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Edição 1 739 - 20 de fevereiro de 2002
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DVD

Love Story (Estados Unidos, 1970. Paramount) – Se é preciso fornecer uma prova de que não é só na opinião de críticos ranzinzas que o cinema americano já foi melhor, este DVD vem bem a calhar: três décadas atrás, até os melôs românticos tinham mais consistência do que as inanes produções de hoje. Sem muita enrolação e com um bocado de humor, o diretor Arthur Hiller apresenta numa econômica hora e meia a história de uma moça e um rapaz (Ali MacGraw, linda, e Ryan O'Neal) que se conhecem, se provocam, passam algumas noites juntos, casam e logo se vêem às voltas com a doença fatal dela. Tudo zás-trás, e com direito a uma interpretação magnífica de Ray Milland como o pai severo de O'Neal. À época, foi um sucesso mundial, marcado pela grudenta música-tema e pelo lema da protagonista, "amar é nunca ter de pedir perdão". Entre os extras, destaque para um documentário em que o simpático Hiller recorda como contornou o orçamento curto e as exigências do lendário produtor Robert Evans. Este, aliás, viria a se casar com Ali MacGraw, para logo em seguida perdê-la para Steve McQueen, com quem a novata contracenou em Os Implacáveis, de 1972.

 

LIVROS

A Selva do Dinheiro, vários autores (seleção e tradução de Roberto Muggiati; Record; 364 páginas; 35 reais) – No conto O Vencedor do Cavalinho de Balanço (leia trechos), uma criança obcecada pela idéia de riqueza ouve o tempo todo uma voz fantasmagórica a dizer: "É preciso haver mais dinheiro". O texto, escrito nos anos 20 pelo inglês D.H. Lawrence, resume bem o espírito dessa antologia: mostrar, por meio de dezessete histórias de autores dos séculos XIX e XX, os efeitos da onipresença do dinheiro (ou da falta dele) na vida humana. Além de Lawrence, a lista inclui desde o mestre do terror americano Edgar Allan Poe (Nunca Aposte Sua Cabeça com o Diabo) até o realista português Eça de Queirós (O Mandarim). A maior virtude da seleção é trazer abordagens do tema por ângulos variados. Há, por exemplo, uma história que fala de arrogância – O Hóspede Ambicioso, de Nathaniel Hawthorne. Já Contrapartes, de James Joyce, narra a existência oprimida de um pequeno funcionário ameaçado de perder o emprego.

Frankenstein, de Mary Shelley, Drácula, de Bram Stoker, e O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson (tradução de Adriana Lisboa; Ediouro; 698 páginas; 42,90 reais) – Reunir esses três clássicos do terror do século XIX num único volume não é só uma providência que atende ao apetite dos fãs do gênero. Como lembra o escritor americano Stephen King no prefácio, essas obras têm um ponto fundamental em comum: apesar de não serem de grande primor literário, elas trouxeram à tona monstros que até hoje são os grandes paradigmas do horror. Mas não só. Frankenstein é uma das matrizes da ficção científica moderna. Drácula funciona como uma alegoria sobre o embate entre ciência e superstição. De longe o mais bem escrito, O Médico e o Monstro mostra uma mente dilacerada pela esquizofrenia e é um retrato curioso da Inglaterra na era vitoriana. A edição caprichada faz jus à fama dessas histórias.

 

DISCO

Musical Wonderland, vários intérpretes (WEA) – Esse CD duplo, com um total de 42 faixas, serve para os fãs nostálgicos dos musicais de Hollywood, que encontrarão aqui os temas de grandes filmes dos estúdios RKO e MGM produzidos entre as décadas de 30 e 60. E serve também para aqueles que apreciam nomes importantes do cancioneiro americano, como Cole Porter, George Gershwin e Irving Berlin, mas não têm paciência para assistir às fitas cujas trilhas sonoras eles compuseram. Musical Wonderland traz os temas de clássicos como Sinfonia de Paris, O Mágico de Oz e Cantando na Chuva em suas interpretações mais famosas. Além disso, oferece algumas curiosidades, como Clark Gable, cujo forte não era o gogó, cantando Puttin' on the Ritz, e duas faixas bônus tiradas de filmes que não são musicais: As Time Goes By (ouça a música), de Casablanca, e Tema de Lara, de Doutor Jivago.

 

TELEVISÃO

Divulgação
Terra e Liberdade: arrebatador


O Cinema de Ken Loach
(segunda a domingo, às 21h45, no Telecine Emotion) – Um cineasta que teima em veicular antiquadas idéias socialistas em seus filmes e explora pequenos dramas cotidianos de pessoas comuns pode parecer tão-somente um chato de galochas. O inglês Ken Loach segue esse figurino – mas, como que por milagre, ostenta um currículo repleto de trabalhos arrebatadores. Como se poderá conferir nas sete produções desse ciclo, seu segredo é o bom senso: ele deixa de lado qualquer ranço panfletário e vai fundo na psicologia dos personagens, arrancando interpretações apaixonadas dos atores. Entre os títulos reunidos aqui há um que remete ao começo de sua carreira: o excelente Kes (segunda-feira), de 1969, sobre um garoto ridicularizado na escola e que sofre abusos em casa. As demais atrações são dos anos 90, como os ótimos Terra e Liberdade (sexta) e Pão e Rosas (domingo).

 
LITERATURA BRASILEIRA

Coisas que os Homens Não Entendem;
Elvira Vigna;
C
ompanhia das letras;
158 páginas;
25 reais

Há vezes em que um título é apenas um título. Em outras ocasiões, ele é uma boa chave de interpretação. Coisas que os Homens Não Entendem pertence ao segundo caso. Ele ajuda o leitor a perceber que o que está em jogo no quarto romance da carioca Elvira Vigna é a questão da identidade feminina. E o lembrete é importante porque essa questão de identidade, ainda que central, aparece de maneira encoberta no texto.

Ostensivamente, Coisas que os Homens Não Entendem gira em torno de uma morte. Ao voltar para casa uma tarde, Aureliano é atingido por um tiro e morre estirado na escada. O disparo será creditado a um assaltante. Mas o fato é que ele foi feito por uma das pessoas que estavam na casa: a mulher e o filho de Aureliano, seu pai e uma amiga da família – Nita, que é também a narradora. De volta ao Brasil depois de uma temporada nos Estados Unidos, as circunstâncias desse assassinato são um assunto que persegue Nita, e que ela tenta abordar de várias perspectivas.

A verdade, porém, é que a morte de Aureliano é apenas um elemento do enredo. Aquilo que realmente importa é a caracterização de Nita. Bissexual, desprovida de quaisquer laços familiares, profissionais ou afetivos firmes, estrangeira em Nova York e desenraizada no Brasil, ela é uma mulher de meia-idade que não se encaixa em nenhum dos papéis que mulheres de meia-idade costumam ocupar – na sociedade e na literatura. Impaciente com as convenções, exasperada com as "coisas que os homens não entendem", é o enigma de como construir sua liberdade que realmente interessa a ela. E é esse "enigma" que Elvira Vigna de fato tenta explorar em seu livro. Fragmentário, opaco, às vezes até mesmo cansativo, Coisas que os Homens Não Entendem não é um livro de leitura envolvente. Nita, porém, é seu trunfo: um dos personagens femininos mais inusitados da ficção brasileira recente.

Carlos Graieb

 

   
 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano, Fnac; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Recife: Sodiler, Saraiva, Siciliano; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Siciliano, Leitura; Maceió: Sodiler.

 

   
 
   
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