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Gustavo
Franco
Economia: o que
pensam os
candidatos?
"A
economia está meio encrencada,
e as
incertezas seriam menores se soubéssemos
exatamente quais são as diferenças, se é que
existem, de pensamento econômico entre
os candidatos"
Ilustração Ale Setti
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Como sempre acontece, é a economia que vai decidir a eleição,
ou, mais precisamente, o que os candidatos vão dizer sobre a economia.
Embora se admita que na esfera da política é prematuro esperar
manifestações com substância sobre temas econômicos,
o assunto está muito vivo nos mercados, onde o tempo funciona de
forma singular e os eventos todos ocorrem bem antes de suas respectivas
datas.
Esses famosos
e temidos senhores, os investidores, nacionais e estrangeiros, estão
curiosos sobre as propostas econômicas dos pretendentes à
Presidência. Querem saber se compram ou se vendem, se constroem
fábricas ou colocam o dinheiro no overnight. Não estamos
falando de especuladores, mas de todos os atores do processo econômico,
assalariados, industriais, donas-de-casa, poupadores grandes e pequenos,
que legitimamente têm dúvidas sobre o futuro.
A economia
está meio encrencada, e as incertezas seriam menores se soubéssemos
exatamente quais são as diferenças, se é que existem,
de pensamento econômico entre os governadores Garotinho, Itamar
Franco e Roseana Sarney, o ex-ministro Ciro Gomes, o ministro José
Serra, o senador Eduardo Suplicy e mesmo o candidato Lula, agora, segundo
se diz, em versão light.
O grupo
tem em comum, abstraídas diferenças de etiqueta e adjetivação,
o fato de todos se alinharem no campo da oposição, com a
possível exceção da governadora Roseana, e mesmo
assim por presunção. Já vão se aproximando
as eleições, e o que se ouve sobre economia me faz lembrar
o personagem-título de um filme de Woody Allen: Zelig, um homem
que encarnava aquele de quem se aproximava, sendo de pouca importância
sua verdadeira identidade. Aos literalistas em matéria de democracia,
aqui vai um sofisma: quem disse que candidato a presidente deve ter uma
identidade muito clara? Ele, ou ela, não deve apenas e tão-somente
expressar a vontade do eleitor, e não necessariamente a sua?
Nessa linha,
deve ser considerado normal que os presidenciáveis não tenham
um Projeto no sentido maiúsculo do termo e que estejam esperando
que seus marqueteiros, e respectivas pesquisas, lhes informem os desejos
do eleitor, incluindo a indumentária do candidato, seus slogans
e palavras de ordem, sem esquecer o indefectível "programa de governo",
documento obrigatório e de amplamente reconhecida e desculpada
irrelevância.
Mas, a despeito
da cortina de fumaça habilmente construída pelos condutores
da eleição, todos publicitários profissionais da
melhor estirpe, devemos acreditar que o eleitor sempre será capaz
de vislumbrar, ainda que no último instante, o que os candidatos
e suas equipes realmente pensam sobre a economia. Seria ótimo que
houvesse mais clareza sobre isso no início do jogo, mas, infelizmente,
neste momento, o pensamento econômico dos candidatos é um
mistério.
Seguramente,
isso vale para os postulantes do campo governista, pois o pouco que deixam
escapar sobre economia parece difícil de distinguir do que vem
dizendo a oposição. Fica, assim, cada vez mais descaracterizada
a continuidade das políticas do atual governo, especialmente se
considerarmos as do primeiro mandato, época em que ele era popular
e tinha um Projeto muito bem definido. Nesse cenário, o eleitor
deve estar se perguntando: se o candidato do PSDB vai mudar as coisas,
qual é mesmo a direção? Foi divulgado, por exemplo,
que José Serra, caso eleito, manteria Armínio Fraga em seu
posto, "pelo menos no início", o que já se ouviu de Cristovam
Buarque. A interseção entre o pensamento econômico
de José Serra e o de Armínio Fraga, pelo que se conhece
de ambos, e até prova em contrário, é um conjunto
vazio.
A falta
de projeto vale também, e não surpreendentemente, para o
PT e para seu eterno candidato, e por uma razão simples: o contrário
de um Projeto, ou seja, o "contra isso tudo que aí está",
não é um projeto alternativo, do mesmo jeito que colocar
uma pintura de cabeça para baixo, se você não gosta
dela, não criará uma pintura "alternativa", será
apenas falta de educação artística.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
- www.gfranco.com.br)
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