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Edição 1 739 - 20 de fevereiro de 2002
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Para tornar as coisas mais complicadas, deve-se levar em conta que a casa própria era algo que se pagava durante um espaço de tempo definido, de dez, quinze ou 25 anos. As novas despesas com serviços na área de saúde e educação são para a vida toda. Pior: para custear a educação e andar em dia com os planos de saúde e previdência privada, uma família formada por pai, mãe e dois filhos pode consumir ao longo da vida dinheiro suficiente para comprar três bons apartamentos de quatro quartos e quatro carros. (Quanto custa criar um filho e quanto custam alguns planos de previdência privada.)

 
Luciana Cavalcanti

Em 1997, os cursos de MBA no Brasil formaram 1 000 pessoas. Em 2002, 50 000 executivos vão tirar o diploma

O preço elevado e a quase vitaliciedade de algumas dessas despesas produzem uma mudança não apenas financeira na vida dos cidadãos, mas também uma transformação comportamental. "Quando as pessoas passam a pagar por um serviço que depende de continuidade, elas começam a prestar atenção às mudanças do chamado 'ambiente externo' ", diz Marcos Coimbra, do Instituto Vox Populi. "E sabe o que isso quer dizer? A sociedade busca fazer opções de compra e de voto que não promovam uma revolução em suas vidas." Resumindo, a sociedade tende a ficar mais conservadora. "As pesquisas qualitativas mostram que quem ameaçar com o caos não ganha eleição", diz Ney Figueiredo, responsável pelas sondagens feitas pela Confederação Nacional da Indústria. Outro indício do conservadorismo é o nível de satisfação da população com a própria vida, que ronda os 70% em todas as classes sociais. "Quem está satisfeito não quer ruptura", analisa Figueiredo. Essa percepção é confirmada por outro cientista social, Ricardo Guedes, do instituto Sensus. "Há dez anos, o tônus político era o das modificações radicais. Hoje, o eleitor procura fazer alterações tópicas no que já está constituído", afirma Guedes.

 
Fotos Carol Quintanilha
Como as famílias diminuíram de tamanho, sumiram do supermercado os carrinhos gigantes, e as compras de mês tornaram-se mais raras

A primeira transformação ocorrida na lista de prioridades atingiu o campo da educação. As pessoas sempre precisaram fazer conta para pagar a escola dos filhos. Isso não é propriamente uma novidade. Só que estudar significava algo muito bem definido. Ia da alfabetização à faculdade. Apenas alguns poucos se matriculavam em cursos de pós-graduação. A opção atingia principalmente quem almejava uma carreira universitária. Concluída a formação, era possível pleitear um emprego. Com o terremoto ocorrido no mercado de trabalho, o emprego deixou de ser algo natural. Houve demissões porque algumas profissões desapareceram, como a de datilógrafo, outras estão em declínio, como a de carteiro, e há aquelas, como as de bancário e torneiro mecânico, que levaram uma espremida formidável graças à chegada da automação às empresas. A indústria, o comércio e o setor de serviços fecharam departamentos inteiros e terceirizaram atividades antes desempenhadas por seus funcionários. Muitos dos desempregados se instalaram em empresas menores e passaram a prestar serviços a seus antigos patrões. Outra solução comum foi a carreira de autônomo. Para permanecer no mercado, seja empregado, seja trabalhando por conta própria, o brasileiro integrante da classe média descobriu que precisava estudar mais.

Em 1997, 1 000 brasileiros fizeram o curso de pós-graduação em administração, o MBA. Hoje, cinco anos depois, 50 000 pessoas vão fazer esse curso. No setor financeiro, a pós-graduação é um instrumento importante para quem quer chegar a gerente. "Nos anos 70, dávamos pouca importância à formação acadêmica. O mais importante era que o funcionário tivesse um bom desempenho na burocracia. Hoje, a formação vale muito", diz Armando Pompeu, diretor de marketing do Unibanco. Se antes o pai e a mãe precisavam financiar a educação dos filhos até a universidade, agora podem ser obrigados a pagar as despesas até a pós-graduação, além de bancar os cursos que eles próprios devem fazer. A estabilidade no emprego acabou. Fala-se agora em ter condições de "empregabilidade". (Avalie sua empregabilidade.)

 
Alexandre Belem
Ernst fala inglês, espanhol e alemão. Agora, estuda francês para se manter competitivo no mercado de trabalho

DANIELA FRIEDHEIM, casada com Ernst
Idade: 27 anos
Ela é: dentista
Casou-se aos: 25 anos com um administrador de empresas que hoje tem 35 anos
Primeiro trabalho: um consultório, que está sendo montado com o dinheiro da venda de um carro do casal
Principal preocupação: garantir a renda da família, apostando que seus vencimentos crescerão juntamente com sua experiência profissional
Preocupação do marido: atual funcionário de multinacional, quer manter-se "empregável". Fala três idiomas e fez dois cursos de pós-graduação

Depois da mudança na educação, as pessoas mergulharam para valer nos planos de saúde. Embora muitas empresas dessa área tenham enganado o consumidor, o modelo de financiamento atual é irreversível. Afinal, de que forma se vai pagar a conta da UTI? Para quem acredita em alternativas, uma informação: nos dois últimos anos de vida, o indivíduo gasta com saúde, em média, 50% de tudo o que desembolsou durante a vida inteira. De todas as despesas, a mais preocupante é a da previdência privada, pois envolve uma escolha difícil. As pessoas precisam decidir hoje onde vão colocar um dinheiro do qual só verão a cor daqui a vinte ou trinta anos. Nos anos 70, quando existiam no Brasil apenas os montepios e as caixas de pecúlio, descobriu-se que o modelo era um fiasco. Ou ele não funcionava em razão da roubalheira ou quebrava por má gestão ou erro no cálculo atuarial. Mais tarde, os planos passaram a fracassar porque a inflação corroía os rendimentos. Milhares de famílias perderam tudo diante de um governo indiferente. Agora, o sistema está se moralizando. Por determinação do Ministério da Fazenda, as administradoras de fundos são obrigadas a apresentar relatórios regulares. "Sempre houve carência de planos de previdência, mas, em virtude dos seguidos desastres no setor, as empresas não tinham credibilidade", diz Paulo Hirai, diretor de mercado da BrasilPrev, uma das maiores empresas do setor. "Com a estabilização da economia e a recuperação da imagem, o segmento voltou a funcionar normalmente." Atualmente, quase 6 milhões de pessoas pagam plano de previdência privada. O total de associados é quase três vezes maior que há dez anos.

 
Leo Feltran
Melissa deixou a vida pessoal em segundo plano para conquistar posições antes reservadas aos homens. "Gosto de me divertir, mas tenho outras prioridades", diz

MELISSA MARSIGLI AFONSO
Idade: 27 anos
Ela é: socióloga
Trabalha como: gerente de banco
Estado civil: solteira
Prioridade: consolidar a carreira. Para ela, isso é mais importante que casar e ter filhos
O imóvel onde mora é: alugado, e ela não planeja comprar casa própria. Mantém seu dinheiro aplicado no banco

No caso específico da previdência, os estudiosos registram um dado de cunho comportamental no aumento da procura por planos. Na década de 70, o brasileiro vivia em média 53,5 anos e as famílias tinham entre cinco e seis filhos. Atualmente, a expectativa de vida aumentou para 68,6 anos e o número de filhos caiu para dois. Com menos filhos, observam os especialistas, fica mais caro para cada um sustentar os pais na velhice. "Antes, as pessoas não se preocupavam com o tamanho da família porque não era tão caro criá-la, com a vantagem de que podiam contar com ela na aposentadoria", afirma Carlos Flory, presidente da Petros, o poderoso fundo de pensão da Petrobras. "Agora, essa forma de organização da sociedade acabou." Foi outro sonho destruído. Pressionada, a classe média teve de criar novas metas. E está batalhando duro para alcançá-las.

 

COMO OS ESPECIALISTAS DEFINEM CLASSE MÉDIA

Alguns métodos para estratificar a sociedade são desenvolvidos por especialistas, mas há três principais. Um deles, o mais tradicional, classifica as pessoas segundo o nível educacional e a profissão do chefe da família. Por esse critério, a classe média é formada basicamente por universitários e pessoas que não exercem trabalhos manuais. São advogados, médicos, funcionários públicos e comerciários. Alguns de seus integrantes podem até ganhar menos que um operário de fábrica, mas renda não importa nesse caso. Outros podem ter salários altíssimos, mas isso também não conta. Para ser rico, segundo essa fórmula, é preciso possuir alguma propriedade produtiva, como indústria, fazenda ou banco.

Outro modelo analisa as classes sociais de acordo com a renda familiar. Os valores variam em cada região do país. Por esse sistema, a classe média paulistana, por exemplo, agruparia quem tem renda familiar mensal entre 1.800 e 7.200 reais. O terceiro método trabalha com a capacidade de consumo das famílias e tipifica as classes por meio de letras, de A, onde estão os mais abastados, a E, a mais humilde. A classe média, nesse caso, espalha-se entre as letras A, B e C. Não importa o critério, em qualquer deles a classe média brasileira reúne aproximadamente um quarto da população do país.

 

Com reportagem de Anna Cecilia Junqueira e Marcos Vita

 

   
 
   
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