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Edição 1 739 - 20 de fevereiro de 2002
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Uma grande gelada

"Levar uma pedrada na cabeça teria
sido
mais divertido que assistir aos
desfiles no camarote da Brahma"

Domingo de Carnaval. Camarote da Brahma. A maior vergonha da minha vida foi enfiar a camiseta da dita-cuja. Mas não tem jeito: ninguém entra no camarote se não aceita virar garoto-propaganda da cervejaria. Até Barbara Bush foi obrigada a amarrar a camiseta no pescoço. Alguns convidados mais prendados se esforçaram para encontrar subterfúgios, transformando-a em tomara-que-caia, em colete, em top. Outros se dispuseram a vesti-la mesmo sem comparecer ao evento, como Luis Fernando Verissimo, que se sentiu no dever de se desculpar publicamente por sua ausência.

O camarote da Brahma costuma ser descrito como uma mordomia. Essa mordomia incluiu esperar uma hora e meia no estacionamento da churrascaria Porcão, debaixo de chuva, para pegar um miniônibus rumo ao Sambódromo. Eu sempre li que o camarote da Brahma era freqüentado por muitas celebridades. Para matar o tempo, tentei identificá-las na fila do estacionamento. Não obtive sucesso. Não vi ninguém conhecido. Comecei a ler o nome das pessoas nos crachás: Igor, Yvonne, Vanessa... Nada que soasse familiar. Pedi ajuda a um colega de VEJA. A pessoa mais famosa que ele me indicou foi um comediante de um metro e trinta de altura que faz o papel de parceiro de Pitbicha na TV. Não sei quem é Pitbicha, nem quero saber.

O mais difícil no camarote da Brahma é conseguir assistir aos desfiles de Carnaval. Há uma acirrada disputa por um lugar junto à sacada. Depois de uma hora de inúteis tentativas, aproveitei o longo intervalo entre uma escola de samba e outra para abrir espaço até lá, posicionando-me estrategicamente sob um chuveirinho que borrifava em meus olhos uma inebriante mistura de gelo-seco com desodorante Avon. No exato instante em que a escola de samba seguinte começou a desfilar, a Jade, da novela das 8, aproximou-se pela retaguarda e, na atmosfera cheia de luxúria do Carnaval, passou a roçar os cotovelos em mim. Envaidecido, pensei que fosse uma demonstração de interesse. Quando me dei conta de suas reais intenções, era tarde demais: ela já havia roubado meu lugar na sacada, relegando-me novamente à terceira fila.

Os únicos que não se interessaram em ver os desfiles foram os jogadores de futebol. Preferiram ficar no interior do camarote, circulando pelo bar ou pelo restaurante, de mãos dadas com suas acompanhantes, à caça dos fotógrafos das colunas sociais. Os jogadores de futebol são a melhor demonstração da mobilidade social brasileira. Por mais pernas-de-pau que sejam, comportam-se de maneira altiva, como uma casta superior, evitando se misturar com o resto da gentalha, perfeitamente conscientes de que são eles que ditam a moda e as regras gramaticais. Graças à maciça presença de jogadores de futebol, o camarote da Brahma também foi um exemplo de democracia racial. Havia mais negros ali do que na Marquês de Sapucaí, já que a passarela do samba parece ter sido tomada por paulistas brancos e gordos que não sabem rebolar. Acho que os desfiles de Carnaval precisariam de um pouco de ação afirmativa.

No caminho de volta para o Porcão, os passantes espiavam dentro do miniônibus, com a esperança de ver algum rosto conhecido. Quando deparavam comigo ou com os outros anônimos que ali se en contravam, frustravam-se. Por pouco não nos apedrejaram. Levar uma pedrada na cabeça teria sido mais divertido que o camarote da Brahma.

 
 
   
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