Nenhum fator numa
escola é tão essencial ao bom ensino quanto
um professor preparado para o desempenho de sua função
e isso já foi vastamente medido por pesquisas
em sala de aula. Esses estudos se referem a duas qualidades
fundamentais de um professor. A primeira delas diz respeito
ao nível de conhecimento da matéria, um velho
problema brasileiro. A outra é a sua capacidade de
despertar interesse nos estudantes, estabelecer com eles uma
relação de confiança e, enfim, fazer-se
respeitado. Nesse caso, os professores brasileiros também
patinam, antes de tudo por um motivo básico: muitos
deles cultivam o estranho hábito de não aparecer
para dar aula. Embora esse seja um dos maiores males da escola
pública no Brasil, o absenteísmo dos professores
é um fenômeno pobre de estatísticas. Os
primeiros números consolidados sobre o assunto são
do governo estadual de São Paulo. Como se trata, de
longe, da maior rede de escolas públicas do país,
os dados ajudam a dar uma idéia da realidade nacional.
Em 2007, os professores faltaram ao trabalho, em média,
32 dias 15% do ano letivo. São vários
os casos de alunos que mal recordam a fisionomia de seus supostos
mestres. Alguns professores praticamente não pisaram
na escola. É o que revela um ranking com os campeões
em ausências do estado, o primeiro do gênero feito
com dados oficiais.
A lista, com dez
nomes, baseou-se nas faltas médicas, motivo número
1 para o absenteísmo no Brasil. De acordo com o levantamento,
esses professores apresentaram, em média, 54 atestados
médicos neste ano, além de outras justificativas
para mais dezenas de faltas.
Sua história
chama atenção para um fato perturbador: ao faltar
tanto, nenhum deles sofreu algum dano na carreira, perdeu
o sono preocupado com uma eventual demissão, tampouco
teve prejuízos financeiros. Isso porque todos agiram
rigorosamente dentro da lei. No caso das faltas médicas,
os servidores públicos estaduais, incluindo os professores,
podem apresentar um novo atestado dia sim, dia não.
Com isso, eles têm direito a 105 ausências devidamente
perdoadas. Se fizerem uso das demais faltas garantidas pelo
Estado, também a salvo de descontos no salário,
os professores só precisam comparecer 27 vezes à
escola. Isso num ano letivo de 210 dias. Diz a especialista
Denise Vaillant, doutora em educação: "A
lei brasileira é condescendente com os professores,
e eles evidentemente abusam dela". O caso de quatro professores
campeões em faltas do estado ilustra bem isso. Veja
a seguir.
"Cansei de ser professor"
Gabas é professor e advogado:
assíduo no escritório, para lá de
ausente na escola
Pergunte a qualquer funcionário
do edifício Catanduva Center Comercial a opinião
sobre o advogado José Roberto Gabas, 54 anos, e ele
invariavelmente será descrito como um sujeito sério
e assíduo no trabalho. Faça a mesma pergunta
na Escola Estadual Doutor Nestor S. Bittencourt, de Catanduva,
interior de São Paulo, e a resposta será algo
bem diferente disso. Gabas é mais lembrado por lá
como o professor de educação física que
quase nunca aparece para dar aula. Alguns de seus alunos mal
recordam sua fisionomia. "Praticamente não vimos
o professor o ano inteiro. Ficamos com uma substituta",
diz Amanda Carobeno, estudante de 14 anos. Neste ano, ele
faltou 108 vezes, em 72 delas alegando algum problema de saúde.
Segundo os atestados médicos, Gabas sofre de transtorno
bipolar, uma doença psiquiátrica causadora de
variações de humor.
Outro fato chama
atenção nos relatórios recentes da escola.
Suas faltas são de uma regularidade cartesiana
quase sempre às segundas, quartas e sextas. Como a
lei perdoa ausências por razões médicas
apenas em dias intercalados, Gabas não é descontado
no salário. Ele diz: "Só essas poucas aulas
já me exigem um esforço sobre-humano".
A doença, no entanto, não tem sido impedimento
para o exercício da advocacia. Em 2007, Gabas compareceu
a audiências e consta como advogado em 23 processos
registrados no Tribunal de Justiça do Estado. "Assino
uma petição ou outra. Os horários do
escritório não são tão rígidos
quanto os de uma sala de aula." Em relação
à carreira de 31 anos como professor do estado, ele
já se viu motivado. Foi de dez anos para cá
que Gabas se tornou o rei das faltas e licenças. Hoje
só pensa na aposentadoria, prevista para 2008. "Sou
um pobre coitado. Tenho péssimas condições
de trabalho e ainda ganho mal. Cansei de dar aula."
Dois empregos,nenhuma aula
"Meu marido
não está em casa. Ele trabalha!" Assim
Vilma, a mulher do matemático Miguel Arcangel Moreno,
52 anos, respondeu à pergunta sobre o seu paradeiro.
Só deixou de mencionar um fato. Naquele dia 30 de novembro,
uma sexta-feira, Moreno deveria dar cinco aulas de matemática
aos alunos da Escola Estadual Giuseppe Pisoni, em Rio Grande
da Serra, na Grande São Paulo. Mas lá ele não
apareceu. O trabalho a que se referia Vilma era na empresa
Solvay, uma multinacional do setor químico, onde, aí
sim, Moreno é visto todos os dias. A assiduidade num
emprego contrasta com a ausência no outro. Os fatos:
neste ano, Moreno não deu uma aula sequer. Em 59 vezes,
justificou sua ausência com uma variedade de atestados
médicos. No tal dia em que trabalhava normalmente na
Solvay, ele estava oficialmente em licença médica
na escola. Depois de onze anos como professor do estado, durante
os quais suas ausências foram se intensificando ano
a ano, Moreno conta que pediu para ser remanejado para uma
das funções administrativas do colégio,
um processo ainda em curso. Para tal, precisa comprovar ter
alguma doença que o impeça de lecionar. Quanto
a isso, ele é evasivo: "Não sou médico,
portanto não posso falar nada sobre o assunto. Algum
impedimento certamente eu tive para não ir à
escola". Moreno não dá nenhum sinal de
sentir falta da sala de aula. Ao contrário. Ele se
queixa do salário e da violência: "Quero
uma função administrativa justamente para fugir
do contato com os alunos. O professor que vai dar aula hoje
é um herói".
Falta com dia e hora marcados
Roberto Setton
O professor Denílson
Pino (de costas): "O estado me dá liberdade
para faltar"
Neste ano, o professor de filosofia
Denílson Pino, 31 anos, deixou de dar 47 dias de aula
aos alunos da escola Dr. Antonio Pereira Lima, na cidade de
São Paulo. Todas essas vezes, ele apresentou um atestado
médico para justificar sua ausência. Na realidade,
Pino não sofre de nenhum problema de saúde.
Quem precisa ir semanalmente ao médico é seu
pai. E Pino falta à escola para acompanhá-lo.
Ele não está infringindo a lei, segundo a qual
faltas médicas em casos de doença na família
também são permitidas. Sua história,
no entanto, é uma boa ilustração de como
a lei pode ser benevolente com os professores e nem
tanto com os alunos. Pino admite abertamente fazer uso máximo
dela a seu favor. "Poderia pedir uma licença médica
e dar à escola a possibilidade de colocar um professor
no meu lugar, mas seria descontado e isso eu não
quero." Também poderia compartilhar os cuidados
em relação ao pai com a irmã, mas aí
entra uma segunda questão. Ela trabalha numa empresa
privada. "Isso certamente a atrapalharia. Já o
estado me dá liberdade para faltar." Pino também
assume escolher a dedo os dias de ausência, em geral
as terças-feiras. É mais conveniente assim porque,
justamente nas terças, deveria dar aulas de manhã
e só retornar à sala de aula quatro horas depois.
O intervalo lhe consumiria tempo demais. Ele diz: "O
estado não me paga para isso".
Reunião, só
no sindicato
Joel Silva/Folha Imagem
Fátima Fernandes: sindicalista
e ex-candidata à prefeitura, teve 57 faltas médicas
A professora de
português Fátima da Silva Fernandes, 53 anos,
ocupa um cargo de destaque na hierarquia sindical. Ela pertence
à diretoria da Apeoesp, o maior sindicato de professores
do país. Para quem tem uma função como
essa, a rotina de reuniões e congressos é intensa.
Fátima ainda acumula suas atribuições
sindicais com as aulas na escola Eugênia Vilhena de
Morais, de Ribeirão Preto. Pelo contrato, ela deveria
dar 29 aulas semanais. Mas a realidade é outra. Neste
ano, Fátima compareceu à escola apenas sete
vezes. Além de eventuais licenças médicas,
foram 57 as faltas justificadas por problemas de saúde.
Os atestados apresentados por ela se referem a depressão.
Ainda assim, a professora teve fôlego para sua agenda
sindical: de acordo com dados da escola, ausentou-se seis
vezes para comparecer a reuniões como diretora do sindicato,
justamente no horário das aulas. Normalmente, os professores
substitutos ficam de sobreaviso, no caso de o titular faltar.
Diante do caso de Fátima, a situação
inverteu-se. Por segurança, a professora eventual passou
a ir à escola todos os dias. A sindicalista é
professora efetiva do estado há vinte anos. Tem um
histórico de faltas médicas, mas isso não
parece abalar sua disposição para atividades
políticas. Em 2004, ano em que tirou dezenove dias
de licença médica, Fátima saiu candidata
à prefeitura de Ribeirão Preto pelo Partido
Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU). Com 2.430 votos,
perdeu a eleição.