Com celular e internet,
ficou mais fácil trair
e muito mais fácil ainda descobrir a traição
Sandra Brasil
Joédson Alves
Taiana (à dir.), com
suas irmãs-espiãs: identidade falsa para vigiar namorados
próprios e das amigas
Trair
nunca foi atividade tranqüila. Por mais que se tome cuidado,
sempre existiu o risco de alguém ver, um recado se
desviar, um telefonema ser entreouvido ou, mais antigamente,
uma carta suspeita ser aberta no vapor da chaleira. Mas agora,
com internet e celular ao alcance de todos os casais, trair
e não ser descoberto é coisa que praticamente
só acontece em novela. Ou nem isso. Os números
da brigada passível de fiscalização eletrônica
são impressionantes: segundo as últimas estatísticas,
115 milhões de brasileiros têm celular, 39 milhões
acessam a internet regularmente, 25 milhões estão
cadastrados no site de relacionamento Orkut (metade do total
mundial) e 32 milhões fazem uso do sistema de comunicação
instantânea MSN. São, todos esses, recursos que
deixam pistas, como mensagens de texto, recados de voz e registros
de telefonemas, fáceis de ser detectados principalmente
por quem está apaixonado, morre de ciúme e tem
tempo de procurar em suma, quem tem menos de 30 anos.
Junte-se a isso a inexorável tendência do ser
humano de investigar a vida alheia, sobretudo a de seu próprio
par, e está armado o flagrante. "Até o
início da vida adulta, as pessoas apaixonadas são
mais inseguras, ainda não assumiram responsabilidades
e têm muito tempo livre para ficar bisbilhotando",
diz a psicóloga Ceres Alves de Araujo.
Quem procurar muito
provavelmente vai achar. Os paulistas Carolina Duarte, 21
anos, e Rafael Sabbag, 20, conheceram-se trocando mensagens
pelo MSN e namoram, ao vivo, há dois anos. Quer dizer,
um ano e oito meses. Nos outros quatro, ficaram rompidos justamente
por causa de recados comprometedores deixados por uma conhecida
do casal no Orkut dele. "Foi duro ler lá: Amorzinho,
como você está? Vou passar na sua casa para uma
visita ", relata Carolina. Voltaram às
boas, mas a fiscalização eletrônica é
diuturna. "A gente briga uma vez por semana", contabiliza
ele. Carolina, que está no oitavo semestre do curso
de farmácia, faz marcação cerrada quando
Sabbag, jogador de basquete, é assediado por alguma
fã; ele, por seu lado, não deixa passar em branco
nenhum recado masculino no Orkut da namorada. "Mando
uma mensagem dizendo que a amo e ligo imediatamente para pedir
explicações", diz.
Lailson Santos
Os fisioterapeutas Oliveira
e Yoshimura, que
apagam seus recados e não vigiam namoradas:
quem procura acha
Fiscalizar, no caso
de Carolina e Sabbag, faz parte da relação,
um tipo de comportamento cada vez mais comum. Na crise mais
aguda por que passou seu casamento, em 2004, Victoria Beckham,
lendo mensagens não apagadas no celular do marido,
David, descobriu que ele estava tendo um caso com a assistente
do casal em Madri, Rebecca Loos (o caso, a descoberta, as
mensagens, tudo foi parar nos tablóides). Mais recentemente,
amigos revelaram que o motivo do rompimento do namoro de três
anos da milionária zimbabuense Chelsy Davy com o príncipe
Harry da Inglaterra foram mensagens de texto suspeitas (que,
aliás, não seriam as primeiras) flagradas no
celular dele. "A tentação de bisbilhotar
tudo é irresistível, mesmo sabendo que a gente
pode achar algo de que não vai gostar", resume
a estudante de psicologia Mariel Pedroso, 20, que terminou
dois namoros seguidos em conseqüência de descobertas
na web. Por se tratar de um campo aberto a todo tipo de interferência,
golpes baixos acontecem. Por exemplo: a ex, por pura maldade,
deixa recados comprometedores só para a nova namorada
dele ver e brigar. As mulheres, aliás, costumam ser
mais atuantes que os homens na vigilância eletrônica.
"O cérebro feminino é mais curioso do que
o masculino", justifica a psicóloga Ceres. A veterinária
mineira Kenia Calábria, 32, foi vítima
muito agradecida, diga-se da tal curiosidade quando
estava de casamento marcado, convites prontos, bufê
pago e casa comprada. "Ele dizia que não tinha
página no Orkut e que não queria que eu tivesse.
Como sou muito ocupada, aceitei numa boa. Mas um dia percebi
que ele sabia tudo sobre esse site", conta. Kenia criou
um perfil falso e assim viu que o noivo não só
tinha sua própria página como a acessava diariamente
para se relacionar com outras mulheres. Durante uma semana,
acompanhou, arquivou e imprimiu a troca de mensagens comprometedoras.
De posse das provas, acabou o noivado e entrou na Justiça
para recuperar sua parte na casa, onde o ex-noivo mora.
Claro que homens
também bisbilhotam, ainda mais quando desconfiam. O
fisioterapeuta Márcio Oliveira, 24 anos, diz que só
passou por sua cabeça vasculhar as mensagens recebidas
pela namorada quando a própria cismou de querer ler
os recados gravados no celular dele. Sem pedir licença,
leu os dela. Dito e feito: deparou com um "torpedo"
em que o ex da moça dizia ter "adorado" o
encontro dos dois. O namoro acabou e Oliveira já está
em outra, mas mudou de comportamento eletrônico. "Agora
apago todas as mensagens que mando ou recebo. Também
saí do Orkut. E não fico mais bisbilhotando.
Toda vez que procurei, achei algo de que não gostei",
diz. Atitude semelhante tomou seu amigo e colega Ricardo Yoshimura,
23, vacinado depois que a moça com quem estava saindo
disse que ia viajar num fim de semana e, pelo Orkut, ele ficou
sabendo que na verdade ela foi para a farra com as amigas.
Tanto Oliveira quanto Yoshimura rezam pela cartilha (veja
o quadro abaixo) ditada pela experiência para minimizar
os prejuízos do dedo-duro eletrônico na vida
amorosa de cada um. Porque eliminar a praga de vez, pelo visto,
é impossível.
Lailson Santos
Sabbag e Carolina, praticantes
da
marcação cerrada e explícita no
Orkut e no celular: "A gente briga
toda semana"
Como escapar do flagrante quando, por exemplo, se forma uma
espécie de sociedade secreta dedicada a supervisionar
escapulidas pela internet? Em Brasília, a estudante
de publicidade Taiana Borges, 23, criou com as irmãs
Taíla e Júlia e com a meia-irmã Iara
Campos, 20, uma página com identidade falsa no Orkut
para vigiar namorados, do quarteto e das amigas. Relatório
de Taiana em ação: "No mês passado,
entrei na página do namorado de uma amiga e vi a mensagem
de uma desconhecida. Fui até a página dela e
lá encontrei fotos dele com outra moça".
A operação fracassou: "Contei para minha
amiga, que em vez de olhar as fotos foi logo tomar satisfações
com o namorado. Ele deu um jeito de pedir para a tal amiga
retirar as fotos. Passei por mentirosa e fofoqueira".
A revanche não tardou: "Esperei duas semanas,
entrei de novo naquela página e as fotos estavam lá.
Fiz uma cópia da prova da traição".
Ainda não mostrou para a amiga, mas vai. "A gente
tem de se ajudar, porque eles são muito danados",
justifica a Sherlock Holmes da rede.