Entrevista: Luiz
Olavo Baptista "Nosso peso é
pequeno"
O novo presidente do Tribunal
de Apelações da Organização Mundial do Comércio
diz que, para ter relevância na economia global, o Brasil precisa
superar o arcaísmo nas leis e investir em infra-estrutura
Fábio
Portela
Roberto Setton
"Para
ganhar mercado no comércio exterior, não basta vencer disputas judiciais.
É preciso ser competitivo"
Por
mais de três décadas, o advogado Luiz Olavo Baptista atuou em processos
judiciais envolvendo empresas de nacionalidades distintas. Agora, aos 69 anos,
ele acaba de ser eleito presidente do Tribunal de Apelações da Organização
Mundial do Comércio (OMC), a mais alta corte a julgar disputas comerciais
entre países. Seu mandato será de um ano. Em 2001, ele foi indicado
pelo governo brasileiro para compor a corte de sete juízes da OMC. Nesse
posto, ajudou a decidir casos como a disputa da Embraer com a fábrica canadense
de aviões Bombardier e as contendas dos exportadores brasileiros com os
produtores de açúcar, na Europa, e de algodão, nos Estados
Unidos, que recebiam subsídios irregulares de seus governos. Pouco antes
de viajar para Genebra, na Suíça, onde tomará posse no novo
cargo, Baptista falou a VEJA no escritório que comanda em São Paulo.
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A Rodada Doha, a grande negociação mundial da década,
corre o risco de naufragar. Nesse caso, o número de apelações
no tribunal da OMC aumenta? Baptista É exatamente
o que vai acontecer. Mesmo que a Rodada Doha saia, ela será diluída.
Vai ser uma espécie de café aguado. Com isso, a peça mais
importante da OMC para resolver problemas entre países será o sistema
de solução de controvérsias. Estão faltando imaginação
e criatividade aos diplomatas para destravar as conversas.
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Ou seja, os juízes acabam resolvendo os impasses que os
diplomatas não conseguem solucionar... Baptista Esse
tem sido um dos nossos maiores trabalhos: esclarecer os direitos e deveres de
cada país no comércio mundial. Às vezes, os acordos diplomáticos
são tão vagos que não determinam nada. Nossas decisões
têm ajudado a definir o que é o direito internacional sob a ótica
da OMC. Desde que a corte foi criada, em 1995, estamos instituindo jurisprudência.
Nesse período, já foram julgados 86 casos, que agora servem de referência.
Hoje, a Corte de Apelações da OMC é o mais eficaz de todos
os tribunais internacionais.
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Quantos processos são julgados por ano? Baptista
Os processos maiores são chamados de "painéis".
Em média, são julgados de dez a doze deles por ano, e todas as decisões
têm de ser proferidas por consenso. Por isso, faço questão
de ler a íntegra de todos os processos. Alguns têm 5.000 ou 6 000
páginas. Diria que 60% do tempo que eu trabalho é gasto com leitura.
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São cerca de 60 000 páginas por ano. O senhor realmente
lê todas? Baptista Quando comecei a advogar, percebi
que teria de ler muito. Descobri, então, que o presidente John Kennedy
lia o New York Times de domingo em quatro minutos. Fiquei admirado e resolvi
me inscrever num curso de leitura dinâmica. Naquele tempo, era uma coisa
caríssima. Tive de pedir dinheiro emprestado ao meu pai, mas não
me arrependo. Tornei-me capaz de ler bem depressa. Minha média é
de 100 páginas por hora. Quando vou para a Europa, leio romances de 500
ou 600 páginas na viagem, e ainda encontro tempo para dormir. Leio VEJA
inteirinha em quinze minutos.
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O que o Brasil deveria fazer para aproveitar as decisões
que a OMC dá a seu favor? Baptista O Brasil atualmente
não pode exportar mais porque não tem como. Está travado.
O país precisa liberar seus gargalos de exportação. Se o
governo privatizasse os portos e as estradas que levam aos portos, já daria
uma destampada monstruosa no comércio exterior. Os operadores privados
buscariam capital e correriam o risco de investir. O país ganharia muito
em eficiência. Em Amsterdã, um contêiner é embarcado
em quatro horas. Aqui, leva três dias. Essa demora entra na conta do frete
cobrado pelas companhias de navegação. No Brasil, o frete é
caro porque os portos são ruins. E o que isso significa? Menos competitividade.
O algodão chega mais caro ao exterior porque pagamos mais pelo frete.
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Os exportadores reclamam da alta carga tributária. Eles
têm razão? Baptista Eles estão certos.
Se o gargalo logístico fosse destravado amanhã, seria ótimo.
Mas, em seguida, apareceriam o gargalo burocrático, que não é
difícil de ser resolvido, e o fiscal, este, sim, um nó. Todo imposto
que é recolhido e não é devolvido depois ao empresário
na forma de crédito tributário tira a competitividade do país
no comércio exterior. É o caso da Cofins, um imposto que é
ruim, e da CPMF, que é o pior de todos.
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Que força real tem o Tribunal de Apelações
da OMC? Baptista Essa corte julga todas as controvérsias
que surgem entre os países sobre o comércio internacional. O Brasil,
como a gente costuma brincar, é um dos fregueses mais importantes. O país
é o quinto maior usuário do tribunal. Só perde para os Estados
Unidos, a União Européia, o Canadá e a Índia. É
interessante analisar o perfil dos processos em que o Brasil está envolvido.
Em 70% dos casos em que é parte, o Brasil acusa outros países. Só
aparece como réu em 30% dos processos.
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Isso quer dizer que, na média, somos cumpridores dos acordos
internacionais? Baptista Não. Significa apenas que
o peso do Brasil no comércio internacional é muito pequeno. Muitas
vezes, o Brasil descumpre os acordos, mas o pessoal deixa passar porque, economicamente,
não vale a pena abrir um processo. As demandas judiciais na OMC são
muito caras. Só se justificam quando o volume comercial que está
em disputa é grande o suficiente para compensar as custas processuais.
É o mesmo raciocínio que você faz quando um sujeito quebra
o espelho do seu carro. Como o valor é pequeno, você não vai
parar o trânsito e começar um processo, porque o esforço não
compensará o resultado.
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A que o senhor atribui a sua indicação para presidir
a Corte de Apelações? Baptista Sem falsa modéstia,
na OMC respeitam o meu conhecimento técnico. Atuei a vida toda com direito
internacional, publiquei livros na Europa, dei aulas nos Estados Unidos. Domino
o assunto. Além disso, gostam das audiências que eu presido. Dizem
que tenho senso de humor, que brinco com as pessoas. Lembro de uma vez em que
fiz uma pergunta a uma advogada americana e ela ficou parada, embatucada. Como
a mulher não respondia, eu disse: "Se você quiser, pode invocar
a quinta emenda" que é aquela emenda à Constituição
dos Estados Unidos que diz que a pessoa tem o direito de ficar calada, para não
se comprometer. Todo mundo caiu na risada.
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O fato de o tribunal passar a ser presidido por um brasileiro tem
algum significado especial? Baptista É uma indicação
do prestígio do país, mas não trará nenhuma vantagem
material. Sempre viajei muito e morei na França e nos Estados Unidos. Quando
alguém me pergunta a minha nacionalidade, respondo que sou um ser humano.
A minha pátria é a humanidade, não um país. Para mim,
o sofrimento dos africanos, dos asiáticos pobres é tão triste
quanto o dos brasileiros. Mas não posso negar que o fato de eu ser do Brasil
sempre desperta curiosidade nos juristas estrangeiros.
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Por quê? Baptista Eles têm muita
dificuldade para entender as peculiaridades do nosso sistema jurídico.
Quando sou apresentado a advogados em Genebra, eles costumam perguntar, por exemplo,
qual é a diferença entre uma portaria, um decreto e uma instrução
normativa. É difícil explicar isso para um estrangeiro. Nosso arcabouço
jurídico é cheio de minúcias e de um arcaísmo que
chama atenção. O sistema é primitivo, embaraçado,
cheio de entraves. Temos uma infinidade de leis, que se cruzam e se sobrepõem.
A confusão abre brechas para que muitas leis não sejam cumpridas.
Temos muita legislação e pouca aplicação. Os estrangeiros
não entendem.
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Quanto custa mover um processo na OMC? Baptista Uma enormidade.
O que se comenta é que, juntas, a Embraer e a Bombardier gastaram 12 milhões
de dólares processando uma à outra. No caso do algodão, em
que o Brasil acusava o governo americano de dar subsídios ilegais aos produtores
do seu país, estima-se que o custo tenha passado de 3 milhões de
dólares. Isso inclui o levantamento de dados econômicos para o processo,
a viagem dos interessados e a contratação dos advogados.
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E quanto se ganha em uma causa dessas? Baptista
No caso do algodão, o tribunal calculou que o Brasil teve perdas de 3,2
bilhões de dólares devido à política de subsídios
americana. Por isso, além de cortar os subsídios, os Estados Unidos
deveriam ressarcir esse valor. Deveriam, mas não ressarciram. Nós
demos ao Brasil o direito de cobrar esse prejuízo. O Itamaraty teria de
negociar com Washington uma redução nas exportações
americanas de algodão durante um período determinado, para que os
produtores brasileiros pudessem ocupar o espaço com seus produtos. Mas,
pelo que sei, isso não foi feito. O Brasil não exigiu essa compensação
financeira a que teria direito.
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Por que essa responsabilidade é do Brasil? Baptista
A decisão da OMC é como uma ordem de despejo. Você
ganha o despejo do seu inquilino. Mas, se você não promover o despejo,
o inquilino não sai. A responsabilidade pela execução é
do interessado. Os Estados Unidos têm uma tradição de cumprir
a lei, mas eles tentam, a todo custo, resguardar o seu interesse. Na hora de cumprir
uma decisão, fazem o que podem para a coisa ir devagar. É como na
história de O Mercador de Veneza, de Shakespeare, em que Shylock
ganha o direito de arrancar 1 libra de carne das costas de um inimigo, mas fica
proibido de derramar uma única gota de sangue, o que o deixa de mãos
atadas. Esse tipo de sofisma funciona no comércio internacional. O devedor
sempre tenta dar à decisão a interpretação de menor
alcance possível. Isso é legítimo. Compete ao credor cobrar
aquilo a que tem direito.
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O que está impedindo o Itamaraty de agir? Baptista
Não sei. Mas, no estado lamentável em que estão nossos portos
e estradas, será que conseguiríamos aumentar nossas exportações
de algodão o suficiente? Às vezes, o Brasil obtém uma boa
vitória, mas não pode colher seus frutos porque a péssima
infra-estrutura impede que as exportações nacionais cresçam
na velocidade em que poderiam. Para conquistar mercado, não basta apenas
vencer demandas judiciais na OMC. É preciso ser competitivo. Uma coisa
não dá resultado sem a outra. O caso do algodão mostra isso.
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O senhor sempre atuou na área do direito internacional? Baptista
Quase sempre. A única exceção se deu durante o
regime militar, quando advoguei para presos políticos. Comecei defendendo
um estagiário do meu escritório que era da União Nacional
dos Estudantes e foi preso em um congresso. José Carlos Dias, Mário
Simas e eu estivemos entre os primeiros a atuar nesse campo, ainda antes da edição
do AI-5, que suspendeu as garantias constitucionais individuais no país.
Mas a barra pesou para o meu lado. Tive de passar dois anos na França com
a minha família.
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O que aconteceu? Baptista Estava defendendo
quatro padres dominicanos que eram acusados de subversão. Comecei a receber
ameaças, mas não dei bola, porque quem morre na véspera é
peru. Um dia, no entanto, meu filho atendeu o telefone e alguém disse a
ele: "Se o seu pai não parar com essa brincadeira, nós vamos
te matar". Eu cheguei em casa e ele estava chorando. Perguntei: "O que
foi?". E ele disse: "Um homem ligou e disse que vai me matar".
Meu filho tinha 3 anos. Decidi que era hora de dar um tempo. Aceito correr riscos,
mas não estenderia isso à minha família.
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Quem eram esses dominicanos? Baptista Eles
foram presos, e até hoje muita gente diz que foram torturados para denunciar
onde (o terrorista) Carlos Lamarca estava escondido. Um deles era Frei
Betto. Aliás, ele é o exemplo de gratidão que ilustra o gênero
humano. Agora, não me conhece mais. Não fala nem bom-dia quando
me vê. Gozado, não?
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O senhor se arrependeu de defendê-los? Baptista
Não, mas acho engraçado termos lutado por essa gente,
os chamados heróis da resistência democrática no Brasil, e
ver o que aconteceu quarenta anos depois. Se você olhar objetivamente o
que é que o sujeito fez de bom, ele não fez nada. O maior exemplo
disso é o José Dirceu. Ele era um estudante doidão, mais
dedicado a namorar as meninas do que a fazer política. Foi preso em um
congresso e, como era conhecido no movimento estudantil, o trocaram por um embaixador.
O Dirceu foi mandado para Cuba. Ficou lá um tempão. Quando voltou,
veio "plastificado", foi viver escondido atrás de uma mulher
no Paraná e só depois da anistia mostrou a cara. Onde é que
está a luta pela democracia? Mas, como desde pequeno só espero pelo
pior, surpreendo-me apenas com as coisas boas da vida.