A Argentina empossou, na semana
passada, a segunda presidente de sua história. Cristina
Kirchner recebeu de seu marido, Nestor Kirchner, o bastão
presidencial, depois de vencer com folga as eleições
de outubro. O país que Nestor entregou a Cristina está
em muito melhor estado do que aquele que ele recebeu. Eleito
na ressaca política causada pelo colapso econômico,
financeiro, social e político de 2001-2002, ele assumiu
com um quarto da população sem emprego e mais
da metade abaixo da linha de pobreza. Hoje, o país
goza do menor índice de desemprego dos últimos
quinze anos, a população pobre caiu para 27%
e a economia cresce num ritmo próximo de 9% ao ano.
A herança, no entanto, inclui o populismo econômico
de Kirchner, com medidas como congelamento de preços
e limitação das exportações para
camuflar a segunda maior inflação da América
do Sul atrás apenas da do país de Hugo
Chávez.
É
pouco provável que uma troca de cargos entre marido e mulher signifique
mudanças radicais no rumo da economia argentina mas já se
sente uma lufada de ar fresco na Casa Rosada, a sede oficial da Presidência
argentina. O presidente Kirchner fez um favor a sua esposa ao tomar algumas medidas
impopulares, mas necessárias. Ele descongelou as tarifas no setor de transportes
públicos, que terão aumentos de até 30% no início
do ano que vem. Esse setor não sofria reajustes desde 2002. A medida alivia
as contas públicas, já que, sem aumentos no preço das passagens,
o governo era obrigado a subsidiar o transporte. "Sozinha, essa medida não
significa uma ruptura com as políticas anteriores, mas é sem dúvida
um passo na direção correta", disse a VEJA o argentino Fausto
Spotorno, economista-chefe da consultoria Orlando J. Ferreres e Associados, em
Buenos Aires. Para os próximos dois meses estão agendadas renegociações
tarifárias de três setores: eletricidade, água e gás
domiciliar.
A nova presidente saiu,
na semana passada, em busca de uma rápida solução para outro
velho problema. Cristina reuniu-se com o FMI para renegociar a dívida de
6 bilhões de dólares que a Argentina tem com o Clube de Paris, grupo
de dezenove países ricos que faz empréstimos a nações
em desenvolvimento. "Ainda não houve acordo, mas o governo já
demonstrou empenho em resolver esse impasse logo", diz Dante Sica, ex-secretário
de Indústria. Há boas chances de que 2008 seja um excelente ano
para a Argentina. As mudanças políticas (incluindo as conversas
com os credores) podem voltar a atrair investidores estrangeiros, afastados pelo
populismo de Kirchner. Para ajudar, o preço dos grãos o principal
produto de exportação do país está em alta,
com boas previsões devido ao aumento do consumo na China e na Índia.
Cristina assume com céu de brigadeiro.