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Até parece fácil
Escolas,
manuais e páginas da internet
ensinam como escrever obras de sucesso
Carlos
Graieb
Profissionais de renome normalmente
ocultam seus principais macetes. O que teria acontecido,
então, com o romancista Ken Follett? Em sua
recém-lançada página na internet, o autor de
best-sellers como Os Pilares da Terra e O
Terceiro Gêmeo divulga os segredos de sua ficção,
para quem quiser saber. Segundo o generoso escritor
galês, fazer um livro de sucesso é tão fácil quanto
redigir bula de remédio. Aliás, o processo todo pode
ser resumido em bulas. Na parte de seu site
intitulada "Aula Magna", ele aponta as várias
regras infalíveis que segue, do momento em que o papel
encontra a pena até o ponto em que seus calhamaços são
enviados à editora. Com essas regras (ao menos em tese),
Follett tornou-se um sujeito invejável. É popular em
todo o mundo. É podre de rico. Agora, como se não
bastasse, demonstra ser também bonzinho. Quando a esmola
é muita, o santo desconfia. Será que alguém pode mesmo
aprender a escrever ficção seguindo receitas desse
tipo?

A julgar por outras
páginas da internet e por diversos livros, sim. Os
americanos, por exemplo, são especialistas no assunto.
Em seu país, a "redação criativa" é uma
respeitável disciplina acadêmica, oferecida por dezenas
de universidades. Existem também editoras que se
especializaram na publicação de manuais do tipo
"faça fácil", explicando como construir o
suspense perfeito ou a mais titilante história de amor.
O Brasil ainda não produziu manuais nessa área, mas
recentemente traduziu alguns, como A Arte da Ficção,
de John Gardner (Civilização Brasileira) e O
Escritor de Fim de Semana, de Robert J. Ray (Ática).
Mais significativo foi o surgimento, em São Paulo, da
Escola de Escritores do Projeto Mosaico, uma
organização não governamental devotada à cultura.
Dirigida pelo professor Gabriel Perissé, a escola atraiu
600 alunos em dois anos e meio de existência. Já
publicou cinco antologias, acaba de inaugurar um site na
internet (www.escoladeescritores.org.br) e tem pronto o piloto de um programa de
televisão.
Explorando essa tralha toda, percebe-se
que há dois tipos de aconselhamento para o aspirante a
escritor. Existem as "tábuas de mandamentos" e
os "sermões estéticos". As tábuas de
mandamentos reúnem leis precisas sobre o que fazer e o
que não fazer. As dicas gerais de Ken Follett e as
específicas para os gêneros policial, erótico e terror
(veja quadros) pertencem a essa categoria. Por
meio delas, aprende-se que é muito importante elaborar
um plano geral da obra antes de começar a escrever, mas
também que as personagens infantis estão proibidas nos
romances e que uma boa história tem reviravoltas a cada
seis páginas. O impagável manual O Escritor de Fim
de Semana, que mostra como produzir uma obra-prima em
apenas 365 dias, com a caneta em uma mão e o cronômetro
na outra, também traz orientações bem precisas
e um tanto inesperadas. Dá conselhos, por exemplo, de
como escapar do famoso "bloqueio de escritor"
por meio de exercícios de respiração ou escrevendo em
letra de fôrma para enganar o que o autor chama de
"nosso censor interno".
Já os sermões
estéticos fazem a distinção entre literatura séria e
pseudoliteratura e garantem que a primeira não se faz
com receitas. "Boa arte não tem regras, porque todo
artista sério funde e volta a forjar as regras do
passado", afirma John Gardner. Para ele, romances
que se adaptam a fórmulas poderiam ser feitos por
chimpanzés datilógrafos. Simplesmente não merecem
respeito. Gardner chama a atenção para certos erros
comuns entre os escritores e discute aspectos técnicos
do romance e da poesia. Seus conselhos, no entanto,
poderiam resumir-se num só: "praticar, praticar,
praticar". O livro é, antes de mais nada, uma
pregação a respeito dos valores humanos da literatura,
da importância da leitura e da necessidade de entrega
completa ao ofício de escrever. Essa filosofia coincide
com a de Gabriel Perissé. Ele afirma que sua escola
pretende formar escritores profissionais, mas não
oferece leis. "Em literatura, a regra é não
obedecer a regras", diz.
De modo geral, autores de sermões
parecem mais honestos do que os de mandamentos. Tanto uns
quanto outros, porém, fazem vista grossa para uma
questão importante: a de que nem todo mundo deveria ser
encorajado a escrever. Quase sempre, os grandes
escritores só deram uma mãozinha àqueles
"pupilos" que realmente tinham algo a oferecer.
Gustave Flaubert deixou que Guy de Maupassant lhe fizesse
descrições enquanto passeavam no campo. Gertrude Stein
deu broncas em Ernest Hemingway até que ele aprendesse a
escrever as "puras sentenças descritivas" que
o tornaram famoso. E assim por diante. Dizer que talento
não conta é pura balela. Ora, quem procura um curso de
escritor certamente acredita na própria engenhosidade.
Quer se expressar ou comunicar algo de diferente ao
mundo. O.k., nunca se sabe. Mas cabem aqui duas
observações mal-humoradas. A primeira é que o
silêncio vale ouro. Anos atrás, o americano George
Steiner publicou um ensaio com o título O Poeta e o
Silêncio. Afirmava que, com tantas coisas impressas
aos borbotões, as palavras se tinham desvalorizado e
perdido o sentido. "As prensas transformam
mediocridade em esplendor", observava o ensaísta.
"Não digo que os escritores devessem parar de
escrever, mas será que não estão escrevendo
demais?" A segunda observação tem a ver com
Georges Simenon, o clássico autor belga de romances
policiais. Simenon se tornou lendário pela rapidez. Era
capaz de concluir um romance em poucas horas. Mas um dia,
quando lhe perguntaram como era escrever, ele disse:
"É uma vocação para a infelicidade. Nenhum
escritor pode ser feliz". Ninguém jamais havia
pensado que o prolífico Simenon tivesse problemas
existenciais com a literatura. E você? Está mesmo a fim
de encarar?

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