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Edição 1 731 - 19 de dezembro de 2001
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Claudio de Moura Castro

Roubaram a
Amazônia?

"A ativa e triste colaboração de
acadêmicos de boas universidades
brasileiras
na disseminação de boataria
pela internet"

Alguém descobriu que em mapas de livros escolares americanos havia sido retirado um pedaço enorme do Brasil, na verdade toda a Amazônia. Os orgulhos verde-amarelos foram eriçados e os gigabytes da internet mobilizados para a denúncia de um grave fato: alguns já consideram internacionalizada a nossa Amazônia.

Ilustração Ale Setti


O ministro-conselheiro Paulo Roberto de Almeida deu-se ao trabalho de escarafunchar por trás da notícia e desenterrou um entulho considerável (www.pralmeida.org). O livro não está listado entre os 100 milhões do acervo da Biblioteca do Congresso (americano). Não está à venda nos livreiros conhecidos (incluindo www.amazon.com). Nenhuma busca revelou algo sobre o autor. Com seu nome, só um cientista especializado em paleontologia e dinossauros. Não consta a editora do livro na citação. Mas o golpe de misericórdia na farsa vem de um exame do suposto texto, reproduzido na internet, pois contém erros grosseiros de inglês. Mais ainda, inclui palavras e expressões que são meras traduções literais do português. O trabalho de detetive conduz a um website brasileiro de extrema direita, responsável no passado por outras travessuras do mesmo naipe.

Obviamente, tudo não passa de uma mentira deslavada. Nada ficamos sabendo do tema da internacionalização da Amazônia. Se queremos uma Amazônia solidamente nacional, temos de valorizar seu uso inteligente e as boas instituições de pesquisa que ajudam na busca de soluções locais. Temos de promover a troca de idéias com brasileiros e estrangeiros interessados – mas trocar impropérios em nada avança no conhecimento.

O incidente lembra um boato de que a rainha Vitória mandou tirar a Bolívia do mapa, pois um embaixador britânico foi expulso daquele país por não cumprimentar a amante do presidente. Nem a Bolívia desapareceu nem a Amazônia foi internacionalizada.

Mas há outras lições a tirar do incidente, ilustrando um tema central na aquisição do conhecimento: que confiança temos na informação recebida? A formação científica nos ensina a duvidar de tudo e de todos, pois só é provisoriamente aceito como verdadeiro aquilo que ninguém conseguiu demonstrar como sendo falso. Onde estão as fontes? Que credibilidade merecem? Como foi coletada a informação? A que procedimentos foi submetida?

O mais triste é que a disseminação da boataria na internet recebeu a ativa colaboração de acadêmicos de boas universidades, totalmente despreocupados com a evidente violação desses princípios. Esse incidente mostra uma banda frágil de nosso mundo acadêmico. Confrontado com um e-mail do diplomata, um professor afirma que só responderá à mensagem depois de saber qual a opinião do autor acerca da internacionalização. Ou seja, o que importaria não é a autenticidade do dado, mas as opiniões do interlocutor. O método científico denuncia os argumentos ad hominem, isto é, descolados do mérito do assunto e condicionados às pessoas envolvidas. Que exemplos de busca serena do conhecimento estará dando esse professor a seus alunos?

Fora dos meios acadêmicos, a situação é pior, pois a grande imprensa ainda está mais longe dos critérios de rigor da ciência. Ainda assim, há uma certa tradição de seriedade e os nomes dos redatores responsáveis estão impressos nos jornais. Na televisão, é mais comum o dito pelo não dito. Mas a internet é catastrófica desse ponto de vista. Não há responsáveis, não há autores, não há reputações construídas por décadas de trabalho sério. É a informação instantânea e a impunidade eterna. Ou os freqüentadores da internet aprendem a questionar o que lêem ou aumentará cada vez mais a volatilidade das informações e desinformações.

Vivemos em sociedades abarrotadas de informação e capengas em controle de qualidade das notícias que circulam. Portanto, a boa cidadania inclui a aquisição de hábitos como checar fontes e questionar o que nos é dito. Já vem de Descartes o princípio da dúvida sistemática de tudo que nos chega às mãos e da necessidade de distinguir entre o verdadeiro e o falso usando a razão e o bom senso.

Claudio de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)

 
 
   
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