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As
mulheres no
canteiro de obras
Há
mais de 100 delas no trabalho
pesado, entre os peões, na
construção da usina em Tucuruí

Reportagem
e fotos de Pedro Martinelli
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| Ruthe
Cilene da Silva Munis já foi doméstica sem carteira
assinada. Um de seus trabalhos é revestir de massa painéis
a 60 metros do chão. "Isso não é problema,
porque já subi em muita palmeira de açaí"
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Quando a
segunda fase da maior obra já construída na Amazônia
estiver pronta, dentro de cinco anos, haverá quem realce o fato
de ela ter elevado em 15% a disponibilidade de energia elétrica
no Brasil, quem recorde a catástrofe ambiental que representou
e quem vá considerá-la um marco da grande revolução
no trabalho feminino na região. Até agora, já são
118 as mulheres integradas a essa revolução, munidas de
máquinas de solda, carrinhos de mão, controles de guindastes
e pesadas ferramentas utilizadas no serviço duro dos barrageiros.
Quando as primeiras delas chegaram ao canteiro de obras, dois anos atrás,
as empresas Norberto Odebrecht e Camargo Corrêa, responsáveis
pela construção, estavam fazendo uma aposta. Homens são
fortes e geralmente têm alguma experiência nessa dura atividade.
Mas as mulheres, que já ocupam 4% dos postos de trabalho, poderiam
trazer algumas vantagens.
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| Valdivina
Silva Cruz e Maria de Jesus Alves são armadoras. Passam o dia
torcendo arames nas estruturas de ferro. O índice de acidentes
entre as mulheres é mínimo, diz a chefia
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| Maria
Geane, soldadora. Começou na cantina da obra e conseguiu a
"promoção". Não quer outra vida: "Nunca
mais vão me dizer que mulher só serve para pilotar fogão.
Aprendo coisas novas todos os dias" |
Têm
refinada habilidade manual, boa para solda, por exemplo. Com laços
familiares na região, tornam-se mais ligadas ao trabalho e não
costumam abandoná-lo para aventurar-se em obras distantes. Não
raramente, numa região de emprego escasso, são os verdadeiros
arrimos de família, enquanto os companheiros tentam a sorte longe
de casa. Com a responsabilidade pela criação dos filhos,
agarram-se à oportunidade de emprego com dedicação
difícil de igualar. A maioria delas não bebe, e isso as
faz mais confiáveis para trabalhos perigosos, como a operação
de guindastes capazes de levantar um caminhão. Por fim, como se
soube depois, são também dedicadas, sérias e, em
muitos casos, mais envolvidas com as tarefas que os trabalhadores do sexo
masculino. Desvantagens? Só uma: faltam um pouco mais ao serviço,
porque de vez em quando um filho adoece. Não há analfabetas
trabalhando em Tucuruí. Mais da metade delas têm o curso
fundamental e 40% alcançaram o ensino médio.

Marisa
Vinha opera o guindaste. Ela leva para trás do paredão
operários que, pendurados em gaiolas, fazem retoques na alvenaria.
Marisa não os vê trabalhando. Se errar um comando, alguém
pode se machucar
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Os responsáveis
pela área de recursos humanos dessa obra que está custando
11 bilhões de reais, nas duas fases, também lamentam que
não haja entre elas um número maior de qualificadas para
trabalhos técnicos e que não tenham força física
para encarar muitas tarefas. Não fosse isso, eles já teriam
contratado muitas outras mulheres. No aspecto do preparo técnico,
já estão dando um jeito, depois de ter firmado convênio
com a Secretaria de Promoção Social do Pará, onde
fica a obra, e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai),
para criar cursos femininos de qualificação. Depois disso,
serão vistas ainda muitas histórias como a de Marisa Vinha,
de 32 anos, que foi barrageira em obra de São Paulo, como ajudante-geral,
e chegou a operadora de guindaste, ganhando mais de 1.000
reais por mês. A 60 metros de altura, muitas vezes baixando cuidadosamente
gaiolas ocupadas por homens atrás do paredão de concreto,
que lhe tira a visão do que ocorre do outro lado, Marisa aponta
outra característica que só as mulheres poderiam ter levado
para uma construção como essa: charme. "Não é
porque estou sozinha aqui em cima que vou andar desalinhada", ela diz,
retocando o batom vermelho.
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