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O
Brasil que vai à luta
Governo e empresários vão agir
juntos para
vencer a guerra do
comércio internacional
Denise
Ramiro e Murilo Ramos
Fotos AFP
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| Encontro
Mundial da OMC no Catar em 2001: agricultura entrou na pauta |
O
Brasil partiu para a ofensiva na luta contra o protecionismo dos países
ricos. Pela primeira vez, conseguiu reunir numa mesma força-tarefa
representantes do governo, da iniciativa privada e até de universidades.
O Ministério das Relações Exteriores vai acionar
a Organização Mundial do Comércio (OMC) reivindicando
condições justas de venda de produtos da pauta de exportação
que são vítimas de práticas desleais adotadas por
países compradores. É o caso da soja, do algodão,
do suco de laranja e do aço. As perdas anuais do Brasil provocadas
por restrições comerciais chegam a 17 bilhões de
dólares dos quais 12 bilhões são referentes
a produtos agrícolas. A Associação Brasileira de
Agribusiness (Abag) está contratando lobistas para defender os
interesses brasileiros nos centros de poder dos Estados Unidos e da Europa.
"Vamos entrar de sola no jogo usando a mesma arma que os adversários",
diz Roberto Rodrigues, presidente da Abag.
A reação do Brasil, com o apoio de outras potências
regionais, como a Índia e a África do Sul, chega em um momento
oportuno. Há um ambiente favorável às reivindicações
de países em desenvolvimento no cenário internacional. Desde
o fim do ano passado, na conferência da OMC em Doha, no Catar, o
tema de maior relevância para esses países, a agricultura,
entrou na pauta do organismo internacional. O assunto voltou com força
no Fórum Econômico Mundial, realizado no início do
mês nos Estados Unidos. "O encontro em Nova York serviu para fortalecer
as discussões em torno da agricultura", diz José Alfredo
Graça Lima, embaixador do Departamento Econômico do Itamaraty.
Vários empresários de peso na economia internacional também
manifestaram sua preocupação com os danos provocados pelo
protecionismo. Até mesmo Mike Moore, diretor-geral da OMC, fugindo
à formalidade de magistrado que seu cargo exige, demonstrou insatisfação
com o comportamento dos ricos. "Os países em desenvolvimento ganharão
oito vezes mais com a reforma agrícola que com o perdão
da dívida externa", afirmou durante o evento.
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Mike
Moore, diretor-geral da
OMC: insatisfação com o protecionismo
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A
opinião pública nos países de governos que dão
subsídios também mudou radicalmente. Está começando
a se firmar a idéia de que os subsídios só beneficiam
uma minoria de agricultores e industriais privilegiados. O consumidor
perde, sendo obrigado a usar produtos nacionais, muitas vezes mais caros
e de qualidade inferior. Até mesmo a superprotetora União
Européia começa a repensar sua política agrícola.
Não terá outra saída se quiser acomodar a seu bloco
econômico dez novos países do Leste Europeu, cujo sustento
vem essencialmente do campo. Os sinais são positivos, mas o caminho
ainda é longo. Na semana passada, os senadores dos Estados Unidos
deram um passo atrás, aprovando uma lei agrícola que vai
proteger ainda mais seus agricultores. Aumentaram significativamente o
volume de dinheiro, acrescentando mais 45 bilhões de dólares
para subsidiar a produção e bancar os créditos de
exportação. A lei, no entanto, reduz o repasse aos grandes
fazendeiros de 470.000 dólares por ano para 275.000 dólares.
A questão ainda será analisada por um comitê que reúne
deputados e senadores para depois ser sancionada pelo presidente George
W. Bush.
O pacote agrícola americano começa a corrigir distorções
internas, mas ainda é desfavorável ao Brasil. O único
alento que traz a lei é que ela terá validade de cinco anos,
ao contrário da anterior, que era de dez anos. Isso, aliado às
pressões contra o protecionismo, pode levar o governo americano
a rever suas posições sobre o assunto mais rapidamente.
Mesmo com a redução dos recursos aos produtores americanos,
eles ainda ficam em uma situação muito vantajosa. O embaixador
brasileiro nos Estados Unidos, Rubens Barbosa, acredita que o Brasil pode
reverter essas políticas restritivas dos Estados Unidos a seu favor
na hora de negociar o acordo da Área de Livre Comércio das
Américas (Alca).
O
Brasil tem argumentos para barganhar. Conta com uma indústria desenvolvida,
agricultura de ponta, um enorme mercado consumidor e é líder
entre os países da América do Sul. O país começa
agora a perceber a força que tem. Em meados dos anos 80, negociava
acordos comerciais de maneira que beirava a ingenuidade. Em grandes negociações,
como a Rodada Uruguai, contava apenas com diplomatas, que tinham de entender
desde leis até questões técnicas tão complexas
como a espessura do couro do boi ou a qualidade das embalagens. Os resultados
eram quase sempre desastrosos. Os países ricos, ao contrário,
costumam levar para esses encontros delegações numerosas,
formadas pelos melhores especialistas de cada área, para assessorá-los.
Talvez seja isso o que a indústria siderúrgica brasileira
esteja precisando fazer com mais disciplina. O aço brasileiro é
considerado o mais competitivo do mundo, condição incômoda
para os produtores americanos, tecnologicamente mais atrasados, que exigem
do governo a restrição ao produto estrangeiro. O presidente
Bush acena com uma possível flexibilização das barreiras
protecionistas, mas, por outro lado, se vê pressionado por grandes
empresários a ceder às suas lamúrias. É uma
briga entre a racionalidade econômica e o lobby protecionista. Até
agora, o lobby ganhou todas. Pode ter chegado a hora de perder uma.
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