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Edição 1 739 - 20 de fevereiro de 2002
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O ditador vira réu

Tribunal internacional começa a julgar
Milosevic, o mentor da limpeza étnica

 
Reuters

Milosevic, no Tribunal de Haia: ainda arrogante

Como réu, Slobodan Milosevic comporta-se com a arrogância própria dos anos em que era ditador da Sérvia, a maior das duas repúblicas remanescentes da Iugoslávia. Sempre que tem a oportunidade de falar, mostra-se indignado, não reconhece a legitimidade do tribunal estabelecido pelas Nações Unidas nem admite responsabilidade por nenhuma atrocidade durante o sangrento esfacelamento da Iugoslávia em repúblicas independentes nos anos 90. A importância de seu julgamento, iniciado na terça-feira passada em Haia, na Holanda, vai além do ajuste de contas com o carniceiro dos Bálcãs, como ficou conhecido. A relevância é dada pelo fato de se tratar do principal teste de uma idéia que ganhou notoriedade na última década: a de aplicar a lei internacional em conflitos armados em qualquer país.

No momento, um tribunal da ONU julga os responsáveis pelo genocídio de 1994 em Ruanda. Houve também uma tentativa de levar à Justiça internacional os líderes do genocídio no Camboja. Os governos dos países envolvidos ficam incomodados ao entregar os algozes nacionais a juízes estrangeiros. Depois da prisão do general Augusto Pinochet em Londres, a pedido de um juiz espanhol, em 1998, tomou impulso a idéia de um tribunal internacional permanente. Muitos países, incluindo os Estados Unidos, são contra, com medo de que possam se tornar vítimas de vendetas internacionais. Milosevic é o primeiro chefe de Estado que passa por esse processo fora de suas fronteiras. Não há criminoso mais notório: mentor do nacionalismo sérvio e da expulsão de outras etnias do território que formaria a Grande Sérvia (a chamada limpeza étnica), ele foi responsável por um banho de sangue no centro da Europa.

Durante os onze anos em que governou com mão de ferro, causou três guerras – na Croácia, na Bósnia e na província do Kosovo –, em que morreram 300.000 pessoas e das quais sairiam milhões de refugiados. Milosevic responde por 66 acusações de genocídio, crimes contra a humanidade e violações das leis de guerra. Em 1999, tamanha era a indignação mundial com a opressão sobre a população de língua albanesa na província de Kosovo que a Otan, a aliança militar do Ocidente, bombardeou a Iugoslávia por 78 dias. O ex-ditador não é o único réu em Haia. O tribunal indiciou 76 pessoas por crimes de guerra nos Bálcãs (na maioria sérvios, mas há também croatas e bósnios muçulmanos), mas Milosevic é o único figurão. Seu julgamento deve durar dois anos e, espera-se, terá algo a ensinar à humanidade.

 
 
   
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