Catálogo revela
pinturas desconhecidas, cassa as credenciais de telas famosas e põe
ordem no acervo do grande cronista da vida carioca no século XIX
Marcelo
Bortoloti
Fotos
divulgação
Cenas
do Rio: tela a óleo desconhecida (acima) e duas aquarelas, a que
está abaixo agora apontada como falsa
O pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) foi o artista que melhor
e mais fartamente documentou o ambiente urbano e a vida cotidiana do Rio de Janeiro
antes da invenção da fotografia. Alguns especialistas chegam a considerar
que esse lado documental é o aspecto mais importante de sua obra. Mas seu
valor artístico é inegável, razão pela qual uma de
suas aquarelas pode custar até 100 000 reais. Um óleo pode chegar
a 700 000 reais. Por isso, é de esperar certo alvoroço nesta semana
com o lançamento do catálogo raisonné do autor (Editora
Capivara; 708 páginas; 195 reais). O livro, de Julio Bandeira e Pedro Corrêa
do Lago, é resultado de dez anos de pesquisa. Uma comissão formada
pelos autores e por quatro outros especialistas na obra de Debret sistematizou
e classificou todo o trabalho conhecido do artista, que soma pouco mais de 1 000
obras. Do levantamento, fazem parte 200 esboços e aquarelas nunca publicados
e cinco quadros a óleo cujos donos não sabiam tratar-se de obras
de Debret e que agora terão seu preço valorizado em alguns milhares
de reais. Descobriu-se também que 87 obras atribuídas a ele são
falsas ou de autoria duvidosa. Quarenta delas pertencem ao Museu Castro Maya,
no Rio, que tem a maior coleção de obras do artista. Mas existem
quadros erroneamente atribuídos ao pintor no Instituto Moreira Salles,
no Museu Histórico Nacional, no Museu Imperial de Petrópolis e no
Masp.
Debret chegou ao Brasil em 1816,
integrando a Missão Artística Francesa, e morou no país por
quinze anos. Nesse período, pintou quadros sob encomenda para a corte e,
por conta própria, retratou cenas do cotidiano brasileiro, na época
praticamente desconhecido dos europeus. Essas imagens deram origem ao livro de
gravuras Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, publicado em três
volumes entre 1834 e 1839. Para cada gravura que aparece ali, Debret fez esboços
e aquarelas preliminares que eram verdadeiras obras de arte. Hoje elas são
consideradas seu principal trabalho. Em 1831, quando retornou à Europa,
o pintor levou-as consigo. Um século depois, boa parte delas voltou ao
Brasil por meio de colecionadores. O mais importante foi Raymundo de Castro Maya,
empresário bem-sucedido e mecenas que tinha grande influência sobre
a intelectualidade brasileira. Entre 1939 e 1940, ele comprou 551 aquarelas e
desenhos, numa aquisição que aumentou o interesse nacional pelo
pintor.
Suas obras foram exaustivamente
publicadas em catálogos, páginas de jornais e livros didáticos.
O que se descobriu agora confirma suspeitas de que alguns dos quadros que se atribuíam
a ele são falsificações. O negociador que intermediou o contato
entre Castro Maya e a família de Debret, um franco-brasileiro chamado Roberto
Heymann, decidiu engrossar a coleção. Sua equipe fabricava aquarelas
com a assinatura do pintor a partir de gravuras do livro. O resultado é
que quase 10% do acervo de Castro Maya são falsificações,
o que desvaloriza sua coleção em aproximadamente 4 milhões
de reais. Depois disso, Heymann empurrou outros "originais" para famílias
abastadas no Brasil. O catálogo traz todas elas, além de obras sem
assinatura que foram atribuídas a Debret, mas eram do seu contemporâneo
Charles Landseer. Entre elas estão doze aquarelas, hoje pertencentes ao
Instituto Moreira Salles, que foram adquiridas em 1999, como o filé mignon
de um lote de quadros que custou o equivalente hoje a quase 3 milhões de
reais.
A popularidade de Debret supera
a de outros artistas da mesma época, como Rugendas e Taunay. Os brasileiros
estão habituados com os desenhos do pintor em livros de história,
embora poucos saibam associá-los ao seu nome. No mercado de artes, entretanto,
sua obra é rara. A maior parte está concentrada em três grandes
coleções, e quase nunca aparecem novos quadros em leilão.
O catálogo raisonné vai permitir, pela primeira vez, um passeio
completo por seu trabalho.