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"A economia ainda passa por momentos difíceis, mas está claro que o estrago não chegou nem perto do que parecia inevitável" |
Aos 49 anos, Richard Wagoner Junior ocupa o posto de principal executivo, CEO, da maior empresa de automóveis do mundo, a General Motors, que emprega 363 000 pessoas no mundo 19 000 delas no Brasil. A promoção, ocorrida em junho de 2000, coroou uma carreira ligada a automóveis desde a adolescência. Em pouco tempo de trabalho, Wagoner recolocou a GM na liderança do setor e trouxe de novo para a marca a imagem de inovação tecnológica que ela perdera para os fabricantes japoneses. Contrariando uma das mais caras tradições da empresa, buscou talentos no mercado e colocou-os em postos-chave na GM. Wagoner aparece hoje em todas as listas dos presidentes de empresa mais eficientes dos Estados Unidos. Casado, pai de três filhos, de 18, 16 e 11 anos, Wagoner é um velho conhecido dos brasileiros ligados ao setor automobilístico. Entre 1981 e 1987, ele ocupou diversos cargos na GM do Brasil. Em 1991 voltou ao país como presidente da subsidiária brasileira. Os dois filhos mais velhos nasceram em São Paulo, e Wagoner ainda fala português. Na semana passada, ele recebeu VEJA em seu escritório no 39º andar do imponente Renaissance Center, a lendária sede da empresa em Detroit.
Veja O escândalo de corrupção da megaempresa
de energia Enron não o assusta quando o senhor pensa que como chefe
não tem controle sobre o que ocorre em todos os departamentos da
empresa?
Wagoner
Sendo realista, tenho de admitir que não dá para saber de
cada detalhe que acontece nas diversas unidades da empresa em todo o mundo.
Mas isso talvez não seja tão decisivo. É vital para
uma empresa gigantesca como a GM ter princípios consistentes de
gerenciamento, bom controle financeiro e práticas sadias de auditoria.
E o mais importante é estabelecer regras culturais de comportamento
que sinalizem para cada funcionário claramente como agir. É
simples. Funciona exatamente como o sistema mental que nos obriga a obedecer
às leis dos países nos quais estamos presentes. Essa cultura
define como nos relacionamos com as pessoas no trabalho sejam fornecedores,
distribuidores ou clientes. Parte do meu trabalho é justamente
manter essa cultura. O sistema tem de funcionar de forma que, quando os
erros são detectados, eles precisam ser corrigidos imediatamente.
Não se pode tentar escondê-los. Isso é o fim.
Veja Quando abre os olhos de manhã, em quem o senhor
pensa primeiro: nos consumidores, nos funcionários ou nos acionistas?
Wagoner
A
primeira coisa que faço quando chego ao escritório é
checar no computador como vão as vendas. Essa é uma conexão
direta com o consumidor e os números falam por si. Isso
é básico. Depois de nos certificarmos de que eles estão
comprando nossos carros, devemos nos perguntar se eles estão satisfeitos
com a compra, se estão tendo problemas com a garantia e se estamos
respondendo a suas chamadas telefônicas com prontidão. Se
não tivermos consumidores, não teremos um negócio.
São eles que fornecem a receita que paga tudo o que acontece na
empresa, incluindo nossos benefícios e a remuneração
dos acionistas. Se alguma vez nos pegarmos preocupados demais com a parte
interna da companhia ou com os acionistas de Wall Street e nem tanto com
os consumidores, provavelmente estaremos enveredando para o lado errado.
Veja Alguns economistas dizem que os acionistas poderiam
ter salvado a Enron se tivessem tido acesso às informações
sobre como a empresa estava sendo administrada. O senhor acredita nisso?
Wagoner
Sim.
Parte do problema da Enron foi justamente não fornecer informação
precisa sobre seu desempenho. Os acionistas sofreram grandes perdas. Isso
serve para reforçar a importância de servir os acionistas
não apenas com lucros e alta nas vendas, mas em prover comentários
claros, compreensíveis e consistentes sobre os resultados financeiros
e as diretrizes estratégicas da companhia. Uma grande empresa é
aquela que cria riqueza para todos, clientes, acionistas e funcionários.
Podemos ter uma grande tecnologia, grandes processos de fabricação,
mas no fim isso tudo pode acabar em trinta dias por invigilância.
Pode acabar em dez anos se o sistema for copiado por outra empresa. Num
mundo competitivo como o atual, acontece a todo momento. Portanto, para
funcionar com solidez a empresa precisa que seus funcionários tenham
compromisso de trazer novas idéias, apontar caminhos para realizar
projetos de forma mais rápida, melhor e mais barata. Cabe a nós,
executivos, captar essas idéias e mostrar aos acionistas que elas
funcionam. Assim eles fornecem o dinheiro que nos deixa investir, vender
e empregar gente.
Veja Como o senhor avalia o poder das multinacionais atualmente?
Elas realmente são a força hegemônica do mundo globalizado?
Wagoner
Eu não diria que as grandes companhias mandam no mundo, mas é
certo que todas querem ser cada vez maiores. O gigantismo é o caminho.
A pergunta antigamente era: "É melhor ser grande?". Bem, essa questão
já foi respondida. Pelo menos em nosso ramo, toda a indústria
automobilística tem como objetivo crescer cada vez mais. Basta
ver as fusões de grandes companhias que ocorreram nos últimos
cinco anos. Eu diria que a pergunta é: "Quem pode ser grande e
ágil?". A empresa que ganhar essa batalha terá enorme vantagem
sobre as outras. Ser grande ajuda de diversas maneiras. A empresa consegue
produzir mais gastando menos. Também fica mais barato captar recursos
no mercado financeiro.
Veja Mesmo sendo grande, a GM esteve em péssima situação
até bem pouco tempo atrás, não?
Wagoner
Passamos quase toda a última década nos reestruturando.
Agora começamos a colher os frutos desse trabalho. Restabelecemos
a tradicional posição da GM como inovadora e líder
da indústria automobilística. Hoje temos ótimos indicadores
em vendas, resultados financeiros e criamos uma visão positiva
da companhia. Isso tudo nos permite pensar no próximo passo. Fundamental
foi voltarmos a ser vistos como uma empresa que está sempre pronta
a satisfazer a busca do consumidor por qualidade. É assim que queremos
ser percebidos pelos consumidores.
Veja O senhor disse recentemente que o curso de MBA (pós-graduação
em administração de empresas) que fez em Harvard não
o ensinou a lidar com eventos como o de 11 de setembro. Afinal, o que
se aprende na escola?
Wagoner
Não há livros nem cursos que ensinem alguém a ser
líder. A se manter firme quando os outros estão vacilantes.
No caso dos ataques terroristas de setembro, ficou claro que teríamos
de encarar a decisão de cortar a produção, o que
afetaria diretamente toda a economia. Essa era uma opção
realista. Em seguida foi fundamental recuperar a confiança dos
consumidores. Afinal, as vendas despencaram. O que fizemos direito, a
meu ver, foi criar um programa de financiamento com 0% de juros. O sucesso
foi maior do que esperávamos, pois vários de nossos competidores
seguiram pelo mesmo caminho. De nossa parte, ficou o orgulho pelo pioneirismo
no uso da idéia e por não ter de demitir ninguém
por causa dos atentados. Isso serve para nos lembrar o papel de locomotiva
que a indústria automobilística tem na economia americana.
Isso também vale para a economia do resto do mundo. A indústria
automobilística cria empregos, produz tecnologia e ajuda a melhorar
a infra-estrutura dos países.
Veja Ainda com relação à formação
de executivos, o senhor acha que hoje em dia é concebível
chegar a executivo-chefe sem ter diploma de MBA?
Wagoner
Sem dúvida. O mais entusiasmante no capitalismo e no mundo dos
negócios é sua dependência da diversidade das pessoas.
Convenhamos que os cursos de MBA propiciam um processo de educação
adequado, mas convencional. Uma vez no mundo real, o sucesso virá
como conseqüência dos próprios méritos das pessoas.
Estudar nas melhores escolas não é garantia de sucesso na
vida empresarial. Quando uma pessoa entra no mercado de trabalho, ela
passa a ser julgada por seus méritos e resultados, e não
pelos diplomas que carrega. Obviamente o diploma de uma grande universidade
ajuda no começo. Mas ele não substitui a capacidade individual,
a capacidade de trabalhar em grupo, única maneira hoje em dia de
obter resultados eficientes.
Veja Os números recentes americanos mostram que a
economia está voltando a crescer. O pior já passou?
Wagoner
Estamos ainda passando por momentos difíceis, mas me parece claro
que o estrago não chegou nem perto do que parecia inevitável
há alguns meses. Em boa parte, acredito que isso se deva ao empenho
da indústria automobilística em trazer consumidores de volta
às compras, em restabelecer a confiança das pessoas no desempenho
da economia.
Veja Que avaliação o senhor faz do mercado
brasileiro?
Wagoner
O
mercado brasileiro é forte e crescente. O volume de venda de carros
ainda é bastante baixo em relação ao tamanho do país
e ao grau de desenvolvimento da economia. Então as projeções
de crescimento doméstico são grandes. Além disso,
tanto a GM quanto as outras montadoras desenvolveram uma indústria
no Brasil que está apta a fabricar produtos com chance de competir
no mercado internacional. Neste ano planejamos lançar três
ou quatro produtos no país, a começar pelo novo Corsa. Descobrimos
que o sucesso no Brasil em nosso ramo depende do lançamento de
modelos. Antigamente, na época em que eu trabalhava na GM brasileira,
os consumidores ficavam com o mesmo carro ou caminhão durante anos.
Hoje há uma demanda muito mais elétrica por novos modelos.
Veja O senhor acha que sua experiência no Brasil tem
similaridade com a trajetória do brasileiro Carlos Ghosn, que se
tornou uma celebridade no mundo dos negócios ao revitalizar a Nissan
no Japão?
Wagoner
Interessante. Nunca conversei muito sobre isso com Carlos Ghosn. Mas suspeito
que tenhamos aprendido algumas coisas em comum trabalhando no Brasil.
O mercado brasileiro, especialmente no primeiro período em que
trabalhei no país, no começo dos anos 80, não crescia
muito. A concorrência era briga de verdade. O governo estava sempre
mudando as regras do jogo. A inflação era alta. Esse ambiente
exigia dos executivos desempenho máximo todos os dias. Nos anos
90, quando voltei a trabalhar no Brasil, dessa vez como presidente da
GM, o país estava se abrindo ao exterior. Foi outra mudança
drástica. Tivemos de reagir e trazer modelos do exterior. Mudanças
nem sempre são ruins para as empresas. Se você está
no controle, elas podem ser bastante positivas. O grande aprendizado brasileiro,
portanto, foi tratar o negócio avaliando-o todos os dias. Isso
me ajudou muito a reagir rapidamente às mudanças bruscas,
sejam elas econômicas ou políticas.
Veja Além dos óbvios ganhos sociais e do desejo
de projetar uma imagem politicamente correta, por que as empresas americanas
são tão obcecadas em contratar e promover funcionários
de minorias raciais e mulheres?
Wagoner
O perfil do consumidor está cada vez mais diversificado, por isso
é importante ter um time administrativo também diversificado
para se identificar com o consumidor das mais diferentes maneiras.
Veja Nas filiais estrangeiras, mesmo a brasileira, esse objetivo
não é tão perseguido. Por quê?
Wagoner
Não seria apropriado implementar os padrões americanos nos
outros países e culturas, mas, certamente, estamos procurando oferecer
oportunidades de avanço às mulheres e às minorias
em todas as nossas filiais do mundo.
Veja Os carros atualmente poluem bem menos que no passado.
Chegará o dia em que não poluirão nada?
Wagoner
O
nível de emissão de poluentes dos carros diminuiu, dependendo
da substância tóxica, de 96% a 99% no decorrer dos últimos
trinta anos. Em média, os veículos consomem a metade do
combustível que consumiam há dez anos. Houve um enorme progresso,
mas a sociedade espera mais. Portanto, vamos fazer mais. A questão
é: como?. Precisamos resolver essa equação, e nosso
objetivo é muito claro. Queremos tirar o automóvel da lista
dos problemas ambientais. Esse é um objetivo ambicioso, mas estamos
investindo nisso. Dependemos da tecnologia, que felizmente é um
dos pontos fortes de nossa indústria. Pela nossa avaliação,
estaremos vendendo carros movidos a hidrogênio dentro de dez anos.
A poluição deles será igual a zero, porém
isso tem um custo. Se um cliente pode comprar hoje um veículo por
10.000 dólares, ele terá de pagar o dobro por um movido
a hidrogênio. Todavia, com o tempo as dificuldades vão diminuir.
Os governos têm interesse em automóveis que usem combustíveis
alternativos, seja para diminuir sua dependência de petróleo
importado, seja para melhorar a qualidade do ar das grandes cidades. Por
isso, contamos que a indústria terá ajuda externa para construir
carros não poluentes.
Veja Seus dois filhos mais velhos, de 18 e 16 anos, já
dirigem automóveis. O que o preocupa quando eles estão ao
volante?
Wagoner
Nada como ter os próprios filhos dirigindo para focar o assunto.
A prioridade a meu ver é treinamento. Não apenas fazer auto-escola
e obter uma carteira de motorista. A questão é efetivamente
saber dirigir. Nosso segundo filho acaba de tirar carteira, mas achamos
que ele precisa de mais treino de direção. Então
nos últimos fins de semana eu o tenho acompanhado nas auto-estradas
e no tráfego urbano para ele ganhar mais confiança. Essa
responsabilidade é dos pais, e não das autoridades de trânsito.
É importante reforçar na cabeça dos jovens que o
estéreo do carro não deve distraí-los da direção.
Um ponto que enfatizo com eles é a chamada "direção
defensiva". Ou seja, dirigir considerando seriamente a hipótese
de os outros motoristas estarem desatentos e propensos a erros. Esse ponto
é de difícil compreensão para os jovens. Nunca acredite
num sinal verde. A passagem só está livre quando se olha
para os dois lados da pista e não há carros desrespeitando
o semáforo.
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