Claudio
de Moura Castro
Roubaram a
Amazônia?
"A
ativa e triste colaboração de
acadêmicos
de boas universidades
brasileiras na disseminação de boataria
pela internet"
Alguém
descobriu que em mapas de livros escolares americanos havia sido retirado
um pedaço enorme do Brasil, na verdade toda a Amazônia. Os
orgulhos verde-amarelos foram eriçados e os gigabytes da internet
mobilizados para a denúncia de um grave fato: alguns já
consideram internacionalizada a nossa Amazônia.
Ilustração Ale Setti
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O ministro-conselheiro Paulo Roberto de Almeida deu-se ao trabalho de
escarafunchar por trás da notícia e desenterrou um entulho
considerável (www.pralmeida.org).
O livro não está listado entre os 100 milhões do
acervo da Biblioteca do Congresso (americano). Não está
à venda nos livreiros conhecidos (incluindo www.amazon.com).
Nenhuma busca revelou algo sobre o autor. Com seu nome, só um cientista
especializado em paleontologia e dinossauros. Não consta a editora
do livro na citação. Mas o golpe de misericórdia
na farsa vem de um exame do suposto texto, reproduzido na internet, pois
contém erros grosseiros de inglês. Mais ainda, inclui palavras
e expressões que são meras traduções literais
do português. O trabalho de detetive conduz a um website brasileiro
de extrema direita, responsável no passado por outras travessuras
do mesmo naipe.
Obviamente,
tudo não passa de uma mentira deslavada. Nada ficamos sabendo do
tema da internacionalização da Amazônia. Se queremos
uma Amazônia solidamente nacional, temos de valorizar seu uso inteligente
e as boas instituições de pesquisa que ajudam na busca de
soluções locais. Temos de promover a troca de idéias
com brasileiros e estrangeiros interessados mas trocar impropérios
em nada avança no conhecimento.
O incidente
lembra um boato de que a rainha Vitória mandou tirar a Bolívia
do mapa, pois um embaixador britânico foi expulso daquele país
por não cumprimentar a amante do presidente. Nem a Bolívia
desapareceu nem a Amazônia foi internacionalizada.
Mas há
outras lições a tirar do incidente, ilustrando um tema central
na aquisição do conhecimento: que confiança temos
na informação recebida? A formação científica
nos ensina a duvidar de tudo e de todos, pois só é provisoriamente
aceito como verdadeiro aquilo que ninguém conseguiu demonstrar
como sendo falso. Onde estão as fontes? Que credibilidade merecem?
Como foi coletada a informação? A que procedimentos foi
submetida?
O mais triste
é que a disseminação da boataria na internet recebeu
a ativa colaboração de acadêmicos de boas universidades,
totalmente despreocupados com a evidente violação desses
princípios. Esse incidente mostra uma banda frágil de nosso
mundo acadêmico. Confrontado com um e-mail do diplomata, um professor
afirma que só responderá à mensagem depois de saber
qual a opinião do autor acerca da internacionalização.
Ou seja, o que importaria não é a autenticidade do dado,
mas as opiniões do interlocutor. O método científico
denuncia os argumentos ad hominem, isto é, descolados do
mérito do assunto e condicionados às pessoas envolvidas.
Que exemplos de busca serena do conhecimento estará dando esse
professor a seus alunos?
Fora dos
meios acadêmicos, a situação é pior, pois a
grande imprensa ainda está mais longe dos critérios de rigor
da ciência. Ainda assim, há uma certa tradição
de seriedade e os nomes dos redatores responsáveis estão
impressos nos jornais. Na televisão, é mais comum o dito
pelo não dito. Mas a internet é catastrófica desse
ponto de vista. Não há responsáveis, não há
autores, não há reputações construídas
por décadas de trabalho sério. É a informação
instantânea e a impunidade eterna. Ou os freqüentadores da
internet aprendem a questionar o que lêem ou aumentará cada
vez mais a volatilidade das informações e desinformações.
Vivemos
em sociedades abarrotadas de informação e capengas em controle
de qualidade das notícias que circulam. Portanto, a boa cidadania
inclui a aquisição de hábitos como checar fontes
e questionar o que nos é dito. Já vem de Descartes o princípio
da dúvida sistemática de tudo que nos chega às mãos
e da necessidade de distinguir entre o verdadeiro e o falso usando a razão
e o bom senso.
Claudio
de Moura Castro é economista (claudiomc@attglobal.net)
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