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Edição 1 731 - 19 de dezembro de 2001
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As mulheres no
canteiro de obras

Há mais de 100 delas no trabalho
pesado, entre os peões, na
construção da usina em Tucuruí

Reportagem e fotos de Pedro Martinelli

Ruthe Cilene da Silva Munis já foi doméstica sem carteira assinada. Um de seus trabalhos é revestir de massa painéis a 60 metros do chão. "Isso não é problema, porque já subi em muita palmeira de açaí"

Quando a segunda fase da maior obra já construída na Amazônia estiver pronta, dentro de cinco anos, haverá quem realce o fato de ela ter elevado em 15% a disponibilidade de energia elétrica no Brasil, quem recorde a catástrofe ambiental que representou e quem vá considerá-la um marco da grande revolução no trabalho feminino na região. Até agora, já são 118 as mulheres integradas a essa revolução, munidas de máquinas de solda, carrinhos de mão, controles de guindastes e pesadas ferramentas utilizadas no serviço duro dos barrageiros. Quando as primeiras delas chegaram ao canteiro de obras, dois anos atrás, as empresas Norberto Odebrecht e Camargo Corrêa, responsáveis pela construção, estavam fazendo uma aposta. Homens são fortes e geralmente têm alguma experiência nessa dura atividade. Mas as mulheres, que já ocupam 4% dos postos de trabalho, poderiam trazer algumas vantagens.

Valdivina Silva Cruz e Maria de Jesus Alves são armadoras. Passam o dia torcendo arames nas estruturas de ferro. O índice de acidentes entre as mulheres é mínimo, diz a chefia


Maria Geane, soldadora. Começou na cantina da obra e conseguiu a "promoção". Não quer outra vida: "Nunca mais vão me dizer que mulher só serve para pilotar fogão. Aprendo coisas novas todos os dias"

Têm refinada habilidade manual, boa para solda, por exemplo. Com laços familiares na região, tornam-se mais ligadas ao trabalho e não costumam abandoná-lo para aventurar-se em obras distantes. Não raramente, numa região de emprego escasso, são os verdadeiros arrimos de família, enquanto os companheiros tentam a sorte longe de casa. Com a responsabilidade pela criação dos filhos, agarram-se à oportunidade de emprego com dedicação difícil de igualar. A maioria delas não bebe, e isso as faz mais confiáveis para trabalhos perigosos, como a operação de guindastes capazes de levantar um caminhão. Por fim, como se soube depois, são também dedicadas, sérias e, em muitos casos, mais envolvidas com as tarefas que os trabalhadores do sexo masculino. Desvantagens? Só uma: faltam um pouco mais ao serviço, porque de vez em quando um filho adoece. Não há analfabetas trabalhando em Tucuruí. Mais da metade delas têm o curso fundamental e 40% alcançaram o ensino médio.


Marisa Vinha opera o guindaste. Ela leva para trás do paredão operários que, pendurados em gaiolas, fazem retoques na alvenaria. Marisa não os vê trabalhando. Se errar um comando, alguém pode se machucar

Os responsáveis pela área de recursos humanos dessa obra que está custando 11 bilhões de reais, nas duas fases, também lamentam que não haja entre elas um número maior de qualificadas para trabalhos técnicos e que não tenham força física para encarar muitas tarefas. Não fosse isso, eles já teriam contratado muitas outras mulheres. No aspecto do preparo técnico, já estão dando um jeito, depois de ter firmado convênio com a Secretaria de Promoção Social do Pará, onde fica a obra, e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), para criar cursos femininos de qualificação. Depois disso, serão vistas ainda muitas histórias como a de Marisa Vinha, de 32 anos, que foi barrageira em obra de São Paulo, como ajudante-geral, e chegou a operadora de guindaste, ganhando mais de 1.000 reais por mês. A 60 metros de altura, muitas vezes baixando cuidadosamente gaiolas ocupadas por homens atrás do paredão de concreto, que lhe tira a visão do que ocorre do outro lado, Marisa aponta outra característica que só as mulheres poderiam ter levado para uma construção como essa: charme. "Não é porque estou sozinha aqui em cima que vou andar desalinhada", ela diz, retocando o batom vermelho.



   
 
   
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