Maílson da Nóbrega
O PT mudou o Brasil?
Ou foi o contrário?
"Lula e o PT conseguiram, mediante
a desconstrução sistemática
das realizações
de outros governos, convencer a maioria de que
o Brasil teria começado
em 2003. Nunca antes"
Nunca
antes na história deste país um partido se vangloriou tanto de feitos
que não realizou. É o caso do PT. No seu último programa
no rádio e na TV, o partido reivindicou o papel de marco zero. Até
a estabilização da economia teria sido obra sua. Os petistas se
jactam de ter mudado o país. Para um de seus senadores, 2009 foi "a
segunda descoberta do Brasil".
No mundo, três
transformações radicais sobressaem: (1) a Revolução
Gloriosa (1688), que extinguiu o absolutismo inglês e levaria a Inglaterra
à Revolução Industrial; (2) a Revolução Americana
(1776), da qual surgiria a maior potência no século XIX; e (3) a
Revolução Francesa (1789), a profunda mudança que substituiria
os privilégios da nobreza, do clero e dos senhores feudais pelos direitos
inalienáveis dos cidadãos.
Nada desse porte
aconteceu no Brasil, nem agora nem antes. A independência foi declarada
por dom Pedro, representante da metrópole. A República nasceu de
um golpe de estado dado por Deodoro da Fonseca. A Revolução de 1930,
a única que talvez possa ter esse título, promoveu mudanças,
mas não daquela magnitude. Aqui não se viram rupturas nem violências.
O regime militar findou sob negociação.
O
PT pretendia mudar o Brasil, mas para pior. O título de seu programa para
as eleições de 2002 era "a ruptura necessária".
Prometia "uma ruptura com o atual modelo econômico, fundado na abertura
e na desregulação radicais da economia nacional e na consequente
subordinação de sua dinâmica aos interesses e humores do capital
financeiro globalizado". Soa ridículo hoje, não?
As
propostas continham inúmeros disparates: controles na entrada de capitais
estrangeiros, mudanças na captação de recursos externos pelos
bancos e a denúncia do acordo com o FMI, entre outros. Uma reforma tributária
taxaria as grandes fortunas. O pagamento dos juros da dívida pública
seria reduzido de forma voluntarista.
A Carta ao Povo Brasileiro
(22 de junho de 2002) foi o começo do fim dessas ideias. Nela, Lula ainda
defendia "um projeto nacional alternativo", mas falava em "respeito
aos contratos e obrigações do país". O superávit
primário seria preservado "para impedir que a dívida interna
aumente e destrua a confiança na capacidade do governo de honrar os seus
compromissos".
As visões econômicas do
PT morreram de vez com Lula na Presidência. Um banqueiro foi presidir o
Banco Central. No primeiro mês, elevaram-se a taxa de juros e a meta de
superávit primário. Tudo o que o PT tachava de neoliberal. Na política,
a coalizão de governo incluiu partidos políticos e figuras conhecidas
que o PT abominava.
A política econômica foi
mantida. Com a preservação da plataforma construída por seus
antecessores, Lula conseguiu alçar o Brasil a novas alturas. O amadurecimento
das mudanças anteriores ampliou o potencial de crescimento da economia,
que foi adicionalmente impulsionada pelos ventos favoráveis da economia
mundial entre 2003 e 2008. Tornou-se possível manter e ampliar os programas
sociais herdados.
Muito se deve à intuição
política do presidente e ao trabalho de seu primeiro ministro da Fazenda,
Antonio Palocci. Lula percebeu que a preservação de sua popularidade
dependia do controle da inflação e por isso reforçou a autonomia
do Banco Central. Ele cresceu aos olhos do mundo em razão de sua simpatia,
de seu carisma e por ser um líder de esquerda moderado, defensor da democracia
e da economia de mercado.
Lula e o PT conseguiram, mediante
a desconstrução sistemática das realizações
de outros governos, convencer a maioria de que o Brasil teria começado
em 2003. Nunca antes. É um grande tento, que requereu doses elevadas de
desfaçatez. Recentemente, na falta de energia no Sul e Sudeste, a preocupação
não foi explicar, mas mostrar que o apagão de Lula era melhor que
o de FHC.
A manutenção da política
econômica foi uma decisão corajosa. Respondeu a um novo ambiente,
caracterizado pela intolerância da sociedade à inflação,
pela imprensa livre, pela nascente valorização da democracia e pela
disciplina do mercado. Lula curvou-se às imposições dessa
nova realidade. Ainda bem. O Brasil mudou o PT, que agora é, em todos os
sentidos, um partido como os outros.
|