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• Cinema: Amor sem Escalas, com George ClooneyEntrevista: Morgan Freeman"Não sou um ícone negro"Um
dos mais admirados atores americanos, Freeman, que interpreta
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Rick
Maiman/AP![]() |
"Não sou intelectual,
mas intuitivo. Pego as coisas da página, do roteiro. E se eu não pegá-las lá não há diretor que me faça entendê-las" |
Morgan Freeman, de 72 anos, é
um dos mais admirados atores americanos das últimas décadas
e um dos primeiros negros a usufruir de prestígio e sucesso entre todas
as parcelas do público, sem distinção de cor. Assim, embora
rejeite peremptoriamente o papel de liderança política ou racial,
Freeman pouco a pouco se envolveu de maneira discreta, mas decidida, com as transformações
no continente africano. Já perdeu a conta de quantas vezes o visitou. Pela
África do Sul, em particular, nutre um interesse especial desde o início
da década de 90, quando se encerrou o regime hediondo do apartheid e o
líder negro Nelson Mandela foi libertado depois de 27 anos de encarceramento
para então, em 1994, eleger-se presidente do país no seu
primeiro pleito democrático e promover uma política de conciliação
entre brancos e negros que o tornaria um ícone não apenas africano,
mas mundial. O ator conviveu com Mandela em diversas ocasiões, e teve o
interesse correspondido: certa feita, quando indagaram ao então presidente
quem deveria interpretá-lo no cinema, ele respondeu, sem hesitação:
"Morgan Freeman". Portanto, quando decidiu rodar Invictus, que
tem estreia prevista para o dia 29 e narra como Mandela fez da seleção
sul-africana de rúgbi, até então um emblema do apartheid,
um símbolo de união nacional, o diretor Clint Eastwood também
não teve dúvidas: escalou para o papel de Mandela seu velho amigo
Morgan Freeman, que conversou com VEJA, em Los Angeles, sobre a experiência.
Como o senhor compara a África do Sul que conheceu nos anos 90 ao país
de hoje, em que filmou Invictus?
Visitei a África do Sul diversas vezes
e estava lá no aniversário de 80 anos de Nelson Mandela, em 1998.
Havia uma excitação, uma energia tão grande no ar que achei
que o país iria explodir em produtividade e em mudança. Mas essa
explosão não aconteceu. Thabo Mbeki (que sucedeu a Mandela na
Presidência) não soube aproveitar essa vantagem. Era um homem
bom e preparado, mas não era estadista o bastante. Tendo em mente não
apenas os sul-africanos, mas toda a África, já que o continente
está atrelado de várias maneiras ao que se passa no país,
torço para que Jacob Zuma, o atual presidente, saiba tirar partido
desse dinamismo que ainda existe lá.
E quanto às
relações entre negros e africâneres, como o senhor as percebeu
hoje?
Numa simples visita à África do Sul, a impressão
é que as relações raciais são tomadas muito às
claras. Os próprios sul-africanos me relatam uma outra história,
de que ainda existem diferenças e rancores intransponíveis. Creio
que o crucial é que o fator econômico tinge fortemente as relações
entre brancos e negros. Desde o fim do apartheid, as desigualdades foram postas
completamente a nu e o déficit de educação, emprego
e moradia entre os negros era, e é ainda, tão acentuado que mesmo
que tudo houvesse caminhado de maneira ideal seria impossível ter tornado
as oportunidades compatíveis em um espaço tão breve de tempo.
Quinze anos não bastam. Serão necessárias pelo menos três
gerações para que mudanças apreciáveis nas relações
raciais se enraízem.
A ideia de perdão foi central
ao governo de Nelson Mandela e, como mostra Invictus, não foi uma
ideia facilmente aceita na África do Sul pós-apartheid. O senhor
também crê que perdoar é difícil?
Bem mais difícil
que perdoar, na minha opinião, é esquecer. Você pode perdoar
uma falta cometida contra você mas é improvável que
consiga extirpá-la de sua lembrança. São, acho eu, coisas
muito diferentes. Não que seja um exercício fácil. O perdão,
como proposto por exemplo na África do Sul por Mandela, significa riscar
uma linha separando o presente e o futuro das faltas passadas e determinar que
não se voltará para trás dessa linha. Que aqueles erros não
serão repetidos.
| "Esquecer é bem mais difícil que perdoar. O que não torna o perdão um exercício fácil. O perdão, como Mandela o propôs na África do Sul, significa riscar uma linha separando o presente e o futuro das faltas passadas e determinar que não se voltará para trás dessa linha, e que aqueles erros não serão repetidos" |
Mandela lhe disse por que o considerava
o ator ideal para interpretá-lo?
Porque sou bom, ora.
Algo
mais específico?
Brincadeiras à parte, não creio que
seja melhor do que tantos outros atores negros que poderiam ter feito o papel.
Mas talvez me pareça mais com Mandela, fisicamente, do que a maioria.
Como
o senhor avalia sua atuação?
É um desafio interpretar
alguém que todos conhecem. A dúvida é: serei eu capaz? Ou
terminarei constrangendo a mim e a todos os demais envolvidos? Ainda não
assisti a Invictus, porque sei que quando o fizer vou julgar que falhei
na tarefa. Prefiro então ouvir dos outros que me saí bem.
Em
que aspectos o senhor crê ter falhado?
Quando me vejo em um filme, isto
é tudo que eu consigo ver: eu mesmo. Não o personagem.
O
que primeiro o interessou nessa carreira, então?
Subi em um palco aos
8 anos, e instantaneamente a decisão estava tomada. Minha professora do
3o ano perguntou à minha mãe se poderia me recrutar para
uma pecinha da escola. Minha mãe disse "pode levá-lo!"
finalmente alguma outra plateia que não ela para eu chatear com
as minhas demonstrações de talento.
O que é
mais difícil em interpretar personagens muito conhecidos: reproduzir seus
maneirismos ou seus aspectos psicológicos?
Tudo é difícil.
Cada pessoa tem suas nuances, seus pequenos gestos mas eles não
são simples atitudes físicas. São manifestações
de quem essa pessoa é em seu interior. Mandela, por exemplo, não
ouve as pessoas da maneira que nós ouvimos os outros. Você está
aqui me ouvindo e olhando para mim, acompanhando os movimentos dos meus lábios,
reagindo ao que eu digo. Mas, quando você conversa com Mandela, ele parece,
como eu diria, ir para outro lugar. Se você tenta prender o olhar dele,
ele não cede vai embora e se recolhe em algum ponto de si mesmo.
O escritor John Carlin (autor do livro em que Invictus se baseia, Conquistando
o Inimigo Mandela e o Jogo que Uniu a África do Sul, publicado
aqui pela Sextante) diz que ele é uma esfinge: um homem muito quieto,
muito composto, difícil de ler.
O senhor teve muitos
encontros com Mandela, não?
Sim, tive muito acesso a ele, desde mil
novecentos e noventa e qualquer coisa. Mas não é que eu tenha usado
esse acesso como laboratório, no sentido em que a palavra seria empregada
por um professor de arte dramática. Não sou o tipo de ator que precisa
se conduzir até um determinado estado psicológico que o lance dentro
do personagem. Cheguei à África do Sul cerca de uma semana antes
do início das filmagens de Invictus, assisti a alguns videoteipes
antigos de Mandela e, quando Clint Eastwood mandou rodar, abri a boca e pronto,
aí saiu a minha versão particular de Nelson Mandela. Várias
pessoas elogiaram essa minha versão, e decidi ficar com ela do jeito que
estava.
De onde o senhor pensa que Nelson Mandela tirou a disciplina
para a política do admitir e perdoar, depois de passar 27 anos encarcerado?
Acho que ele a tirou exatamente dos 27 anos que passou encarcerado. Foram quase
três décadas pensando sobre uma pergunta: por quê? Ele
é o tipo raro de homem que nessas circunstâncias, confinado a uma
cela pequena e fria, se dedica a encontrar uma razão que confira algum
sentido ao sofrimento ao menos uma razão que pudesse satisfazer
a ele.
Invictus mostra como a Copa do Mundo de rúgbi,
em 1995, foi utilizada por Mandela como um improvável foco de união
entre brancos e negros. Por que o esporte pode ser um galvanizador tão
poderoso, na sua opinião?
Porque uma arena de esportes é um
campo de batalha. Mas, quando a guerra termina, todos ainda estão de pé
talvez um pouco machucados, com algum sangue derramado, mas vivos e capazes
de saudar a batalha como justa.
Como Clint Eastwood, como diretor,
conduziu o seu trabalho em um papel tão delicado?
Dizendo "ação".
"Vá lá e faça." Nem adiantaria tentar outra coisa:
não sou uma pessoa muito intelectual. Sou, ao contrário, intuitivo.
Pego as coisas da página, do roteiro. E se eu não pegá-las
lá não há diretor no mundo que me faça entender o
que eu não percebi durante a leitura. É simples assim para mim.
O
que o senhor espera de um filme no qual aceita trabalhar?
Que a plateia não
peça seu dinheiro de volta na saída. Que ela tenha uma experiência
instrutiva, se possível, mas antes de mais nada que ela se sinta entretida
no espaço daquelas duas horas.
Significa algo quando
dizem que o senhor é um dos melhores atores, se não o melhor, de
sua geração?
Claro que significa algo. Muito pior seria ouvir
que você deve voltar para a escola quem sabe tentar outra coisa,
ser encanador, por exemplo.
A mediocridade não seria
pior que o fracasso?
A questão é que ninguém diz aos
medíocres que eles são medíocres. As pessoas, neste meio,
só se dão ao trabalho de fazer algum comentário olhando nos
seus olhos se acham que você é o que há de melhor. Volto,
assim, àquela posição de arrogância a partir da qual
comentei o fato de Mandela ter escolhido a mim para interpretá-lo: a minha
vida inteira, tive certeza de que interessava às pessoas me ver atuar.
Sei que sou bom, porque desde o início ouvi isso das pessoas.
| "Aceito ser um ator importante. Ser tido como importante em outras esferas da vida isso não. Veja a celeuma em torno das infidelidades de Tiger Woods. Ele é um jogador de golfe, não um pastor. Ser um negro de sucesso automaticamente o torna um modelo de comportamento e autoriza que o julguem? Creio que isso está errado" |
O
senhor se tornou um dos primeiros atores negros de sucesso em Hollywood. Isso
lhe dá orgulho?
Não tenho muita certeza de que queira sentir
orgulho disso. Ser uma figura de importância acarreta responsabilidades
enormes que talvez eu não deseje, ou para as quais não seja
talhado. Ser um ator importante, isso eu aceito. Ser considerado importante
em qualquer outra esfera da vida isso não. Veja essa celeuma em
torno das infidelidades conjugais de Tiger Woods. Ele é um jogador de golfe;
não é um pastor de igreja, nunca andou por aí pregando como
os outros deveriam ou não agir. Ser um negro de sucesso então o
torna automaticamente um modelo de comportamento e autoriza qualquer um a julgar
suas atitudes? Creio que está errado. Sei das falhas que tenho, e não
quero de maneira nenhuma que me tornem um ícone, seja do que for. O primeiro
papel pelo qual ganhei uma indicação ao Oscar, em 1987, foi o de
um cafetão violento, em Armação Perigosa, e a-do-rei
fazê-lo. Eu deveria então ter considerado se um personagem abjeto
como esse é um exemplo adequado para outros jovens negros, ou se ficaria
bem em minha biografia? De novo, creio que não. Não sou presidente,
não sou Mandela e certamente não sou Deus, e não quero que
apliquem tais parâmetros a mim.
Há uma parcela
de importância, entretanto, que seria difícil ao senhor refutar:
a de ter provado que é possível ter sucesso e prestígio em
uma carreira em que as honras durante muito tempo estiveram fora do alcance de
um negro.
Compreendo o apelo desse conceito, o de ser um negro importante
no mundo. Mas, de novo, prefiro que não me cubram nem com essa importância
nem com essa responsabilidade.