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Roberto Pompeu de Toledo

O Carnaval como
o Juízo Final

Notas como 9,9, quesitos como
"evolução". É tudo tão absurdo
nos
desfiles... Até parece a vida

Oito vírgula dois, nove vírgula sete, sete vírgula oito. A novidade deste ano na Marquês de Sapucaí foi a nota quebrada. Antes, ia-se de meio em meio ponto: 8,5, 9, 9,5... Neste ano, os jurados foram liberados para percorrer toda a escala decimal, e o fizeram com largueza. A campeã Mangueira só não teve três notas 10, entre quarenta, todas as três quebradas: um 9,7 e dois 9,9. Acabou ganhando por uma diferença de 0,1 ponto (0,1!) sobre a Beija-Flor, a segunda colocada. A Liga das Escolas de Samba liberou as notas quebradas sob a alegação de que, pelo sistema anterior, os jurados eram forçados ou a tirar no mínimo meio ponto de uma escola, a qualquer problema que vislumbrassem, ou a ignorar o problema, para não puni-la com excessivo rigor. Meio ponto é muito, quando se tem em vista que o costume, entre os jurados dos desfiles, é fazer as notas variar na estreita faixa entre 9 e 10, umas poucas vezes caindo para a casa do 8, raramente para a do 7 e jamais abaixo disso.

A explicação para a liberação da nota quebrada tem sua lógica. No entanto, a profusão dos 9,6 e 9,4, 8,8 e 9,1 só faz aumentar a estranheza em torno do que já é, em si, estranho: o julgamento das escolas. Para que julgá-las? Não bastaria o desfile em si? Por que uma tem de ganhar, outra ser vice e a última ser rebaixada, se isso não é um esporte? E sob que critérios julgá-las? Não se trata de atividade em que os competidores se esmerem para colocar a bola dentro da rede, como no futebol. Nesse caso, quem coloca mais a bola na rede ganha, e ponto final. O critério é cristalino e universalmente inteligível. Já no caso do desfile carnavalesco, a não ser em casos de erros grosseiros, a clareza e a objetividade cedem lugar à obscuridade e ao subjetivismo. Como discernir que a "evolução" de uma escola, para citar um dos quesitos, foi superior à de outra? Qual a razão pela qual um dos quatro jurados do quesito "bateria", Mário Jorge Bruno, deu 9,9 (9,9!) à Mangueira? Que será que ele viu, para fulminar a verde-e-rosa com a perda de 0,1 ponto? O ligeiro vacilo de uma das baquetas, naquele mar de bumbos? Algo terá visto. Assim como Deus lá em cima, os jurados, encarapitados igualmente no alto, estão ali para ver tudo.

Como Deus lá em cima... Claro! Como é que não se foi pensar nisso antes? O desfile de escolas de samba é uma alegoria ao Juízo Final, eis seu significado último e glorioso. Agora tudo se esclarece. Note-se que os quesitos são dez, de "mestre-sala e porta-bandeira" a "bateria", de "comissão de frente" a "samba-enredo", passando por "fantasias", "alegorias e adereços", "conjunto", "enredo", "evolução" e "harmonia". Dez, como nas tábuas da lei! É muita coincidência. Examinem-se os quesitos, um a um, e se perceberá que servem para julgar não só o Carnaval, mas o conjunto da vida. No quesito "enredo" está em causa a história de cada um. No "harmonia", a maneira mais ou menos habilidosa com que se conseguiu juntar os fios dessa história. No "bateria" julga-se o barulho que se fez na vida, e no "evolução" o modo como se foi transpondo, uma a uma, as etapas que se sucederam no caminho. No "mestre-sala e porta-bandeira" estão em causa as relações que se mantiveram com as damas ou, no caso das damas, com os cavalheiros. Acautele-se, rapaz, tome tento, trêfega donzela, que no dia decisivo será assim. Você desfilando lá embaixo e, encarapitado em cima, como na avenida, o Jurado Supremo.

Há pessoas que vão vencendo, item por item, graças a um autocontrole cerebrino. São aquelas que, na vida, se conduzem com frieza técnica. Elas atingem o céu pelo método Imperatriz Leopoldinense. Outras se deixam levar pela pura exaltação. Chegam lá ao modo Mangueira. Alguns, estressados pela dureza das provas, chegam até com raiva, e reagem como Jamelão, o puxador de samba da Mangueira, diante da vitória de sua escola: "Vocês vão ter de me engolir". Pode-se ser beneficiado, no trajeto, por um julgamento benévolo, como os dos jurados Luiz Carlos Reis ("bateria") e Otoniel Serra ("evolução"), que, no desfile do primeiro dia, deram 10 a tudo que passou à frente deles. Mas há os que são humilhados por um 7,8 como o que foi conferido pela jurada Lúcia Ribas, no quesito "alegorias e adereços", à escola São Clemente. Olho vivo, rapaziada, para as alegorias e adereços com que desfilam nesta vida. A São Clemente foi rebaixada, e rebaixada é bem a palavra. Foi mandada para baixo. Para as chamas infernais.

Talvez não seja nada disso. Comparar escola de samba e Juízo Final não passaria de delírio de Quarta-Feira de Cinzas. Mas... Considere-se bem o que é o desfile de uma escola de samba. Um radioso espetáculo, de beleza ofuscante, mas que passa, efêmero como raio no céu. E, ainda por cima, sobre o qual recaem julgamentos. Nota 8,3 para cá, 9,8 para lá. Vitórias e derrotas que se definem por diferença de 0,1 ponto. Tudo tão absurdo... O Carnaval e a vida se unem no mistério.

   
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