Um doce para quem decifrar
Império dos Sonhos. Mas não vai ser fácil ganhá-lo:
o diretor David Lynch e a atriz Laura Dern também não sabem
se conseguiram
Isabela
Boscov
Divulgação
Laura
Dern e o coro grego de prostitutas: uma atriz e três ou serão
quatro? personagens
Laura Dern acha que interpretou
três personagens em Império dos Sonhos(Inland Empire, Estados Unidos/França/Polônia,
2006), desde sexta-feira em cartaz no país; o diretor
David Lynch diz que foram quatro; mas nenhum dos dois sabe
exatamente quem tem razão. Ou seja, ninguém
deve se sentir mal se não entender coisíssima
nenhuma do que se passa no filme o mais experimental
de todos os dez que o cineasta fez em sua carreira. O que
não é pouca coisa, em vista de trabalhos como
Veludo Azul, no qual uma orelha decepada funcionava
como uma espécie de portal para uma outra dimensão
da realidade, A Estrada Perdida, em que dois atores
diferentes faziam o mesmo protagonista, ou Cidade dos Sonhos,
em que só depois de vista na íntegra a história
podia começar a ser decodificada. A diferença
é que as chaves quase sempre de feitio psicanalítico
que de alguma forma abriam as portas desses enredos
não existem em Império dos Sonhos. Ou,
melhor dizendo, o autor escondeu-as até de si próprio.
Lynch rodou o filme no decorrer de três anos, com largas
pausas e sem ter um roteiro. Escrevia uma cena, chamava os
atores e filmava-a. Depois, ficava à espera de que
outra inspiração se manifestasse. Mesmo quando
esta parecia desconexa do que já havia feito, ele prosseguia,
certo de que, por algum caminho misterioso, as partes terminariam
por se unir. O mais espantoso é que Império,
de fato, forma um todo. Não por ter um fio que o conduza,
mas por ser o produto de um mesmo, e muito peculiar, inconsciente.
A primeira parte do filme até admite alguma descrição. Laura
Dern é Nikki, uma atriz que, embora casada com um manda-chuva de Hollywood,
está em baixa. Quando ela finalmente consegue um papel de prestígio,
ele vem cercado de mal-estar: a produção é uma refilmagem
de um roteiro polonês que não chegou a ser concluído porque
o casal de protagonistas foi assassinado e, ao se envolver com Devon (Justin
Theroux), seu parceiro de cena, Nikki pode estar rumando para esse mesmo fim.
Nesse momento, o da primeira transa entre Nikki e Devon, o filme larga de qualquer
amarra e se metamorfoseia em algo semelhante a um fluxo de consciência.
O sexo invalida algum mecanismo de controle da atriz, e sua psique se fragmenta:
ela se confunde com sua personagem e se desdobra também numa prostituta
casada com um homem abusivo. A esse enigma, somam-se elementos como uma sitcom
em que os atores usam cabeças de lebre e na qual a claque irrompe em risadas
por nenhum motivo óbvio; várias cenas passadas na Polônia
da década de 40, provavelmente provenientes do filme que não foi
concluí-do; e uma espécie de coro grego formado por prostitutas,
que a certa altura dançam uma coreografia para o sucesso dos anos 60 Loco-Motion.
Além, é claro, dos habituais ambientes forrados de cortinas vermelhas
de Lynch, que, com sua luz algo uterina, se prestam a leituras freudianas variadas,
ao gosto do espectador.
Império
dos Sonhos, contudo, é um filme hipnótico, que mesmeriza não
apesar da desorientação que provoca, e sim por causa
dela. Lynch é um ótimo cineasta também quando opta por tramas
com início, meio e fim, a exemplo de O Homem Elefante e A História
Real. Mas o que o torna grande é essa outra faceta de seu trabalho,
em que ele dispensa noções estabelecidas de sentido e narrativa
e propõe que eles sejam buscados não por meios racionais, mas por
intermédio de sensações e impressões. Laura Dern é
o único princípio comum pelo qual se pode acompanhar essa charada
e, numa atuação soberba, ela dá conta da tarefa induzindo
a platéia a sentir o que sente, ainda que ela (seja "ela" a atriz
ou a platéia) não saiba por quê. Portanto, é melhor
confiar na opinião de Laura: salvo gafe analítica, suas personagens
ao que parece são mesmo três, e não quatro.