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O médico que
matava
Cirurgião
plástico é preso em Brasília
depois da morte de sua quinta paciente
O médico
Denísio Marcelo Caron tem 38 anos, é um homem bem-apessoado,
veste ternos da moda, mora num apartamento confortável em Goiânia
e ganha cerca de 12.000 reais por mês.
Nos últimos dois anos, exerceu a profissão de cirurgião
plástico em ritmo febril: fez cerca de 1.000
cirurgias. Na semana passada, em Brasília, Marcelo Caron foi preso
por ordem da Justiça Federal. O motivo é assustador: doze
horas antes de sua prisão, morrera mais uma de suas pacientes.
A vítima foi a fisioterapeuta Grasiela Murta Oliveira, 26 anos.
Uma semana depois de se submeter a uma lipoescultura com o doutor Caron,
Grasiela foi internada com complicações pós-operatórias,
que evoluíram para uma infecção generalizada. Em
seguida, entrou em estado de coma e, na quinta-feira, morreu com falência
múltipla dos órgãos. Pelo que se tem notícia
até agora, Grasiela foi a quinta vítima fatal do bisturi
do doutor nos últimos dois anos.
Formado
pela Universidade Severino Sombra, no Rio de Janeiro, cujo curso de medicina
recebeu notas D, C e C nos últimos Provões do Ministério
da Educação, Caron começou a carreira em Campinas,
no interior de São Paulo. Entre 1994 e 1996, fez um estágio
em cirurgia plástica no Hospital Mário Gatti. Em 1997, tentou
obter na Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica o título
de especialista no ramo. "O pedido foi recusado por um motivo simples:
ele não tinha feito residência médica em cirurgia
plástica", lembra Farid Hakme, presidente da entidade na época.
Em 2000, com a mudança da diretoria, Caron apresentou novo pedido.
Outra vez sem sucesso. Ocorre que, nesse mesmo período, devido
a um erro monumental, Caron obteve o registro de cirurgião plástico
no Conselho Regional de Medicina de Goiás. De lá para cá,
passou a atuar como tal em Goiânia. Anunciava seus serviços
a preços populares num carro de som. Seu consultório lotava
e as mortes começaram.
Em 23 de março de 2000, morreu Vera Lúcia Teodoro, 39 anos,
depois de uma lipoaspiração no abdome.
Em 14 de janeiro de 2001, faleceu a advogada Janete Figueiredo, 42 anos,
após uma lipoescultura.
Em 12 de março de 2001, a vítima foi a oficial de Justiça
Flávia Rosa, 23 anos, que fez lipoaspiração.
A sucessão
de mortes, aliada às 35 denúncias por erro médico
contra Caron, começou a chamar a atenção. E aí
se descobriu o erro monumental. No início de 1999, Caron pediu
ao CRM de Goiás o registro de cirurgião plástico
dizendo que fizera estágio no Hospital Mário Gatti, de Campinas,
entre 1994 e 1996. O conselho consultou a Comissão Nacional de
Residência Médica, órgão vinculado ao Ministério
da Educação, para saber se o hospital de Campinas era credenciado.
Era. O órgão então deu o registro a Caron. Depois
da notícia da terceira morte, o CRM voltou a consultar a Comissão
de Residência Médica. Descobriu que, de fato, o hospital
de Campinas era reconhecido, mas isso só acontecera em 1999. Ou
seja: quando Caron fez o estágio, entre 1994 e 1996, o hospital
não era credenciado e, portanto, não habilitara Caron a
trabalhar como especialista em plásticas.
No ano passado,
já sob investigação, Caron assinou um compromisso
com o CRM garantindo que não iria mais clinicar. Violando o acordo,
mudou-se para Brasília e montou um consultório na cidade-satélite
de Taguatinga. Foram mais duas mortes. Em 29 de janeiro passado, a secretária
Adcélia de Souza, 38 anos, foi internada para fazer uma lipoescultura
completa nos glúteos, barriga e culote, além de colocar
próteses de silicone nos seios. Já nas primeiras intervenções
na paciente, Caron fez perfurações profundas nas artérias,
causando hemorragias internas. O mais grave é que perfurou a paciente
logo abaixo da axila com a caneta da lipoaspiração. O médico
atingiu a primeira vértebra de Adcélia e foi rasgando artérias
que desembocam no coração. Dois litros de sangue escorreram
direto para os pulmões da vítima. A equipe tentou reanimá-la
por uma hora e 45 minutos. Adcélia já estava morta. "Mesmo
assim levaram minha mulher para a UTI, de onde ela só saiu às
18h45. Segundo o laudo médico do IML, a morte aconteceu às
15h45", conta o companheiro de Adcélia, Marcelo Henrique Fernandez,
um paramédico de 30 anos. "Caron fugiu imediatamente do hospital.
Nem sequer deu uma satisfação à família",
afirma. Na semana passada, foi a vez de a família de Grasiela enfrentar
o martírio.
O currículo
macabro do doutor Caron revela um pouco do que está acontecendo
no campo da cirurgia plástica estética no Brasil, ramo em
que o país é recordista mundial. Há 3.500
cirurgiões registrados na Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.
O boom desse tipo de cirurgia fez com que muitos médicos se aventurassem
pela área sem o título de especialista. Estima-se que cerca
de 1.500 profissionais estejam fazendo cirurgias
plásticas sem o devido preparo. Num contexto assim, erros são
inevitáveis. Em números absolutos, a ginecologia e a obstetrícia
lideram o ranking das denúncias de erro médico registradas
no Conselho Federal de Medicina. Em seguida, vem a cirurgia plástica.
"Como esses números são absolutos, certamente as cirurgias
plásticas são campeãs de denúncias por erro
médico", afirma a doutora Deíla Barbosa Maia, vice-presidente
da Sociedade Brasileira de Direito Médico. No ano passado, as queixas
na área de ginecologia e obstetrícia somaram oitenta. Na
de cirurgia plástica, 64. Tem-se de levar em conta, porém,
que o número de ginecologistas e obstetras é muito maior
que o de cirurgiões plásticos 22.000
contra 3.500. Ou seja, de cada 1.000
ginecologistas e obstetras, em média quatro foram vítimas
de denúncia. Entre cirurgiões plásticos, a proporção
é muito mais alta, dezoito por 1.000.
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