"Acho nosso momento
tristíssimo. Mas vejo muita
gente fazendo coisas positivas, jovens ou velhos
com esperança, pessoas espalhando o bem"
Recebo e-mail de
um jovem de 16 anos reclamando, num texto lúcido e
bem escrito, de que sou pessimista. Pois escrevi na última
coluna que "ninguém faz nada", quando, segundo
ele, eu deveria dar uma mensagem esperançosa a quem
quer "mudar o mundo". De alguma forma, isso me comoveu.
Quase todos queremos melhorar o mundo na juventude, e é
bom querer não ficar rançoso, amargo ou queixoso
na idade adulta. Pior ainda, chato na velhice. Sou esperançosa
e otimista, por isso mesmo não posso escrever apenas
sobre coisas amenas, e infelizmente não tenho mensagem
nem receita para o mundo melhorar. Pois eu sou apenas mais
uma pessoa que de um lado se alegra, de outro se aflige. O
número espantoso de leitores desta revista me dá
uma sensação de comprometimento com a não-alienação.
Escondendo a realidade é que não se vai poder
mudar ou melhorar coisa nenhuma.
Acho nosso momento
tristíssimo. Até jornais estrangeiros importantes,
que em geral não nos dão bola, registram os
fatos que andam ocorrendo no Senado e em outras instâncias
solenes como "coroamento da corrupção brasileira".
A impressão que se tem, que eu tenho, é que
ninguém anda fazendo grande coisa, ou pouca gente faz
alguma coisa para melhorar. Escrever que "ninguém
faz nada" é uma hipérbole literária,
é como dizer, sem realmente querer dizer isso, "morri
de ódio". Acho, sim, que muitos responsáveis
não fazem nada, ou fazem o mal: desviam ou aplicam
de maneira irresponsável dinheiro destinado aos pobres,
desprezam a educação e a cultura, cospem na
saúde, enganam uma montanha (não, um verdadeiro
Everest...) de gente que merecia coisa melhor.
Ilustração
Atômica Studio
Mas também vejo muita gente fazendo muita coisa positiva,
gente querendo acertar, jovens ou velhos com esperança,
pessoas espalhando o bem. Cada vez que um de nós é
leal com alguém, faz uma coisa boa; cada vez que respeitamos
o outro com suas diferenças, seus dramas e necessidades,
fazemos uma coisa boa. Cada vez que somos decentes em vez
de perversos, cada vez que cultivamos compreensão e
respeito em lugar de rancor, cada vez que somos carinhosos,
alegres, solidários, fazemos coisas muito boas.
Cada vez que um
jovem estuda, trabalha, e se constrói como pessoa produtiva
e positiva, faz algo muito bom. Cada vez que um pai presta
atenção no filho, cada vez que uma mãe
é dedicada sem depois cobrar isso, fazem uma coisa
boa. Cada vez que alguém fuma seu último cigarro,
bebe seu copo derradeiro, cheira sua ultimíssima carreirinha
e dá o primeiro passo numa nova vida, faz uma coisa
maravilhosa. Sempre que alguém recusa uma baforada
de maconha, negando-se a homenagear os traficantes que amanhã
vão matar seu filho ou trucidar seu amigo, está
fazendo uma coisa muito boa.
Quando olhamos uma
árvore na beira da estrada, a luz do sol num gramado,
a chuva na vidraça, a criança observando um
besouro, um bebê dormindo, um velho rodeado pelos filhos,
estamos fazendo uma coisa muito boa; cada professor mal pago
que atende com dedicação seus alunos, cada médico
de uma saúde pública apodrecida que cuida com
humanidade de seus doentes faz uma coisa muito boa. Sempre
que uma mulher aproxima os filhos do pai mostrando que ele
é um ser humano, está fazendo uma coisa boa;
cada filho que abraça o pai que já não
o pode sustentar faz uma coisa boa. O político que
rema contra a correnteza permanecendo honrado faz uma coisa
muito boa.
Fazem-se muitas
coisas boas neste mundo, e por isso ainda não nos matamos.
Por isso ainda estamos abertos ao belo, ao bom e ao outro.
Por isso vale a pena viver. Mas, sinto muito, o ser humano
é um animal predador: o desejo de destruir e arruinar
coexiste em todos nós com a bondade, a decência,
a dignidade. Que fazer? Somos assim. Se pudermos estar do
lado do bem, querendo melhorar o mundo, viva! As coisas não
estarão perdidas, a amargura não vai nos dominar,
a sombra acabará fugindo da claridade, e continuaremos
sendo, mais que feras, humanos. Mesmo quando alguém
escreve sobre as realidades menos bonitas, elas não
precisam prevalecer. E muita gente continuará fazendo
muita coisa boa, aos 16 anos, aos 68 ou aos 86.