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Uma
grande gelada
"Levar
uma pedrada
na cabeça
teria
sido mais
divertido que
assistir aos
desfiles
no camarote
da Brahma"
Domingo
de Carnaval. Camarote da Brahma. A maior vergonha da minha vida foi enfiar
a camiseta da dita-cuja. Mas não tem jeito: ninguém entra
no camarote se não aceita virar garoto-propaganda da cervejaria.
Até Barbara Bush foi obrigada a amarrar a camiseta no pescoço.
Alguns convidados mais prendados se esforçaram para encontrar subterfúgios,
transformando-a em tomara-que-caia, em colete, em top. Outros se dispuseram
a vesti-la mesmo sem comparecer ao evento, como Luis Fernando Verissimo,
que se sentiu no dever de se desculpar publicamente por sua ausência.
O camarote da Brahma costuma ser descrito como uma mordomia. Essa mordomia
incluiu esperar uma hora e meia no estacionamento da churrascaria Porcão,
debaixo de chuva, para pegar um miniônibus rumo ao Sambódromo.
Eu sempre li que o camarote da Brahma era freqüentado por muitas
celebridades. Para matar o tempo, tentei identificá-las na fila
do estacionamento. Não obtive sucesso. Não vi ninguém
conhecido. Comecei a ler o nome das pessoas nos crachás: Igor,
Yvonne, Vanessa... Nada que soasse familiar. Pedi ajuda a um colega de
VEJA. A pessoa mais famosa que ele me indicou foi um comediante de um
metro e trinta de altura que faz o papel de parceiro de Pitbicha na TV.
Não sei quem é Pitbicha, nem quero saber.
O mais difícil no camarote da Brahma é conseguir assistir
aos desfiles de Carnaval. Há uma acirrada disputa por um lugar
junto à sacada. Depois de uma hora de inúteis tentativas,
aproveitei o longo intervalo entre uma escola de samba e outra para abrir
espaço até lá, posicionando-me estrategicamente sob
um chuveirinho que borrifava em meus olhos uma inebriante mistura de gelo-seco
com desodorante Avon. No exato instante em que a escola de samba seguinte
começou a desfilar, a Jade, da novela das 8, aproximou-se pela
retaguarda e, na atmosfera cheia de luxúria do Carnaval, passou
a roçar os cotovelos em mim. Envaidecido, pensei que fosse uma
demonstração de interesse. Quando me dei conta de suas reais
intenções, era tarde demais: ela já havia roubado
meu lugar na sacada, relegando-me novamente à terceira fila.
Os únicos que não se interessaram em ver os desfiles foram
os jogadores de futebol. Preferiram ficar no interior do camarote, circulando
pelo bar ou pelo restaurante, de mãos dadas com suas acompanhantes,
à caça dos fotógrafos das colunas sociais. Os jogadores
de futebol são a melhor demonstração da mobilidade
social brasileira. Por mais pernas-de-pau que sejam, comportam-se de maneira
altiva, como uma casta superior, evitando se misturar com o resto da gentalha,
perfeitamente conscientes de que são eles que ditam a moda e as
regras gramaticais. Graças à maciça presença
de jogadores de futebol, o camarote da Brahma também foi um exemplo
de democracia racial. Havia mais negros ali do que na Marquês de
Sapucaí, já que a passarela do samba parece ter sido tomada
por paulistas brancos e gordos que não sabem rebolar. Acho que
os desfiles de Carnaval precisariam de um pouco de ação
afirmativa.
No caminho de volta para o Porcão, os passantes espiavam dentro
do miniônibus, com a esperança de ver algum rosto conhecido.
Quando deparavam comigo ou com os outros anônimos que ali se en
contravam, frustravam-se. Por pouco não nos apedrejaram. Levar
uma pedrada na cabeça teria sido mais divertido que o camarote
da Brahma.
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