
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Para tornar
as coisas mais complicadas, deve-se levar em conta que a casa própria
era algo que se pagava durante um espaço de tempo definido, de
dez, quinze ou 25 anos. As novas despesas com serviços na área
de saúde e educação são para a vida toda.
Pior: para custear a educação e andar em dia com os planos
de saúde e previdência privada, uma família formada
por pai, mãe e dois filhos pode consumir ao longo da vida dinheiro
suficiente para comprar três bons apartamentos de quatro quartos
e quatro carros. (Quanto
custa criar um filho e quanto custam alguns planos de previdência
privada.)
Luciana Cavalcanti

Em
1997, os cursos de MBA no Brasil formaram 1 000 pessoas. Em 2002,
50 000 executivos vão tirar o diploma |
O preço
elevado e a quase vitaliciedade de algumas dessas despesas produzem uma
mudança não apenas financeira na vida dos cidadãos,
mas também uma transformação comportamental. "Quando
as pessoas passam a pagar por um serviço que depende de continuidade,
elas começam a prestar atenção às mudanças
do chamado 'ambiente externo' ", diz Marcos Coimbra, do Instituto Vox
Populi. "E sabe o que isso quer dizer? A sociedade busca fazer opções
de compra e de voto que não promovam uma revolução
em suas vidas." Resumindo, a sociedade tende a ficar mais conservadora.
"As pesquisas qualitativas mostram que quem ameaçar com o caos
não ganha eleição", diz Ney Figueiredo, responsável
pelas sondagens feitas pela Confederação Nacional da Indústria.
Outro indício do conservadorismo é o nível de satisfação
da população com a própria vida, que ronda os 70%
em todas as classes sociais. "Quem está satisfeito não quer
ruptura", analisa Figueiredo. Essa percepção é confirmada
por outro cientista social, Ricardo Guedes, do instituto Sensus. "Há
dez anos, o tônus político era o das modificações
radicais. Hoje, o eleitor procura fazer alterações tópicas
no que já está constituído", afirma Guedes.
Fotos Carol Quintanilha
 |
 |
| Como
as famílias diminuíram de tamanho, sumiram do supermercado
os carrinhos gigantes, e as compras de mês tornaram-se mais
raras |
A primeira
transformação ocorrida na lista de prioridades atingiu o
campo da educação. As pessoas sempre precisaram fazer conta
para pagar a escola dos filhos. Isso não é propriamente
uma novidade. Só que estudar significava algo muito bem definido.
Ia da alfabetização à faculdade. Apenas alguns poucos
se matriculavam em cursos de pós-graduação. A opção
atingia principalmente quem almejava uma carreira universitária.
Concluída a formação, era possível pleitear
um emprego. Com o terremoto ocorrido no mercado de trabalho, o emprego
deixou de ser algo natural. Houve demissões porque algumas profissões
desapareceram, como a de datilógrafo, outras estão em declínio,
como a de carteiro, e há aquelas, como as de bancário e
torneiro mecânico, que levaram uma espremida formidável graças
à chegada da automação às empresas. A indústria,
o comércio e o setor de serviços fecharam departamentos
inteiros e terceirizaram atividades antes desempenhadas por seus funcionários.
Muitos dos desempregados se instalaram em empresas menores e passaram
a prestar serviços a seus antigos patrões. Outra solução
comum foi a carreira de autônomo. Para permanecer no mercado, seja
empregado, seja trabalhando por conta própria, o brasileiro integrante
da classe média descobriu que precisava estudar mais.
Em 1997,
1 000 brasileiros fizeram o curso de pós-graduação
em administração, o MBA. Hoje, cinco anos depois, 50 000
pessoas vão fazer esse curso. No setor financeiro, a pós-graduação
é um instrumento importante para quem quer chegar a gerente. "Nos
anos 70, dávamos pouca importância à formação
acadêmica. O mais importante era que o funcionário tivesse
um bom desempenho na burocracia. Hoje, a formação vale muito",
diz Armando Pompeu, diretor de marketing do Unibanco. Se antes o pai e
a mãe precisavam financiar a educação dos filhos
até a universidade, agora podem ser obrigados a pagar as despesas
até a pós-graduação, além de bancar
os cursos que eles próprios devem fazer. A estabilidade no emprego
acabou. Fala-se agora em ter condições de "empregabilidade".
(Avalie
sua empregabilidade.)
Depois da
mudança na educação, as pessoas mergulharam para
valer nos planos de saúde. Embora muitas empresas dessa área
tenham enganado o consumidor, o modelo de financiamento atual é
irreversível. Afinal, de que forma se vai pagar a conta da UTI?
Para quem acredita em alternativas, uma informação: nos
dois últimos anos de vida, o indivíduo gasta com saúde,
em média, 50% de tudo o que desembolsou durante a vida inteira.
De todas as despesas, a mais preocupante é a da previdência
privada, pois envolve uma escolha difícil. As pessoas precisam
decidir hoje onde vão colocar um dinheiro do qual só verão
a cor daqui a vinte ou trinta anos. Nos anos 70, quando existiam no Brasil
apenas os montepios e as caixas de pecúlio, descobriu-se que o
modelo era um fiasco. Ou ele não funcionava em razão da
roubalheira ou quebrava por má gestão ou erro no cálculo
atuarial. Mais tarde, os planos passaram a fracassar porque a inflação
corroía os rendimentos. Milhares de famílias perderam tudo
diante de um governo indiferente. Agora, o sistema está se moralizando.
Por determinação do Ministério da Fazenda, as administradoras
de fundos são obrigadas a apresentar relatórios regulares.
"Sempre houve carência de planos de previdência, mas, em virtude
dos seguidos desastres no setor, as empresas não tinham credibilidade",
diz Paulo Hirai, diretor de mercado da BrasilPrev, uma das maiores empresas
do setor. "Com a estabilização da economia e a recuperação
da imagem, o segmento voltou a funcionar normalmente." Atualmente, quase
6 milhões de pessoas pagam plano de previdência privada.
O total de associados é quase três vezes maior que há
dez anos.
No caso específico
da previdência, os estudiosos registram um dado de cunho comportamental
no aumento da procura por planos. Na década de 70, o brasileiro
vivia em média 53,5 anos e as famílias tinham entre cinco
e seis filhos. Atualmente, a expectativa de vida aumentou para 68,6 anos
e o número de filhos caiu para dois. Com menos filhos, observam
os especialistas, fica mais caro para cada um sustentar os pais na velhice.
"Antes, as pessoas não se preocupavam com o tamanho da família
porque não era tão caro criá-la, com a vantagem de
que podiam contar com ela na aposentadoria", afirma Carlos Flory, presidente
da Petros, o poderoso fundo de pensão da Petrobras. "Agora, essa
forma de organização da sociedade acabou." Foi outro sonho
destruído. Pressionada, a classe média teve de criar novas
metas. E está batalhando duro para alcançá-las.
|
COMO
OS ESPECIALISTAS DEFINEM CLASSE MÉDIA
Alguns métodos para estratificar a sociedade são desenvolvidos
por especialistas, mas há três principais. Um deles,
o mais tradicional, classifica as pessoas segundo o nível
educacional e a profissão do chefe da família. Por
esse critério, a classe média é formada basicamente
por universitários e pessoas que não exercem trabalhos
manuais. São advogados, médicos, funcionários
públicos e comerciários. Alguns de seus integrantes
podem até ganhar menos que um operário de fábrica,
mas renda não importa nesse caso. Outros podem ter salários
altíssimos, mas isso também não conta. Para
ser rico, segundo essa fórmula, é preciso possuir
alguma propriedade produtiva, como indústria, fazenda ou
banco.
Outro modelo analisa as classes sociais de acordo com a renda familiar.
Os valores variam em cada região do país. Por esse
sistema, a classe média paulistana, por exemplo, agruparia
quem tem renda familiar mensal entre 1.800
e 7.200 reais. O terceiro método
trabalha com a capacidade de consumo das famílias e tipifica
as classes por meio de letras, de A, onde estão os mais abastados,
a E, a mais humilde. A classe média, nesse caso, espalha-se
entre as letras A, B e C. Não importa o critério,
em qualquer deles a classe média brasileira reúne
aproximadamente um quarto da população do país.
|
Com
reportagem de
Anna Cecilia Junqueira e Marcos Vita
|
|
 |
|
 |

|
 |