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A pátria de pincéis

Mostra no Rio de Janeiro reúne
160 obras da coleção Fadel – uma
das melhores de arte brasileira

Lucila Soares

 
Oscar Cabral
Fadel, em seu apartamento: quadros até nos banheiros

Mais do que os museus, as grandes coleções privadas são as guardiãs da melhor arte brasileira. Cada uma tem sua especialidade. A do ex-diplomata Gilberto Chateaubriand, por exemplo, é imbatível quando se fala de arte moderna. E nenhuma se compara à do empresário Paulo Geyer no panorama do século XIX. Em abrangência histórica, no entanto, é a coleção do advogado carioca Sérgio Fadel, de 58 anos, que se destaca. Com 1.500 peças, reunidas ao longo de 35 anos, ela é menor que as outras duas, mas contempla o que se produziu do século XVIII até o presente. Sem perder de vista essa característica, o crítico Paulo Herkenhoff selecionou 160 obras, distribuídas em seis módulos, para compor a mostra Arte Brasileira na Coleção Fadel, que será inaugurada no dia 26 no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Não foi uma seleção fácil. "Para ficar apenas no século XX, Fadel possui a melhor representação da trajetória de Guignard, reúne Di Cavalcantis de altíssima qualidade, testemunha Volpi em várias décadas, tem obras-chave de Lygia Clark e pinturas de Iberê Camargo de sua fase mais importante", diz Herkenhoff, que é curador de arte latino-americana do Museu de Arte Moderna de Nova York.

Fadel adquiriu seus primeiros quadros – um Portinari e um Pancetti – no fim da década de 60, quando ainda era um advogado recém-formado. A ocasião lhe foi proporcionada pelo pintor Augusto Rodrigues, cujo ateliê era um movimentado ponto de encontro de intelectuais cariocas. Em dificuldades financeiras, o artista viu-se obrigado a se desfazer dessas e de outras telas. Além de vender obras para o amigo advogado, Rodrigues o ensinou a diferenciar o joio do trigo no campo da arte moderna nacional. Fadel logo se transformou num comprador frenético. Em seu escritório de advocacia, a agenda passou a ser organizada de maneira a dividir o tempo entre a clientela e os marchands. Acumular 1.500 obras em 35 anos equivale a comprar praticamente um quadro por semana. Pertencente a uma classe média abastada, mas longe de ser milionário, Fadel só conseguiu montar um acervo tão forte porque começou a colecionar num momento em que o mercado brasileiro de arte ainda engatinhava. O melhor exemplo disso talvez seja a tela Vaso de Flores, de Alberto Guignard, pelo qual Fadel pagou 20.000 dólares no início dos anos 80. O quadro é muito parecido com outro, do mesmo artista, adquirido há pouco mais de dois anos pelo deputado Ronaldo Cezar Coelho – que teve de desembolsar 760.000 dólares por sua tela. "E o meu ainda é mais bonito", espicaça Fadel, que não gosta de falar de valores, mas adora enumerar as oportunidades de negócio que aproveitou.

Uma de suas histórias favoritas é a de um conhecido advogado carioca que, no processo de separação da mulher, lhe pediu para esconder em sua casa um Guignard de primeira linha. Como o processo se arrastava, Fadel propôs, e o amigo topou, trocar o Guignard secreto por duas telas menores. Paisagem de Ouro Preto ocupa hoje lugar de destaque no apartamento de Fadel, em Copacabana, onde até as paredes dos banheiros ostentam obras de arte. Outro caso que ele conta com prazer especial é o do jovem casal que o procurou para vender uma antiga paisagem carioca. Embora a assinatura do quadro estivesse ilegível, Fadel intuiu que aquela era uma preciosidade. Não deu outra. Com a ajuda de especialistas, constatou que havia pago o equivalente a 15.000 reais, o preço de um carro popular, por um inestimável Arnaud Pallière – um dos paisagistas que melhor retrataram o Rio de Janeiro do século XIX.

Histórias como essas são improváveis hoje em dia. O mercado profissionalizou-se e a arte brasileira valorizou-se enormemente, inclusive no exterior. Na década de 90, os preços dos quadros nacionais começaram a atingir valores estratosféricos na Sotheby's e na Christie's, as duas mais importantes casas de leilões do mundo. Há seis anos, o Abaporu, de Tarsila do Amaral, um marco do modernismo, passou para as mãos do colecionador argentino Eduardo Costantini por 1,4 milhão de dólares. Em 2001, outra tela da fase antropofágica da artista, Cartão Postal, alcançou 2,4 milhões de dólares, o maior valor já pago por uma pintura brasileira. E a escalada continua, apesar dos contratempos que volta e meia afetam as cotações.

 
DE VÁRIAS ÉPOCAS

Do barroco ao moderno, preciosidades
do acervo de Sérgio Fadel

Execução de Tiradentes, de Alberto Guignard, e Futebol, de Cândido Portinari: grandes nomes em sua melhor forma


Morro da Favela, de Tarsila do Amaral, e imagem de São Manoel esculpida em madeira por Aleijadinho, no século XVIII: o quadro da modernista vale por baixo 1 milhão de dólares



   
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