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19 de dezembro de 2007
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Cinema
Sei lá, mil coisas

Um doce para quem decifrar Império dos Sonhos.
Mas não vai ser fácil ganhá-lo: o diretor David Lynch
e a atriz Laura Dern também não sabem se conseguiram


Isabela Boscov

Divulgação
Laura Dern e o coro grego de prostitutas: uma atriz e três – ou serão quatro? – personagens

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Trailer do filme

Laura Dern acha que interpretou três personagens em Império dos Sonhos (Inland Empire, Estados Unidos/França/Polônia, 2006), desde sexta-feira em cartaz no país; o diretor David Lynch diz que foram quatro; mas nenhum dos dois sabe exatamente quem tem razão. Ou seja, ninguém deve se sentir mal se não entender coisíssima nenhuma do que se passa no filme – o mais experimental de todos os dez que o cineasta fez em sua carreira. O que não é pouca coisa, em vista de trabalhos como Veludo Azul, no qual uma orelha decepada funcionava como uma espécie de portal para uma outra dimensão da realidade, A Estrada Perdida, em que dois atores diferentes faziam o mesmo protagonista, ou Cidade dos Sonhos, em que só depois de vista na íntegra a história podia começar a ser decodificada. A diferença é que as chaves – quase sempre de feitio psicanalítico – que de alguma forma abriam as portas desses enredos não existem em Império dos Sonhos. Ou, melhor dizendo, o autor escondeu-as até de si próprio. Lynch rodou o filme no decorrer de três anos, com largas pausas e sem ter um roteiro. Escrevia uma cena, chamava os atores e filmava-a. Depois, ficava à espera de que outra inspiração se manifestasse. Mesmo quando esta parecia desconexa do que já havia feito, ele prosseguia, certo de que, por algum caminho misterioso, as partes terminariam por se unir. O mais espantoso é que Império, de fato, forma um todo. Não por ter um fio que o conduza, mas por ser o produto de um mesmo, e muito peculiar, inconsciente.

A primeira parte do filme até admite alguma descrição. Laura Dern é Nikki, uma atriz que, embora casada com um manda-chuva de Hollywood, está em baixa. Quando ela finalmente consegue um papel de prestígio, ele vem cercado de mal-estar: a produção é uma refilmagem de um roteiro polonês que não chegou a ser concluído porque o casal de protagonistas foi assassinado – e, ao se envolver com Devon (Justin Theroux), seu parceiro de cena, Nikki pode estar rumando para esse mesmo fim. Nesse momento, o da primeira transa entre Nikki e Devon, o filme larga de qualquer amarra e se metamorfoseia em algo semelhante a um fluxo de consciência. O sexo invalida algum mecanismo de controle da atriz, e sua psique se fragmenta: ela se confunde com sua personagem e se desdobra também numa prostituta casada com um homem abusivo. A esse enigma, somam-se elementos como uma sitcom em que os atores usam cabeças de lebre e na qual a claque irrompe em risadas por nenhum motivo óbvio; várias cenas passadas na Polônia da década de 40, provavelmente provenientes do filme que não foi concluí-do; e uma espécie de coro grego formado por prostitutas, que a certa altura dançam uma coreografia para o sucesso dos anos 60 Loco-Motion. Além, é claro, dos habituais ambientes forrados de cortinas vermelhas de Lynch, que, com sua luz algo uterina, se prestam a leituras freudianas variadas, ao gosto do espectador.

Império dos Sonhos, contudo, é um filme hipnótico, que mesmeriza não apesar da desorientação que provoca, e sim por causa dela. Lynch é um ótimo cineasta também quando opta por tramas com início, meio e fim, a exemplo de O Homem Elefante e A História Real. Mas o que o torna grande é essa outra faceta de seu trabalho, em que ele dispensa noções estabelecidas de sentido e narrativa e propõe que eles sejam buscados não por meios racionais, mas por intermédio de sensações e impressões. Laura Dern é o único princípio comum pelo qual se pode acompanhar essa charada – e, numa atuação soberba, ela dá conta da tarefa induzindo a platéia a sentir o que sente, ainda que ela (seja "ela" a atriz ou a platéia) não saiba por quê. Portanto, é melhor confiar na opinião de Laura: salvo gafe analítica, suas personagens ao que parece são mesmo três, e não quatro.




 

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