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DVD
Love
Story (Estados Unidos, 1970. Paramount) Se é preciso
fornecer uma prova de que não é só na opinião
de críticos ranzinzas que o cinema americano já foi melhor,
este DVD vem bem a calhar: três décadas atrás, até
os melôs românticos tinham mais consistência do que
as inanes produções de hoje. Sem muita enrolação
e com um bocado de humor, o diretor Arthur Hiller apresenta numa econômica
hora e meia a história de uma moça e um rapaz (Ali MacGraw,
linda, e Ryan O'Neal) que se conhecem, se provocam, passam algumas noites
juntos, casam e logo se vêem às voltas com a doença
fatal dela. Tudo zás-trás, e com direito a uma interpretação
magnífica de Ray Milland como o pai severo de O'Neal. À
época, foi um sucesso mundial, marcado pela grudenta música-tema
e pelo lema da protagonista, "amar é nunca ter de pedir perdão".
Entre os extras, destaque para um documentário em que o simpático
Hiller recorda como contornou o orçamento curto e as exigências
do lendário produtor Robert Evans. Este, aliás, viria a
se casar com Ali MacGraw, para logo em seguida perdê-la para Steve
McQueen, com quem a novata contracenou em Os Implacáveis,
de 1972.
LIVROS
A
Selva do Dinheiro, vários autores (seleção
e tradução de Roberto Muggiati; Record; 364 páginas;
35 reais) No conto O Vencedor do Cavalinho de Balanço
(leia
trechos),
uma criança obcecada pela idéia de riqueza ouve o tempo
todo uma voz fantasmagórica a dizer: "É preciso haver mais
dinheiro". O texto, escrito nos anos 20 pelo inglês D.H. Lawrence,
resume bem o espírito dessa antologia: mostrar, por meio de dezessete
histórias de autores dos séculos XIX e XX, os efeitos da
onipresença do dinheiro (ou da falta dele) na vida humana. Além
de Lawrence, a lista inclui desde o mestre do terror americano Edgar Allan
Poe (Nunca Aposte Sua Cabeça com o Diabo) até o realista
português Eça de Queirós (O Mandarim). A maior
virtude da seleção é trazer abordagens do tema por
ângulos variados. Há, por exemplo, uma história que
fala de arrogância O Hóspede Ambicioso, de
Nathaniel Hawthorne. Já Contrapartes, de James Joyce, narra
a existência oprimida de um pequeno funcionário ameaçado
de perder o emprego.
Frankenstein,
de Mary Shelley, Drácula, de Bram Stoker,
e O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson
(tradução de Adriana Lisboa; Ediouro; 698 páginas;
42,90 reais) Reunir esses três clássicos do terror
do século XIX num único volume não é só
uma providência que atende ao apetite dos fãs do gênero.
Como lembra o escritor americano Stephen King no prefácio, essas
obras têm um ponto fundamental em comum: apesar de não serem
de grande primor literário, elas trouxeram à tona monstros
que até hoje são os grandes paradigmas do horror. Mas não
só. Frankenstein é uma das matrizes da ficção
científica moderna. Drácula funciona como uma alegoria
sobre o embate entre ciência e superstição. De longe
o mais bem escrito, O Médico e o Monstro mostra uma mente
dilacerada pela esquizofrenia e é um retrato curioso da Inglaterra
na era vitoriana. A edição caprichada faz jus à fama
dessas histórias.
DISCO
Musical
Wonderland, vários intérpretes (WEA) Esse
CD duplo, com um total de 42 faixas, serve para os fãs nostálgicos
dos musicais de Hollywood, que encontrarão aqui os temas de grandes
filmes dos estúdios RKO e MGM produzidos entre as décadas
de 30 e 60. E serve também para aqueles que apreciam nomes importantes
do cancioneiro americano, como Cole Porter, George Gershwin e Irving Berlin,
mas não têm paciência para assistir às fitas
cujas trilhas sonoras eles compuseram. Musical Wonderland traz
os temas de clássicos como Sinfonia de Paris, O Mágico
de Oz e Cantando na Chuva em suas interpretações
mais famosas. Além disso, oferece algumas curiosidades, como Clark
Gable, cujo forte não era o gogó, cantando Puttin' on
the Ritz, e duas faixas bônus tiradas de filmes que não
são musicais: As Time Goes By (ouça
a música), de Casablanca, e Tema de
Lara, de Doutor Jivago.
TELEVISÃO
Divulgação
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| Terra
e Liberdade: arrebatador
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O Cinema de Ken Loach (segunda a domingo, às 21h45, no
Telecine Emotion) Um cineasta que teima em veicular antiquadas
idéias socialistas em seus filmes e explora pequenos dramas cotidianos
de pessoas comuns pode parecer tão-somente um chato de galochas.
O inglês Ken Loach segue esse figurino mas, como que por
milagre, ostenta um currículo repleto de trabalhos arrebatadores.
Como se poderá conferir nas sete produções desse
ciclo, seu segredo é o bom senso: ele deixa de lado qualquer ranço
panfletário e vai fundo na psicologia dos personagens, arrancando
interpretações apaixonadas dos atores. Entre os títulos
reunidos aqui há um que remete ao começo de sua carreira:
o excelente Kes (segunda-feira), de 1969, sobre um garoto ridicularizado
na escola e que sofre abusos em casa. As demais atrações
são dos anos 90, como os ótimos Terra e Liberdade (sexta)
e Pão e Rosas (domingo).
| LITERATURA
BRASILEIRA |
Coisas
que os Homens Não Entendem;
Elvira Vigna;
Companhia
das letras;
158 páginas;
25 reais
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Há
vezes em que um título é apenas um título.
Em outras ocasiões, ele é uma boa chave de interpretação.
Coisas que os Homens Não Entendem pertence
ao segundo caso. Ele ajuda o leitor a perceber que o que está
em jogo no quarto romance da carioca Elvira Vigna é a questão
da identidade feminina. E o lembrete é importante porque
essa questão de identidade, ainda que central, aparece de
maneira encoberta no texto.
Ostensivamente,
Coisas que os Homens Não Entendem gira em torno de
uma morte. Ao voltar para casa uma tarde, Aureliano é atingido
por um tiro e morre estirado na escada. O disparo será creditado
a um assaltante. Mas o fato é que ele foi feito por uma das
pessoas que estavam na casa: a mulher e o filho de Aureliano, seu
pai e uma amiga da família Nita, que é também
a narradora. De volta ao Brasil depois de uma temporada nos Estados
Unidos, as circunstâncias desse assassinato são um
assunto que persegue Nita, e que ela tenta abordar de várias
perspectivas.
A
verdade, porém, é que a morte de Aureliano é
apenas um elemento do enredo. Aquilo que realmente importa é
a caracterização de Nita. Bissexual, desprovida de
quaisquer laços familiares, profissionais ou afetivos firmes,
estrangeira em Nova York e desenraizada no Brasil, ela é
uma mulher de meia-idade que não se encaixa em nenhum dos
papéis que mulheres de meia-idade costumam ocupar
na sociedade e na literatura. Impaciente com as convenções,
exasperada com as "coisas que os homens não entendem", é
o enigma de como construir sua liberdade que realmente interessa
a ela. E é esse "enigma" que Elvira Vigna de fato tenta explorar
em seu livro. Fragmentário, opaco, às vezes até
mesmo cansativo, Coisas que os Homens Não Entendem não
é um livro de leitura envolvente. Nita, porém, é
seu trunfo: um dos personagens femininos mais inusitados da ficção
brasileira recente.
Carlos
Graieb
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