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Artigo: Maílson
da Nóbrega A CPMF e o novo Brasil "Logo
na manhã seguinte à derrota, a Casa Civil promoveu reunião
de emergência para discutir como lidar com a situação.
Primeira providência: acalmar os mercados financeiros. A mudança
é enorme"
A defesa do projeto de prorrogação
da CPMF pelos senadores do PT e a reação do
ministro da Fazenda no "day after" da derrota do
governo constituíram mais uma prova da nova realidade
brasileira. Dispomos de instituições que criam
incentivos ao comportamento responsável em políticas
públicas fundamentais e inibem a prática do
populismo.
Nos
longos debates sobre o projeto, os senadores defenderam a CPMF com o argumento
da responsabilidade fiscal. Nos tempos em que eram oposição a condenaram,
em geral por razões ideológicas. Alertaram para o risco de piora
da avaliação do risco do país pelos mercados financeiros.
Antes, essas preocupações eram tidas como submissão ao Fundo
Monetário Internacional (FMI). Enxergaram ameaça à economia
semelhante à da crise da Ásia de 1997. Naquela época, opuseram-se
às medidas para enfrentar a situação, inquinando-as de contrárias
aos interesses do país. Logo
na manhã seguinte à derrota, a Casa Civil promoveu reunião
de emergência para discutir como lidar com a situação. Primeira
providência: acalmar os mercados financeiros. Em entrevista coletiva, o
ministro da Fazenda afirmou que a perda da receita da CPMF não abalaria
o compromisso do governo com a meta de superávit primário. Em poucos
dias, medidas seriam anunciadas para tornar crível a promessa. A mudança
é enorme. No passado, ele e outros companheiros diziam que o superávit
era uma ação neoliberal para atender a interesses de banqueiros.
A nova atitude mental desses petistas
tem seu lado corajoso. Eles deixam irados os companheiros ainda prisioneiros das
velhas idéias socialistas e do preconceito infantil contra os mercados
financeiros. No fundo, todavia, os senadores e o ministro se renderam às
circunstâncias ditadas pela evolução institucional dos últimos
anos. O custo político de reações inconseqüentes e de
atos irresponsáveis supera os supostos benefícios de generosidades
para agradar a certos segmentos da opinião pública. Na
definição clássica de Douglass North, prêmio Nobel
de Economia de 1993, instituições são as regras do jogo.
Constituem as restrições criadas para moldar a interação
humana e estruturar incentivos para ações de natureza política,
social ou econômica. Limitam o arbítrio dos governantes. As crenças
da sociedade constituem parte do processo, pois determinam escolhas e promovem
avanços nas instituições. O êxito das economias capitalistas
deve muito à evolução mental e à compreensão
dos fenômenos econômicos. No
Brasil, novas crenças se incorporaram ao modo de pensar da sociedade. Uma
delas provavelmente a mais importante para explicar a conversão
dos petistas foi a intolerância contra a inflação.
Antes, buscamos conviver com ela, via correção monetária.
Muitos defendiam a estúpida idéia de que a inflação
ajudava o país a crescer. Agora, a maioria, incluindo os pobres, convenceu-se
de que a inflação é um mal. Patricia
Santos/AE
 | | Lançamento
das ações da Bovespa: o Brasil é cada vez mais um país
normal |
Os avanços institucionais
que extinguiram a "conta de movimento", as funções de
fomento do Banco Central e os orçamentos paralelos culminaram na Lei de
Responsabilidade Fiscal e na autonomia operacional do Banco Central (mesmo que
ainda não garantida por lei). As políticas fiscal e monetária
se tornaram transparentes e previsíveis, como nos países desenvolvidos.
Manobras populistas ou "desenvolvimentistas" podem ser instantaneamente
detectadas pelos mercados financeiros, mudando as percepções de
risco e os humores. A democratização
e a reconquista da liberdade de imprensa fizeram surgir veículos de mídia
independentes do governo e competentes na geração de informações
e na investigação de malfeitos. Não há como surrupiar
fatos do conhecimento da opinião pública nem dos olhos atentos dos
especialistas. Por exemplo, se o ministro tivesse dito que os cortes de gastos
para manter o superávit primário viriam de uma redução
voluntarista da taxa de juros, uma crise de confiança se instalaria. A
bolsa de valores despencaria, a taxa de câmbio se depreciaria rapidamente,
os juros futuros explodiriam. Os sinais
da crise, noticiados com destaque pela mídia, seriam captados pelas empresas
e pelos eleitores, instalando temores de inflação e de queda de
atividade econômica. As empresas concluiriam que a demanda iria reduzir-se,
o que influenciaria decisões de investir. Os eleitores antecipariam os
riscos de inflação, de deterioração da sua renda e
de perda do emprego. A popularidade do presidente cairia, como já demonstraram
as pesquisas em situações semelhantes do passado. O
presidente da República e o ministro da Fazenda ainda detêm poderes
para mudar regras. Podem agir irresponsavelmente para satisfazer suas convicções
e angariar prestígio entre os que ainda professam crenças dos tempos
em que o estado fazia e acontecia, não raramente sem a adequada avaliação
das conseqüências. Na época da economia fechada, do autoritarismo,
do subdesenvolvimento dos mercados financeiros e das restrições
à informação, o governo tudo podia, para o bem e para o mal.
Não mais. Aí estão,
a meu ver, as razões básicas pelas quais Lula manteve a política
econômica de seu antecessor. Sua aguçada intuição o
ajudou a perceber a relação entre inflação e pobreza,
entre inflação e popularidade, entre estabilidade e autonomia operacional
do Banco Central. Lula entende como poucos a nova realidade. A maioria de seus
companheiros e os "desenvolvimentistas" ainda não se deram conta
dela. A reação do ministro da Fazenda à derrota da CPMF,
que deve ter sido aprovada e orientada por Lula, é parte desse auspicioso
processo. O Brasil é cada vez
mais um país normal. Ainda temos problemas sérios na educação
e na infra-estrutura econômica. O sistema tributário é péssimo
e a legislação trabalhista, arcaica. A corrupção é
grave. A Justiça é lenta. A violência nas grandes cidades
é assustadora. Felizmente, a democracia e as instituições
políticas e econômicas se fortaleceram. As mentes evoluíram.
Desejos de um terceiro mandato para Lula não se concretizam. O populismo
é rejeitado pelas urnas e os mercados disciplinam o governo. Jamais nos
livraremos de incompetências, mas tudo indica que estamos a salvo das inconseqüências
que poriam a perder a conquista da estabilidade econômica. Mesmo que ocorram,
as instituições se encarregam de corrigi-las e de punir os seus
autores. A democracia e a já
longa estabilidade econômica (para os nossos antigos padrões) estão
por trás do atual surto de prosperidade do país, que contou também
com os últimos cinco anos de bons ventos da economia mundial. A gestão
macroeconômica responsável do governo Lula melhorou a avaliação
de risco do país e permitiu o correspondente declínio da taxa de
juro. Essas condições asseguraram o mais promissor e saudável
ciclo de crédito de nossa história, que começa a chegar à
casa própria de forma vigorosa e segura. A atividade econômica se
expande. O emprego e a renda crescem. O PIB tem o melhor desempenho dos últimos
vinte anos, desmentindo a tese da desindustrialização e a de que
o Banco Central encabresta a economia. A
CPMF é um tributo de péssima qualidade. Integra-se de forma insidiosa
no custo de todos os bens e serviços, impondo ônus relativamente
maior aos pobres (e não aos ricos, como falou o governo). Não pode
sequer ser aceita como instrumento de fiscalização. É absurdo
que o estado precise de um tributo para fiscalizar os outros. Não existe
isso em canto nenhum. Mesmo assim, haveria justificativa para mantê-la por
algum tempo, pois a CPMF se tornou indispensável depois da festança
de gastos correntes do governo Lula, em sua maior parte com aumentos irreversíveis
de pessoal, de aposentadorias e pensões. Seja
como for, em meio às grandes falhas de negociação do governo
e da oposição, a derrota do projeto de prorrogação
da CPMF evidenciou sinais animadores. Mostrou que a sociedade está cansada
dos constantes aumentos da carga tributária sem a correspondente melhora
dos serviços prestados ao contribuinte (que na verdade têm piorado).
A reação do Executivo ao revés foi serena e responsável,
evitando o espocar de uma crise de confiança. Ainda é preciso esperar
pelas medidas, mas a reiteração do compromisso com a austeridade
fiscal foi uma demonstração inequívoca de que as nossas instituições
disciplinam o governo, inibem o arbítrio e nos protegem do populismo e
de suas mazelas econômicas, sociais e políticas. Não é
pouco. Maílson
da Nóbrega é ex-ministro da Fazenda. Sócio da Tendências
Consultoria Integrada
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