A interpretação
do Brasil foi um gênero literário fértil.
Sociólogos, historiadores, antropólogos ou simples
diletantes já se arriscaram a definir uma espécie
de caráter do país, em livros de corte ensaístico
que em geral retrocedem até os tempos da colônia
em busca dos elementos formadores da sociedade brasileira
(veja quadro). Algumas dessas
obras já estão superadas, mas outras ainda fornecem
a moldura do pensamento social brasileiro e são,
portanto, constantemente glosadas, analisadas, revisadas,
resgatadas, desconstruídas. Nessa linha da análise
dos analistas do Brasil, surgiram recentemente dois livros
cujo enfoque não é tão comum: parte-se
da biografia de grandes "intérpretes do Brasil"
para tentar entender o contexto de suas obras. Gilberto
Freyre Uma Biografia Cultural (Record; 658
páginas; 80 reais), de Enrique Rodríguez Larreta,
antropólogo da Universidade Candido Mendes, e Guillermo
Giucci, professor de letras da Universidade Estadual do Rio
de Janeiro, revisa a vida do sociólogo pernambucano
até 1936, quando ele lança Sobrados e Mucambos.
Caio Prado Jr. Uma Trajetória Intelectual
(Brasiliense; 250 páginas; 54 reais), do historiador
Paulo Teixeira Iumatti, examina a evolução do
pioneiro da historiografia marxista no Brasil.
À
primeira vista, não há autores mais opostos do que o pernambucano
Freyre (1900-1987), um conservador que mostrou simpatia pela ditadura de 1964,
e o paulista Caio Prado Jr. (1907-1990), um comunista militante. Freyre, porém,
reconheceu a pertinência das interpretações materialistas
de Prado Jr. Ambos os autores, aliás, vêm de famílias tradicionais
da classe alta. Caio Prado o mais rico dos dois era discreto sobre
suas origens. Freyre, ao contrário, fazia alarde de sua ascendência.
Sua auto-imagem idealizada, dizem seus biógrafos, é a de um "aristocrata
popular". Gilberto Freyre Uma Biografia Cultural recorre a
uma vasta documentação, boa parte dela inédita, para reconstituir
a formação do pensamento de Freyre. O centro do livro é a
composição de Casa-Grande & Senzala. Hoje um clássico
estabelecido, o livro foi, sem exagero, uma revolução no seu tempo.
Derrubou o racismo científico ainda vigente então e valorizou a
mestiçagem. Em uma temporada nos Estados Unidos, quando deu aula na Universidade
Stanford, Freyre escreveu ao pai uma carta em que prenunciava o "programa"
de Casa-Grande & Senzala, exaltando a miscigenação brasileira
como "uma aventura nacional tão interessante quanto a russa ou a americana".
Escrito em um estilo opulento e sensualista, Casa-Grande & Senzala já
foi criticado, com alguma razão, por mitologizar o passado colonial e amainar
a violência da escravidão. Mas não há dúvida
de que o livro compôs a descrição mais vigorosa dos elementos
constitutivos da civilização brasileira.
CAIO
PRADO JR. Filho de duas ricas famílias
paulistas, sua adesão ao marxismo foi uma "traição de
classe"
As realizações de Freyre, tido como brilhante desde a adolescência,
sempre foram celebradas pelo círculo de amigos e familiares do Recife
que chegou a promover um baile a fantasia, com mucamas, sinhás e meninos
do engenho, para comemorar o lançamento de Casa-Grande & Senzala.
Caio Prado Jr., ao contrário, tornou-se uma ovelha negra em seu meio
social, na década de 30. Houve quem jogasse pedras no carro em que circulavam
sua mulher e seus filhos. Sua inusitada adesão ao Partido Comunista, em
1931, converteu o rebento de dois dos clãs mais ricos e tradicionais de
São Paulo, os Prado e os Penteado, em "traidor de classe". Quatro
anos mais tarde, estava na cadeia por sua militância. Prado Jr. foi o primeiro
brasileiro a estudar o Brasil de maneira consistente pelas lentes do materialismo
histórico, o "método" proposto por Karl Marx. Seus esforços
culminaram em 1942, com o lançamento do livro Formação
do Brasil Contemporâneo, segundo o qual a colonização
do país foi antes de mais nada um empreendimento comercial o que
teria determinado e continuaria a determinar muitas das mazelas do Brasil.
Avesso
a confissões, Caio Prado Jr. jamais esclareceu os motivos que o levaram
ao comunismo. O que confere um certo mistério à biografia dessa
que foi uma das mais influentes figuras da cultura brasileira no século
XX. Afora esse enigma, contudo, Paulo Teixeira Iumatti lança luz de maneira
notável sobre a vida e a obra de Caio Prado Jr. em seu livro. Para isso,
valeu-se de documentos inéditos. Quando morreu, em 1990, depois de conviver
por vários anos com uma doença degenerativa, Caio Prado Jr. deixou
um acervo com quase 50 000 itens, entre livros, cartas, diários,
fotografias, fichários e recortes de jornal. Adquirido pelo Instituto de
Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo em 2001, esse acervo mal
começou a ser desbravado mas Iumatti, no momento, certamente é
o que melhor o conhece.
A obra de Caio
Prado Jr. (a par do estilo pesadão) padece da superação de
sua base teórica, o marxismo. Freyre segue relevante pelo que tem a dizer
sobre a questão racial. Os ideólogos do vitimismo que desejam estabelecer
cotas raciais (aliás, racistas) em universidades e repartições
públicas detestam Freyre exatamente porque sua obra torna irrelevantes
as divisões raciais na trilha, aliás, de Joaquim Nabuco (leia
matéria na próxima página), que Freyre reconhecia como
um antecessor. Prado Jr. admitia o preconceito racial como parte do sistema escravista,
mas apenas como uma espécie de agravante da discriminação
social como bom marxista, estava preocupado com a luta de classes, não
de "cores". As políticas de cotas são um retrocesso inequívoco
sob qualquer ponto de vista. Talvez isso explique o charme duradouro de tantas
interpretações do Brasil escritas há mais de meio século:
o Brasil está sempre retornando aos mesmos velhos problemas. Às
vezes, falsos problemas.
O país dos
intérpretes
Outros autores que tentaram
definir o Brasil em ensaios de fôlego
Antonio
Milena
Sérgio
Buarque de Holanda (1902-1982) Clássico da sociologia brasileira,
Raízes do Brasil (1936) propôs, entre outras idéias
inovadoras, o conceito de "homem cordial". Não, Sérgio
Buarque não faz o elogio do "brasileiro bonzinho". A cordialidade,
ao contrário, traduz-se na tendência do brasileiro de elevar as motivações
afetivas e os interesses familiares acima dos princípios abstratos que
devem reger a sociedade moderna e o estado democrático
Florestan
Fernandes (1920-1995) Escrito sob o impacto do golpe militar de 1964, A
Revolução Burguesa no Brasil (1973) se vale da teoria marxista
para tentar entender a formação de uma sociedade capitalista periférica
como o Brasil
Antonio Milena
Arquivo/AE
Oliveira
Vianna (1883-1951) Populações Meridionais do Brasil (1920)
prega uma adequação dos "elementos bárbaros" do
povo brasileiro ao "caráter da raça branca" uma
posição racista que seria criticada por Gilberto Freyre
Raymundo
Faoro (1925-2003) Em Os Donos do Poder (1958), o jurista identifica
uma constante na formação histórica do Brasil: o sufocamento
da sociedade sob a opressão do estado e do "estamento burocrático"