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Os desejos da
classe média

Até pouco tempo atrás, a prioridade
era comprar a casa própria, o carro
e o telefone. Agora, priorizam-se
a educação, os planos de saúde
e a previdência privada

Felipe Patury

 
Fotos Carol Quintanilha
A família Andrade, um flagrante da classe média: filho de caminhoneiro, Claudio (último à esquerda na foto) conseguiu virar diretor de banco e investiu na educação dos filhos, Alessandro (assinalado) e Claudio Filho


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Na década de 70, um dos grandes desafios da classe média brasileira era comprar a casa própria e assim fugir do aluguel. A meta continua presente na lista de objetivos das pessoas, mas 75% delas já compraram seu imóvel. Há trinta anos, outra prioridade apontada nas pesquisas de opinião pública era a aquisição do carro da família. Naquele tempo, a frota era irrisória, com um veículo para cada grupo de 31 pessoas. Com o surgimento do carro popular, que pode ser adquirido em prestações mensais inferiores a 300 reais, o automóvel deixou de ser um objetivo distante. A frota aumentou e a relação veículo/habitante agora é de um para oito. Há trinta anos, quem não se desdobrava para comprar um telefone? A fila de espera por uma linha oficial podia levar anos. O brasileiro convivia com um padrão telefônico chinês. Após a reformulação do setor, o Brasil já está melhor que a Argentina e poderá chegar a um patamar de Primeiro Mundo em quatro anos. Seria exagero dizer que a classe média riscou casa, carro e telefone de sua relação de necessidades. Mas não há dúvida de que a aquisição desses bens perdeu importância relativa. Isso aconteceu não apenas porque muita gente realizou esses sonhos, mas também porque três novas carências inadiáveis passaram à frente na lista de prioridades: financiar a educação da família, pagar o seguro-saúde e contratar um bom plano de previdência privada.

"As pessoas perceberam que podem morar de aluguel, podem andar de táxi ou ônibus e poderiam, num limite teórico, até dispensar o telefone", diz o cientista político Sérgio Abranches. "Mas ninguém pode mais viver sem uma boa formação educacional, um seguro-saúde de qualidade ou um plano de previdência privada confiável." A troca de prioridades pode ser conferida em diversos estudos. A Associação Nacional das Empresas de Previdência Privada encomendou uma pesquisa qualitativa feita pelo instituto InterScience, de São Paulo, para sondar as preocupações da sociedade em relação ao futuro. As entrevistas foram feitas com pessoas cuja renda se situa na faixa entre 1 800 e 7 200 reais. As respostas mais citadas foram justamente estas: educação, plano de saúde e previdência privada. No fim do ano passado, o instituto Sensus realizou uma pesquisa nacional quantitativa a pedido da Confederação Nacional dos Transportes. O tema principal era eleição. Perguntados sobre quais prioridades dos candidatos a presidente atrairiam o seu voto, os entrevistados apontaram em primeiro lugar a resposta "melhorar a saúde e a educação". Essa opção foi assinalada por 39% dos pesquisados. Para efeito de comparação, uma resposta previsível, "evitar a volta da inflação", obteve menos de 4% das respostas. Há dois anos, o instituto Datafolha pediu a 2.800 pessoas que listassem três itens que fariam a vida melhorar. Em primeiro lugar ficou o emprego, claro, com 43% da preferência. Saúde (34%) e educação (24%) ocuparam, respectivamente, o segundo e o terceiro lugares. A compra da casa, citada por 15% das pessoas, ficou em modesto sétimo lugar.

As pessoas mudaram de opinião sobre algumas de suas necessidades mais urgentes não porque tenham refletido sobre o assunto e descoberto, por exemplo, que é mais vantajoso pagar aluguel e deixar o dinheiro numa aplicação financeira. Nada disso. Os desejos até então pétreos se liquefizeram em razão de uma faxina econômica sem precedentes que a atual geração de brasileiros está vivenciando. Independentemente da qualidade do serviço prestado, as pessoas se habituaram no passado a receber do Estado educação, saúde e aposentadoria. "Fomos treinados para acreditar que o governo poderia ou deveria melhorar o serviço prestado nesse campo, não reformá-lo ou privatizá-lo", afirma o ex-ministro Mailson da Nóbrega. "A nova realidade nos foi ensinada na marra."

 

Celma Vitor fez um curso técnico e mudou de vida. Abandonou o emprego de secretária no interior paulista e montou o próprio negócio

CELMA MARIA VITOR
Idade: 40 anos
Trabalha como: podóloga, nova denominação para calista
Estado civil: solteira
Primeiro emprego: trabalhava como secretária numa cidade do interior do Estado de São Paulo
Quanto ganhava: 1 200 reais, em valores de hoje
Mudou-se para a capital em: 1990, para fazer um curso de podologia no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac)
Graças ao curso: montou uma clínica de podologia e está mudando agora para outra maior e mais moderna
Quanto ganha atualmente: 3 500 reais

As crises internacionais e a globalização fizeram com que os governos de todo o mundo revissem sua política social. No caso brasileiro, que financiava tais serviços à base de inflação e endividamento externo, o ajuste foi dos mais pesados e não está concluído. Tome-se o caso da previdência social, que é o mais grave. O sistema arrecada 55 bilhões por ano de impostos da população, mas gasta o dobro com o pagamento das aposentadorias públicas e privadas. "Nos anos 70, a classe média tinha a falsa impressão de viver em céu de brigadeiro. Aí, as coisas mudaram. Nos anos 80, o tempo nublou. Nos 90, choveu", diz Roberto Grün, sociólogo da Universidade Federal de São Carlos, no Estado de São Paulo.

As mudanças econômicas atingiram todos os brasileiros, do mais modesto ao mais rico. A porção mais favorecida da sociedade, formada pelo empresariado, precisou se adaptar a uma feroz concorrência estrangeira pós-abertura da economia. Muitas empresas quebraram, outras tantas foram compradas por multinacionais. Os miseráveis, que representavam perto de 17% da população há 25 anos, hoje são 14,5% – um ganho pequeno quando se leva em conta que nesse período a renda per capita aumentou quase 40%. Mas até entre os miseráveis houve algum ganho. No caso da classe média, ao contrário, houve perda. Seu tamanho aumentou em 2%, mas sua renda média decaiu. Esse segmento social é a base da economia, e isso o torna mais sensível a trepidações. Para se ter uma idéia de seu peso, façam-se as contas. A classe média brasileira representa 23% da sociedade. (Saiba a que classe econômica você pertence.) Com esse tamanho, ela detém 38,8% da renda nacional, fica com 54% dos remédios vendidos no Brasil, faz 55% das compras de supermercado e compra 90% dos aparelhos de televisão comercializados no país. É ela também que contrata a maioria dos planos de saúde e de aposentadoria. "Qualquer alteração ocorrida no país atinge a classe média em cheio", diz o economista Waldir José de Quadros, da Universidade de Campinas, um dos maiores especialistas em estudos sobre essa faixa da sociedade.


Os novos desafios podem ser sentidos no bolso das pessoas. Antigamente, quando o sonho nacional era comprar a casa própria, convivia-se com a inadimplência, e os bancos que financiavam imóveis pelo Sistema Financeiro da Habitação concordavam em renegociar o valor da prestação. Havia até mesmo a possibilidade de vincular a mensalidade do financiamento ao reajuste salarial do mutuário. Na pior das hipóteses, podia-se interromper o pagamento de vez e esperar pela ação de despejo, que levava anos. Hoje, é impensável alguém adotar o mesmo expediente na relação com as empresas que administram os planos de saúde e depois conseguir internar um familiar no hospital. Por causa da necessidade de pagar por serviços que não integravam o orçamento doméstico do passado, o custo de vida subiu. Uma equipe do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada comandada pelo economista Fernando Gaiger concluiu que as famílias de classe média passaram a gastar cada vez menos com a compra de itens como comida e roupa. O dinheiro foi canalizado para o consumo de serviços, entre os quais saúde e educação. Entre 1988 e 1996, a participação na cesta de consumo de alimentos chegou a cair 19% e na de roupas 50%. Em contrapartida, a habitação subiu até 35% e a educação e a saúde chegaram a mais de 40%. Utilizando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o economista Ricardo Carneiro, da Universidade de Campinas, constatou que os gastos com saúde da classe média consumiam 6% do orçamento doméstico no início da década de 90. Agora engolem quase 10% do total.

 



   
 
   
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