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19 de dezembro de 2007
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Comportamento
Fiscalização eletrônica

Com celular e internet, ficou mais fácil trair
e muito mais fácil ainda descobrir a traição


Sandra Brasil

Joédson Alves
Taiana (à dir.), com suas irmãs-espiãs: identidade falsa para vigiar namorados próprios e das amigas

Trair nunca foi atividade tranqüila. Por mais que se tome cuidado, sempre existiu o risco de alguém ver, um recado se desviar, um telefonema ser entreouvido ou, mais antigamente, uma carta suspeita ser aberta no vapor da chaleira. Mas agora, com internet e celular ao alcance de todos os casais, trair e não ser descoberto é coisa que praticamente só acontece em novela. Ou nem isso. Os números da brigada passível de fiscalização eletrônica são impressionantes: segundo as últimas estatísticas, 115 milhões de brasileiros têm celular, 39 milhões acessam a internet regularmente, 25 milhões estão cadastrados no site de relacionamento Orkut (metade do total mundial) e 32 milhões fazem uso do sistema de comunicação instantânea MSN. São, todos esses, recursos que deixam pistas, como mensagens de texto, recados de voz e registros de telefonemas, fáceis de ser detectados principalmente por quem está apaixonado, morre de ciúme e tem tempo de procurar – em suma, quem tem menos de 30 anos. Junte-se a isso a inexorável tendência do ser humano de investigar a vida alheia, sobretudo a de seu próprio par, e está armado o flagrante. "Até o início da vida adulta, as pessoas apaixonadas são mais inseguras, ainda não assumiram responsabilidades e têm muito tempo livre para ficar bisbilhotando", diz a psicóloga Ceres Alves de Araujo.

Quem procurar muito provavelmente vai achar. Os paulistas Carolina Duarte, 21 anos, e Rafael Sabbag, 20, conheceram-se trocando mensagens pelo MSN e namoram, ao vivo, há dois anos. Quer dizer, um ano e oito meses. Nos outros quatro, ficaram rompidos justamente por causa de recados comprometedores deixados por uma conhecida do casal no Orkut dele. "Foi duro ler lá: ‘Amorzinho, como você está? Vou passar na sua casa para uma visita’ ", relata Carolina. Voltaram às boas, mas a fiscalização eletrônica é diuturna. "A gente briga uma vez por semana", contabiliza ele. Carolina, que está no oitavo semestre do curso de farmácia, faz marcação cerrada quando Sabbag, jogador de basquete, é assediado por alguma fã; ele, por seu lado, não deixa passar em branco nenhum recado masculino no Orkut da namorada. "Mando uma mensagem dizendo que a amo e ligo imediatamente para pedir explicações", diz.

Lailson Santos
Os fisioterapeutas Oliveira e Yoshimura, que
apagam seus recados e não vigiam namoradas:
quem procura acha

Fiscalizar, no caso de Carolina e Sabbag, faz parte da relação, um tipo de comportamento cada vez mais comum. Na crise mais aguda por que passou seu casamento, em 2004, Victoria Beckham, lendo mensagens não apagadas no celular do marido, David, descobriu que ele estava tendo um caso com a assistente do casal em Madri, Rebecca Loos (o caso, a descoberta, as mensagens, tudo foi parar nos tablóides). Mais recentemente, amigos revelaram que o motivo do rompimento do namoro de três anos da milionária zimbabuense Chelsy Davy com o príncipe Harry da Inglaterra foram mensagens de texto suspeitas (que, aliás, não seriam as primeiras) flagradas no celular dele. "A tentação de bisbilhotar tudo é irresistível, mesmo sabendo que a gente pode achar algo de que não vai gostar", resume a estudante de psicologia Mariel Pedroso, 20, que terminou dois namoros seguidos em conseqüência de descobertas na web. Por se tratar de um campo aberto a todo tipo de interferência, golpes baixos acontecem. Por exemplo: a ex, por pura maldade, deixa recados comprometedores só para a nova namorada dele ver e brigar. As mulheres, aliás, costumam ser mais atuantes que os homens na vigilância eletrônica. "O cérebro feminino é mais curioso do que o masculino", justifica a psicóloga Ceres. A veterinária mineira Kenia Calábria, 32, foi vítima – muito agradecida, diga-se – da tal curiosidade quando estava de casamento marcado, convites prontos, bufê pago e casa comprada. "Ele dizia que não tinha página no Orkut e que não queria que eu tivesse. Como sou muito ocupada, aceitei numa boa. Mas um dia percebi que ele sabia tudo sobre esse site", conta. Kenia criou um perfil falso e assim viu que o noivo não só tinha sua própria página como a acessava diariamente para se relacionar com outras mulheres. Durante uma semana, acompanhou, arquivou e imprimiu a troca de mensagens comprometedoras. De posse das provas, acabou o noivado e entrou na Justiça para recuperar sua parte na casa, onde o ex-noivo mora.

Claro que homens também bisbilhotam, ainda mais quando desconfiam. O fisioterapeuta Márcio Oliveira, 24 anos, diz que só passou por sua cabeça vasculhar as mensagens recebidas pela namorada quando a própria cismou de querer ler os recados gravados no celular dele. Sem pedir licença, leu os dela. Dito e feito: deparou com um "torpedo" em que o ex da moça dizia ter "adorado" o encontro dos dois. O namoro acabou e Oliveira já está em outra, mas mudou de comportamento eletrônico. "Agora apago todas as mensagens que mando ou recebo. Também saí do Orkut. E não fico mais bisbilhotando. Toda vez que procurei, achei algo de que não gostei", diz. Atitude semelhante tomou seu amigo e colega Ricardo Yoshimura, 23, vacinado depois que a moça com quem estava saindo disse que ia viajar num fim de semana e, pelo Orkut, ele ficou sabendo que na verdade ela foi para a farra com as amigas. Tanto Oliveira quanto Yoshimura rezam pela cartilha (veja o quadro abaixo) ditada pela experiência para minimizar os prejuízos do dedo-duro eletrônico na vida amorosa de cada um. Porque eliminar a praga de vez, pelo visto, é impossível.

Lailson Santos
Sabbag e Carolina, praticantes da
marcação cerrada e explícita no
Orkut e no celular: "A gente briga
toda semana"


Como escapar do flagrante quando, por exemplo, se forma uma espécie de sociedade secreta dedicada a supervisionar escapulidas pela internet? Em Brasília, a estudante de publicidade Taiana Borges, 23, criou com as irmãs Taíla e Júlia e com a meia-irmã Iara Campos, 20, uma página com identidade falsa no Orkut para vigiar namorados, do quarteto e das amigas. Relatório de Taiana em ação: "No mês passado, entrei na página do namorado de uma amiga e vi a mensagem de uma desconhecida. Fui até a página dela e lá encontrei fotos dele com outra moça". A operação fracassou: "Contei para minha amiga, que em vez de olhar as fotos foi logo tomar satisfações com o namorado. Ele deu um jeito de pedir para a tal amiga retirar as fotos. Passei por mentirosa e fofoqueira". A revanche não tardou: "Esperei duas semanas, entrei de novo naquela página e as fotos estavam lá. Fiz uma cópia da prova da traição". Ainda não mostrou para a amiga, mas vai. "A gente tem de se ajudar, porque eles são muito danados", justifica a Sherlock Holmes da rede.

 

 



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