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Sérgio Abranches

Não são os militares

"A próxima ditadura, se vier; provavelmente será civil, nascida do personalismo, do voluntarismo e do apelo carismático e populista a um povo em desespero"


Ilustração Ale Setti


O alerta do papa João Paulo II, suscitado pelos bispos argentinos, sobre o risco para a democracia decorrente do clima de revolta social que incendeia o país toca num ponto delicado da conjuntura de muitas nações latino-americanas. Há graus variados de risco democrático. No caso da Venezuela, por exemplo, o plebiscitarismo e o voluntarismo de Hugo Chávez – admirado por muitas cabeças coroadas do PT – atropelam as instituições em nome de mudanças para atender aos "verdadeiros interesses" do povo, que ele julga conhecer, expressar e ser capaz de realizar a contento. Alberto Fujimori, no Peru, dizia coisa semelhante, do outro lado do espectro ideológico, e em nome da mudança atropelou as instituições, com apoio popular, que conseguiu mobilizar durante um período.

Ao contrário dessas situações, quando se pensa no colapso democrático em países como Argentina ou Brasil não se imagina que ele venha desse aventureirismo personalista, de esquerda ou de direita. A pergunta imediata é: haverá um golpe militar? E a resposta, pelo menos para esses dois, é negativa. Os militares não têm condições de voltar ao poder. A experiência com o autoritarismo militar estigmatizou as corporações. Elas saíram desgastadas demais. Foram despolitizadas. Os alertas sobre os riscos para a democracia de uma crise como a argentina soam ilusórios. Mas não são.

É que nos esquecemos sempre de que Brasil e Argentina tiveram, antes da ditadura militar, ditaduras civis. E estas não foram estigmatizadas. Ao contrário, foram mitificadas. Ainda recentemente, em palestras no Fórum Social, em Porto Alegre, a celebração do varguismo por tantos que se dizem progressistas, por intelectuais que se julgam comprometidos com a democracia e a justiça, faz tábula rasa de que ele foi um ditador. E brutal para muitos de seus opositores, como Olga Benario. São as mesmas vozes capazes de dizer tolices como a de que não temos democracia hoje no Brasil ou a de que o governo de Ernesto Geisel fez mais pelo povo que essa nossa "pseudodemocracia". Já se esqueceram de que inventaram, nos idos dos anos 70, o termo "excludente e concentrador", para caracterizar a política econômica da ditadura que ontem os encarcerou e hoje eles elogiam. Deve ser uma variante ideológica da síndrome de Estocolmo (em que a vítima se identifica com seu algoz).

A ditadura peronista produziu, na Argentina, um mito muito mais forte, dando origem a um movimento político majoritário até hoje, a ponto de promover o impasse tremendo a que assistimos. A cristalização da correlação social de forças, decorrente da baixíssima taxa de mudança social nas últimas décadas, congelou a estrutura de poder político e deu sobrevida ao peronismo, para muito além da projeção da influência de Juan Domingo Perón e também das possibilidades reformistas do justicialismo. Muito diferente do Brasil, onde a taxa de mudança social altíssima, nas últimas três décadas do século XX, promoveu alterações radicais na correlação social de forças, reduzindo dramaticamente as chances de o petebismo, o pessedismo e o udenismo se projetarem na história de nosso passado recente e de nosso futuro próximo como forças dominantes. Mudança no bojo da qual nasceram novos movimentos políticos, inclusive aqueles que abrigam intelectuais outrora libertários, hoje apenas capazes de pronunciar diatribes autoritárias e populistas.

As experiências democráticas de Vargas e Perón foram não mais que um soluço que terminou em tragédia. A de Vargas, mais pessoal. A de Perón, mais coletiva.

Para divisar cenários possíveis de fratura democrática na Argentina não se deve olhar, portanto, para os militares, e sim para os civis. A próxima ditadura, se vier, provavelmente será civil, nascida do personalismo, do voluntarismo e do apelo carismático e populista a um povo em desespero. Pode surgir dentro do próprio peronismo ou fora dele, mas sempre como ruptura com a estrutura de poder vigente e com as instituições democráticas. Sempre em nome do povo e com apoio popular, resultante da aflição, da descrença e do descrédito das lideranças.

E desse risco nem o Brasil está livre. Temos o caldo de cultura autoritária, voluntarista e populista. Ainda não temos a crise que gera o combustível para a convulsão social, que alimenta a crença nesses falsos messias, para os quais os componentes fundamentais da democracia como conquista civilizatória, a liberdade e a contrariedade de interesses são descartáveis, não importa quanto sangue, suor e lágrimas tenham custado ao país conquistá-los.

Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)

 

Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)

 
 
   
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