Pela primeira vez, desde a década
de 50, São Paulo tem um dia sem assassinatos
Wanderley
Preite
João
Wainer/Folha Imagem
UM
POUCO DE PAZ No bairro do Capão
Redondo, um dos mais violentos de São Paulo, o índice de homicídios
baixou 75% desde 2001
A
cidade de São Paulo viveu um dia histórico na sexta-feira 7 de dezembro:
foram 24 horas sem um único assassinato. Fazia muito tempo que isso não
ocorria. O último registro de um dia de paz como esse data da década
de 50. A melhor notícia, no entanto, é que não se trata de
um episódio fortuito: a cidade e também o estado de São Paulo
vêm registrando índices declinantes de criminalidade. De 1999 para
cá, a taxa de homicídios caiu 79% na capital e 69% no estado. Atualmente,
contabilizam-se onze assassinatos por ano para cada 100.000 habitantes no estado
(veja quadro), taxa bem inferior à do Rio
de Janeiro e à do Brasil, de 39 e 22 mortos para cada 100.000 habitantes,
respectivamente. Se o governo estadual conseguir reduzir esse número para
dez homicídios o que espera fazer já no ano que vem ,
São Paulo passará a ter índices aceitáveis desse tipo
de crime, segundo os padrões da Organização Mundial de Saúde.
Não se trata do único
recorde no combate à criminalidade que o estado comemora. De janeiro último
até sexta-feira passada, 280 municípios paulistas não haviam
registrado nenhum homicídio. A melhor marca da década era a de 2004,
ano em que 253 municípios ficaram sem assassinatos. O crime de homicídio
foi um dos que mais caíram, mas não foi o único. Também
sofreu forte redução a quantidade de latrocínios, roubos
e roubos de veículos (veja quadro). Essa
melhora nos indicadores da criminalidade se deve a um conjunto de medidas que
o governo paulista começou a colocar em prática em 2000 e foi aprimorado
na gestão do tucano José Serra. O marco inicial desse projeto é
o Infocrim sistema eletrônico que, inspirado no modelo nova-iorquino,
interligou os distritos policiais da capital (e que, atualmente, inclui outros
oito municípios do interior e litoral). Por meio da análise dos
boletins de ocorrência lançados na rede pelas delegacias, policiais
traçam um mapa detalhado de cada tipo de crime, incluindo informações
como local e horário em que ele ocorre com mais freqüência,
situações que costumam propiciá-lo e vítimas preferenciais.
De posse desses dados, a polícia pode agir de modo mais cirúrgico.
Os carros de patrulha, por exemplo, que antes rodavam a esmo, começaram
a seguir uma rota determinada, e os cruzamentos de trânsito com maior número
de assaltos receberam reforço na vigilância. Bairros como o Capão
Redondo, na periferia da Zona Sul de São Paulo, tiveram os índices
de homicídio reduzidos em 75%, depois que a polícia passou a realizar
batidas sistemáticas em bares e outros locais que o Infocrim identificou
como focos de crimes.
Luiz
Carlos Murauskas/Folha Imagem
O
secretário de Segurança, Ronaldo Marzagão, ao lado do governador
José Serra: ação policial firme e investimento em inteligência
O
investimento nas ações de inteligência (escuta telefônica,
infiltração de policiais em quadrilhas, rastreamento dos criminosos
e cruzamento de dados) foi responsável por uma das maiores vitórias
recentes da polícia: a retomada do controle dos presídios, a prisão
de mais de 400 membros de facções criminosas e a neutralização
da maior delas, o Primeiro Comando da Capital o hoje asfixiado PCC, que
aterrorizou a cidade no ano passado com atentados que resultaram na morte de 152
pessoas. A favela Elisa Maria, na Zona Norte da capital paulista, era uma das
áreas dominadas pela facção. Após um cerco que durou
81 dias, com um saldo de 105 prisões, ela registrou uma queda de 80% nos
casos de homicídio. Melhor que isso: os índices não aumentaram
depois que os policiais deixaram o lugar. Para o secretário de Segurança
Pública, Ronaldo Marzagão, isso se deve ao fato de o governo ter
aliado à repressão ações de caráter social.
"O estado ocupou rapidamente o espaço deixado pelos traficantes",
afirma.
A favela recebeu um mutirão
de dentistas para atender os moradores e foram organizadas palestras sobre saúde
e planejamento familiar. Coube à prefeitura investir em calçamento
e iluminação pública. "Substituir o assistencialismo
do tráfico com ações eficazes de governo é uma prática
mundialmente consagrada", avalia Robson Sávio, pesquisador do Centro
de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública. Reprimir o crime
e fincar a bandeira do estado onde antes reinava a bandidagem é diferente
de achar que políticas sociais, por si sós, são a panacéia
para a criminalidade. Antes de mais nada, como prova São Paulo, é
preciso unir ação policial firme a investimentos em inteligência.