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O
ditador vira réu
Tribunal internacional começa a julgar
Milosevic,
o mentor da limpeza étnica
Reuters
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Milosevic,
no
Tribunal de Haia: ainda arrogante
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Como
réu, Slobodan Milosevic comporta-se com a arrogância própria
dos anos em que era ditador da Sérvia, a maior das duas repúblicas
remanescentes da Iugoslávia. Sempre que tem a oportunidade de falar,
mostra-se indignado, não reconhece a legitimidade do tribunal estabelecido
pelas Nações Unidas nem admite responsabilidade por nenhuma
atrocidade durante o sangrento esfacelamento da Iugoslávia em repúblicas
independentes nos anos 90. A importância de seu julgamento, iniciado
na terça-feira passada em Haia, na Holanda, vai além do
ajuste de contas com o carniceiro dos Bálcãs, como ficou
conhecido. A relevância é dada pelo fato de se tratar do
principal teste de uma idéia que ganhou notoriedade na última
década: a de aplicar a lei internacional em conflitos armados em
qualquer país.
No momento, um tribunal da ONU julga os responsáveis pelo genocídio
de 1994 em Ruanda. Houve também uma tentativa de levar à
Justiça internacional os líderes do genocídio no
Camboja. Os governos dos países envolvidos ficam incomodados ao
entregar os algozes nacionais a juízes estrangeiros. Depois da
prisão do general Augusto Pinochet em Londres, a pedido de um juiz
espanhol, em 1998, tomou impulso a idéia de um tribunal internacional
permanente. Muitos países, incluindo os Estados Unidos, são
contra, com medo de que possam se tornar vítimas de vendetas internacionais.
Milosevic é o primeiro chefe de Estado que passa por esse processo
fora de suas fronteiras. Não há criminoso mais notório:
mentor do nacionalismo sérvio e da expulsão de outras etnias
do território que formaria a Grande Sérvia (a chamada limpeza
étnica), ele foi responsável por um banho de sangue no centro
da Europa.
Durante os onze anos em que governou com mão de ferro, causou três
guerras na Croácia, na Bósnia e na província
do Kosovo , em que morreram 300.000 pessoas e das quais sairiam
milhões de refugiados. Milosevic responde por 66 acusações
de genocídio, crimes contra a humanidade e violações
das leis de guerra. Em 1999, tamanha era a indignação mundial
com a opressão sobre a população de língua
albanesa na província de Kosovo que a Otan, a aliança militar
do Ocidente, bombardeou a Iugoslávia por 78 dias. O ex-ditador
não é o único réu em Haia. O tribunal indiciou
76 pessoas por crimes de guerra nos Bálcãs (na maioria sérvios,
mas há também croatas e bósnios muçulmanos),
mas Milosevic é o único figurão. Seu julgamento deve
durar dois anos e, espera-se, terá algo a ensinar à humanidade.
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