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O azar de Las Vegas
Explosão
populacional e aumento da
criminalidade mudam a capital do jogo
Amauri
Segalla
Grant Delin

Novo
conjunto habitacional da cidade: área urbana que mais cresce nos Estados
Unidos |
O
principal cartão-postal da capital do jogo é a Las Vegas
Boulevard, avenida que concentra os maiores e mais luxuosos cassinos do
mundo. Na foto acima, as luzes dos hotéis e o lado glamouroso da
cidade aparecem apenas ao fundo. No primeiro plano o que se vê é
um condomínio residencial de classe média, cuja arquitetura
sem graça nada lembra as imagens suntuosas que celebrizaram Las
Vegas. O conjunto é uma espécie de símbolo das transformações
que ocorrem na cidade. Las Vegas deixou de ser apenas um parque de diversões
para adultos e se tornou a área urbana que mais cresce nos Estados
Unidos. Na última década, a população local
dobrou e já chegou à marca de 1,3 milhão de habitantes.
A maior parte dessas pessoas é de imigrantes de origem latina e
asiática que chegaram ao local para trabalhar nos cassinos ou negócios
alimentados indiretamente pela indústria do jogo. Esse fenômeno
levou para o lugar um problema típico das grandes metrópoles:
o aumento da criminalidade. De um ano para cá, o número
de assassinatos subiu 40% e o tráfico de drogas disparou. São
números altos, mesmo levando em conta o crescimento populacional
registrado no período. Uma pesquisa recente apontou outro grave
problema local: o número de suicídios em Las Vegas é
quatro vezes maior que o registrado em outras cidades americanas do mesmo
tamanho que não possuem cassinos.
A maré de azar que atinge a cidade registrou outra péssima
notícia na semana passada. Depois do longo período de pujança
financeira responsável pelo formidável crescimento de sua
população, a economia de Las Vegas começou a dar
sinais preocupantes. De acordo com um relatório da comissão
de cassinos de Nevada, o Estado onde fica Las Vegas, o faturamento do
jogo caiu pela primeira vez desde o início dos anos 80. Em 2001,
movimentou 9,4 bilhões de dólares, resultado 1,4% inferior
ao de 2000. O total de visitantes da capital mundial dos jogos de azar
caiu 2%. Parece pouco quando se observam os porcentuais, mas em números
absolutos significa 800 000 apostadores a menos nas roletas da cidade.
Segundo os empresários do ramo, a queda ocorreu por causa de uma
combinação de dois fatores: o atentado às torres
do World Trade Center e o desaceleramento da economia do país.
Desde a década de 30, cada Estado americano tem autonomia para
decidir se quer ou não permitir a atuação da indústria
das apostas. Hoje, de um total de cinqüenta, 28 deles optaram por
liberar os cassinos. Las Vegas não é o único caso
citado como exemplo dos efeitos perversos da prática do jogo. Segundo
um estudo recente da Universidade da Geórgia, as cidades que abriram
suas portas aos cassinos sofreram incremento médio de 8% nas taxas
de criminalidade. Outra pesquisa, encomendada no começo da década
de 90 pelo governo do Estado da Flórida, concluiu que os cassinos
poderiam gerar na região um movimento adicional na economia de
470 milhões de dólares por ano. Ao mesmo tempo, segundo
esse trabalho, teriam de ser gastos 4 bilhões de dólares
para combater os problemas decorrentes da liberação das
apostas. De acordo com os estudiosos, dois terços dos jogadores
compulsivos recorrem a atividades ilegais para financiar as apostas e
metade deles burla o imposto de renda. Esses indivíduos, segundo
os especialistas, custam à sociedade entre 13.000 e 52.000 dólares
por ano. Com base nesses dados, o governo da Flórida manteve a
proibição aos jogos.
Os problemas gerados pelos cassinos não são um produto exclusivo
dos Estados Unidos. Do badalado principado de Mônaco às capitais
do Leste Europeu, que liberaram o jogo depois da queda do Muro de Berlim,
a maior parte das cidades que viraram centro do jogo possui hoje taxas
elevadas de criminalidade, prostituição e sonegação
de impostos. Por causa disso, tem crescido nos últimos anos o lobby
favorável ao fim da indústria de apostas. Os críticos
travam uma queda-de-braço interminável com os empresários
que participam do negócio, principalmente nos Estados Unidos. Os
defensores do jogo argumentam que a atividade fomenta o turismo, desenvolve
as cidades e gera muitos empregos. Somente nos EUA, estima-se que os cassinos
sustentem 800 000 postos de trabalho e sejam responsáveis por um
faturamento anual de 26 bilhões de dólares um naco
considerável desse dinheiro volta para o bolso dos Estados, na
forma de impostos.
"Existem
problemas, é verdade, mas os benefícios gerados são
muito maiores", argumenta o empresário brasileiro Ciro Batelli.
A discussão é complexa e está longe do fim. Instalado
em Las Vegas há dezoito anos, Batelli trabalhou como funcionário
de cassinos e hoje é consultor de hotéis e grupos interessados
em investir na indústria do jogo em qualquer parte do mundo. No
Brasil, o empresário atua como um dos principais defensores da
legalização das casas de apostas. Um projeto de lei criado
para esse fim tramita no Congresso Nacional desde 1994. Depois de passar
na Câmara dos Deputados, ele se encontra sob análise da comissão
de assuntos sociais do Senado Federal. Se for aprovado, segue direto para
sanção ou veto do presidente da República. "Esse
assunto está se arrastando há tanto tempo que o desfecho
do caso se tornou absolutamente imprevisível", afirma Batelli.
Com
reportagem de
Ricardo Mendonça
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