mas faz". Isso traz um viés perverso de dizer
que todo político é ladrão, como se fosse da genética
da classe política se apropriar da coisa pública. Quando se diz
que todo político é ladrão, não se faz uma denúncia,
mas se legitima o crime. Há muita corrupção, mas, de 1988
para cá, criaram-se novos mecanismos de controle da administração
pública. Mecanismos de transparência como a liberdade de imprensa
e o trabalho do Ministério Público permitiram que situações
que existiam e estavam escondidas viessem à tona. Hoje há mais mecanismos
para detectar a corrupção. Quanto mais um governo incentiva a transparência,
mais exposto ele está.
Veja
Com esse discurso, o senhor quer dizer que não há
corrupção no governo Lula? Como membro da CPI dos Correios, o senhor
acha que o mensalão existiu ou compactua com a visão de colegas
de partido de que foi tudo um complô das elites contra o governo Lula? José
Eduardo Eu tento evitar conflitos semânticos. E a palavra mensalão
pode ter vários sentidos. Naquele caso, eu não tenho dúvida
de que houve situações de ilegalidade com a destinação
de recursos financeiros de forma indevida a aliados políticos. Não
tenho a menor dúvida.
Veja
O senhor não está minimizando muito o que aconteceu? José
Eduardo Vou ser claro: teve pagamento ilegal de recursos para políticos
aliados? Teve. Ponto final. É ilegal? É. É indiscutível?
É. Nós não podemos esconder esse fato da sociedade e temos
de punir quem praticou esses atos e aprender com os erros.
Veja
O senhor já teve sérias divergências com o ex-ministro
José Dirceu. Hoje, mesmo depois de ter sido cassado e denunciado, ele ainda
é um dos mais influentes membros do PT. Essa influência não
é nefasta para o partido? José Eduardo Posso
falar isso com bastante tranqüilidade porque sempre tive muitas divergências
com o José Dirceu. Mas é inegável o papel que ele teve na
construção do PT, no combate à ditadura, na chegada de Lula
à Presidência. Essa história não se apaga. É
natural que tenha uma influência grande no PT.
Veja
O senhor é a favor da anistia política para ele? José
Eduardo Há um processo no Supremo Tribunal Federal contra Dirceu.
Ele próprio diz que espera ser absolvido no Supremo para dar início
ao processo de anistia. É uma postura legítima. Agora, com muita
franqueza, no processo de cassação do Dirceu, olhando as provas,
não havia motivos para a condenação.
Veja
O PT fez uma festa para celebrar seu 28º aniversário.
O que há para comemorar e o que há para se envergonhar na história
do partido? José Eduardo Temos de nos orgulhar de
ser o maior partido de esquerda da América Latina. De termos dirigido grandes
prefeituras e inovado a história administrativa brasileira com projetos
como o orçamento participativo. De termos administrado estados importantes.
E de termos elegido o primeiro presidente da República vindo da classe
trabalhadora. É evidente que existiram equívocos na nossa história.
O principal é o fato de alguns dirigentes, por um pragmatismo equivocado,
terem esquecido que a questão ética é indispensável
na construção de nossas bandeiras. Isso nos trouxe muita dor, muito
sofrimento, muito desgaste.
Veja
O senhor acha que o PT deve ter candidato à sucessão
de Lula? Ou pode apoiar alguém de outro partido, como Ciro Gomes ou Aécio
Neves? José Eduardo Seria absurdo para um partido
com a dimensão do PT, que tem o atual presidente da República, renunciar
a priori a uma candidatura presidencial. Seria uma demonstração
de fraqueza incompatível com o que o PT tem de história política.
O PT tem de lutar para ter o candidato da aliança à Presidência,
mas sem ignorar que os outros partidos também têm o direito de fazê-lo.
Diante dessa realidade, cabe a nós respeitar os aliados, não tratá-los
com autoritarismo e buscar construir uma candidatura comum. De preferência,
do PT.
Veja Em
duas capitais Belo Horizonte e Vitória há negociações
para alianças entre o PT e o PSDB nas eleições para prefeito
deste ano. O senhor defende essa aproximação? José
Eduardo A agenda eleitoral brasileira, com disputa a cada dois anos,
cria falsas polarizações e distanciamentos que talvez não
devessem ocorrer. Mas a grande verdade é que, no atual quadro, os principais
antagonistas do PT são o PSDB e os Democratas. Isso não pode ser
desprezado na formulação de alianças. É muito difícil
aceitar uma aproximação com esses partidos, que serão nossos
principais adversários em 2010.
Veja
Quem deve ser o candidato do PT à prefeitura de São
Paulo? José Eduardo A ministra Marta Suplicy. O PT
tem de usar os nomes que mais fortalecem o partido nas grandes cidades. Em São
Paulo, a Marta reúne condições de ganhar as eleições.
Temos de convencê-la a ser candidata. Mas é legítimo que ela
não queira. Se não quiser, há outros nomes, como o meu.
Veja
O presidente Lula será o principal cabo eleitoral do PT?
Quais os pontos fortes do governo dele? José Eduardo
Sem dúvida, Lula será nosso cabo eleitoral mais importante. Ele
conseguiu fazer um marco na história política brasileira que é
o combate à exclusão social. Outro marco é a conquista da
estabilidade econômica, que permite ao governo atuar fortemente na busca
do crescimento.
Veja Quais os pontos fracos? José Eduardo Obviamente,
o governo Lula cometeu erros. O principal foi a falta de um investimento sério
na reforma política. Nosso sistema eleitoral é hipócrita,
promíscuo, causa corrupção. É um sistema que enfraquece
os partidos, que torna insuperável as relações fisiológicas
e clientelistas para a conquista de maioria no Legislativo pelo Executivo. É
difícil que ainda saia alguma reforma nestes últimos três
anos de governo, mas o PT não pode abandonar a idéia. É preciso
procurar diálogo com os partidos da base e da oposição na
busca de um grande esforço pela reforma política. Chegou a hora
de termos um pouco mais de maturidade, que nem sempre a classe política
tem, para pensar um pouco mais no estado brasileiro do que em nossas disputas
políticas.
Veja Com esse sistema que está aí e a sucessão de escândalos,
ser político hoje é motivo de orgulho? José Eduardo
As pessoas entram na política por idealismo, por vaidade, por
carreirismo e alguns até pela perspectiva do enriquecimento. Enquanto esse
sistema prevalecer, aqueles que entram buscando agir de forma séria sofrem
um ônus pessoal tão grande que vão deixando a política.
É triste se comportar com lisura, com ética, e passar numa praia
e ouvir: "Ô, mensaleiro!". Lembro que, certa vez, cheguei em casa
uma noite e minha filha, então com 7 anos, me perguntou, chateada: "Pai,
nosso dinheiro é roubado?". Fiquei chocado. "Como assim, minha
filha?" "Na escola, disseram que político é ladrão
e que você rouba." Por essas e outras, cada vez mais vejo pessoas honestas
saindo da política. E cada vez mais tende a aumentar a participação
de pessoas desonestas, do crime organizado, de setores sem nenhum compromisso
com o interesse público. Sem a reforma política, os éticos
correm o risco de ser derrotados definitivamente pelos desonestos.