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Edição 1 739 - 20 de fevereiro de 2002
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O médico que matava

Cirurgião plástico é preso em Brasília
depois da morte de sua quinta paciente

O médico Denísio Marcelo Caron tem 38 anos, é um homem bem-apessoado, veste ternos da moda, mora num apartamento confortável em Goiânia e ganha cerca de 12.000 reais por mês. Nos últimos dois anos, exerceu a profissão de cirurgião plástico em ritmo febril: fez cerca de 1.000 cirurgias. Na semana passada, em Brasília, Marcelo Caron foi preso por ordem da Justiça Federal. O motivo é assustador: doze horas antes de sua prisão, morrera mais uma de suas pacientes. A vítima foi a fisioterapeuta Grasiela Murta Oliveira, 26 anos. Uma semana depois de se submeter a uma lipoescultura com o doutor Caron, Grasiela foi internada com complicações pós-operatórias, que evoluíram para uma infecção generalizada. Em seguida, entrou em estado de coma e, na quinta-feira, morreu com falência múltipla dos órgãos. Pelo que se tem notícia até agora, Grasiela foi a quinta vítima fatal do bisturi do doutor nos últimos dois anos.

Formado pela Universidade Severino Sombra, no Rio de Janeiro, cujo curso de medicina recebeu notas D, C e C nos últimos Provões do Ministério da Educação, Caron começou a carreira em Campinas, no interior de São Paulo. Entre 1994 e 1996, fez um estágio em cirurgia plástica no Hospital Mário Gatti. Em 1997, tentou obter na Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica o título de especialista no ramo. "O pedido foi recusado por um motivo simples: ele não tinha feito residência médica em cirurgia plástica", lembra Farid Hakme, presidente da entidade na época. Em 2000, com a mudança da diretoria, Caron apresentou novo pedido. Outra vez sem sucesso. Ocorre que, nesse mesmo período, devido a um erro monumental, Caron obteve o registro de cirurgião plástico no Conselho Regional de Medicina de Goiás. De lá para cá, passou a atuar como tal em Goiânia. Anunciava seus serviços a preços populares num carro de som. Seu consultório lotava – e as mortes começaram.

Em 23 de março de 2000, morreu Vera Lúcia Teodoro, 39 anos, depois de uma lipoaspiração no abdome.

Em 14 de janeiro de 2001, faleceu a advogada Janete Figueiredo, 42 anos, após uma lipoescultura.

Em 12 de março de 2001, a vítima foi a oficial de Justiça Flávia Rosa, 23 anos, que fez lipoaspiração.

 

Em dois anos, o médico realizou cerca de 1 000 cirurgias plásticas com fim estético. Janete, Flávia e Vera Lúcia (no sentido horário) morreram em Goiânia. Adcélia e Grasiela (foto maior) faleceram em Brasília

A sucessão de mortes, aliada às 35 denúncias por erro médico contra Caron, começou a chamar a atenção. E aí se descobriu o erro monumental. No início de 1999, Caron pediu ao CRM de Goiás o registro de cirurgião plástico dizendo que fizera estágio no Hospital Mário Gatti, de Campinas, entre 1994 e 1996. O conselho consultou a Comissão Nacional de Residência Médica, órgão vinculado ao Ministério da Educação, para saber se o hospital de Campinas era credenciado. Era. O órgão então deu o registro a Caron. Depois da notícia da terceira morte, o CRM voltou a consultar a Comissão de Residência Médica. Descobriu que, de fato, o hospital de Campinas era reconhecido, mas isso só acontecera em 1999. Ou seja: quando Caron fez o estágio, entre 1994 e 1996, o hospital não era credenciado e, portanto, não habilitara Caron a trabalhar como especialista em plásticas.

No ano passado, já sob investigação, Caron assinou um compromisso com o CRM garantindo que não iria mais clinicar. Violando o acordo, mudou-se para Brasília e montou um consultório na cidade-satélite de Taguatinga. Foram mais duas mortes. Em 29 de janeiro passado, a secretária Adcélia de Souza, 38 anos, foi internada para fazer uma lipoescultura completa nos glúteos, barriga e culote, além de colocar próteses de silicone nos seios. Já nas primeiras intervenções na paciente, Caron fez perfurações profundas nas artérias, causando hemorragias internas. O mais grave é que perfurou a paciente logo abaixo da axila com a caneta da lipoaspiração. O médico atingiu a primeira vértebra de Adcélia e foi rasgando artérias que desembocam no coração. Dois litros de sangue escorreram direto para os pulmões da vítima. A equipe tentou reanimá-la por uma hora e 45 minutos. Adcélia já estava morta. "Mesmo assim levaram minha mulher para a UTI, de onde ela só saiu às 18h45. Segundo o laudo médico do IML, a morte aconteceu às 15h45", conta o companheiro de Adcélia, Marcelo Henrique Fernandez, um paramédico de 30 anos. "Caron fugiu imediatamente do hospital. Nem sequer deu uma satisfação à família", afirma. Na semana passada, foi a vez de a família de Grasiela enfrentar o martírio.

O currículo macabro do doutor Caron revela um pouco do que está acontecendo no campo da cirurgia plástica estética no Brasil, ramo em que o país é recordista mundial. Há 3.500 cirurgiões registrados na Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. O boom desse tipo de cirurgia fez com que muitos médicos se aventurassem pela área sem o título de especialista. Estima-se que cerca de 1.500 profissionais estejam fazendo cirurgias plásticas sem o devido preparo. Num contexto assim, erros são inevitáveis. Em números absolutos, a ginecologia e a obstetrícia lideram o ranking das denúncias de erro médico registradas no Conselho Federal de Medicina. Em seguida, vem a cirurgia plástica. "Como esses números são absolutos, certamente as cirurgias plásticas são campeãs de denúncias por erro médico", afirma a doutora Deíla Barbosa Maia, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Direito Médico. No ano passado, as queixas na área de ginecologia e obstetrícia somaram oitenta. Na de cirurgia plástica, 64. Tem-se de levar em conta, porém, que o número de ginecologistas e obstetras é muito maior que o de cirurgiões plásticos – 22.000 contra 3.500. Ou seja, de cada 1.000 ginecologistas e obstetras, em média quatro foram vítimas de denúncia. Entre cirurgiões plásticos, a proporção é muito mais alta, dezoito por 1.000.



   
 
   
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