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Edição 1 731 - 19 de dezembro de 2001
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Intimidades do coronel

Documentos de Virgílio Távora,
que mandou na política cearense,
mostram aspectos inéditos
do coronelismo

Adriana Negreiros


Fotos acervo Secult

Virgílio Távora, nos tempos em que era um dos senhores do Ceará


Autoritários, desconfiados, nepotistas, assistencialistas, fofoqueiros e dados a intrigas. Os famosos coronéis nordestinos eram tudo o que se pensava deles e um pouco mais, segundo se descobre no acervo de documentos deixado por um deles. Virgílio Távora, que por duas vezes governou o Ceará – de 1963 a 1966, pelo voto direto, e de 1979 a 1982, indicado pelo presidente Ernesto Geisel –, foi também deputado, senador e ministro da Viação e Obras Públicas no governo de João Goulart. Morto em 1988, aos 69 anos, de câncer na próstata, VT, como era chamado, deixou mais de 30.000 fotos, cartas, telegramas, recortes de jornais e documentos oficiais, agora catalogados pela Secretaria de Cultura do Ceará. Nas caixas, que passaram um tempo guardadas em uma casa abandonada da família, há desde material do início do século, dos antepassados de Távora participantes do movimento tenentista e da Revolução de 30, até papéis recentes.

No acervo, chamam a atenção as cartas amorosas e as que delatam os casos extraconjugais dos inimigos. Em uma delas, o ministro das Minas e Energia (1979 a 1985) e governador cearense César Cals (1971 a 1975), um dos mais poderosos coronéis do Estado, mandou colada numa folha de papel uma foto de revista com uma moça de biquíni e um automóvel Passat do ano, o carrão da época. A carta é endereçada a Luíza Távora, mulher de Virgílio, e dedura alguém. "O carro que ele deu para ela é igual a este", escreve Cals. Ao lado da moça de biquíni, outra anotação. "Essa aí é a empregada. Imagine a patroa", diz o texto. "O alvo da delação é muito provavelmente o próprio Virgílio", acredita o cientista político Josênio Parente, doutor pela Universidade de São Paulo, autor de livros sobre o coronelismo. "Nessa época, eles pertenciam ao mesmo partido, mas viviam uma disputa de poder."

 
Viagem ao interior com o ministro Mário Andreazza e o presidente João Figueiredo (à esq.) e uma reunião com Paulo Maluf

Além de intimidades, os documentos revelam estratégias políticas corriqueiras da época. Existe uma carta do presidente Castelo Branco a Virgílio Távora em que ele define os "critérios para a escolha de candidato a governador", em 1966. Ser filiado à Arena, obedecer ao presidente e ao próprio Virgílio, possuir autoridade e não ter comprometimento "com os vícios do passado" eram as principais recomendações. Vivia-se sob a ditadura militar. Um detalhe a lembrar é que Virgílio integrara o governo João Goulart e continuava a comunicar-se com ele. Em cartas, chamava-o de João ou "você".

Há mais de um documento confirmando o mandonismo dos coronéis. Mapas eleitorais feitos a mão são um exemplo. Neles, os políticos dividem os municípios entre si. Virgílio Távora era "dono" de 74 cidades, e seus aliados César Cals e Adauto Bezerra, que governou o Ceará de 1975 a 1978, dividiam outras 45. Curiosamente, os três pertenciam a uma geração de políticos que cresceu propondo acabar com as relações de assistencialismo típicas da República Velha. O tio de Virgílio, Fernandes Távora, foi combatente da Revolução de 30 e, com a vitória do movimento comandado por Getúlio Vargas, virou interventor no Ceará. A Revolução não tirou o poder das oligarquias e tornou mais sólido o paternalismo.

Prova disso são os bilhetes enviados por gente importante que pede favores. Há pedidos do presidente do Conselho de Ministros de Jango, Tancredo Neves, na época em que Virgílio era seu colega, e do ministro da Justiça do governo Ernesto Geisel, Armando Falcão. Este pedia ao governador que contratasse um auxiliar agrônomo. O coronel guardou até provas de que comprava votos pagando com favores políticos.

Virgílio Távora não deixou sucessores, ao contrário de seu inimigo político, o senador Carlos Jereissati. Em 1963, o coronel chegou ao governo. O desafeto alcançou o Senado. Jereissati era, na época, o maior importador do Brasil de casimira, linho e lã. No mesmo ano, Jereissati morreu de infarto. Seu filho Tasso ainda era criança, mas a família conseguiu multiplicar a fortuna do pai. Somente em 1986, Tasso entraria na política, numa eleição histórica, uma vingança política, na qual derrotou o coronel Adauto Bezerra para o governo do Estado, anunciando de novo o fim do patriarcado no Ceará. A seu modo e em sua época, Virgílio Távora também foi símbolo de modernidade, atraindo indústrias fortes, como a Vicunha e a Gerdau, implantando um distrito industrial e indo buscar a energia elétrica de Paulo Afonso para seu Estado. As voltas que o mundo dá.

   
 
   
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