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Edição 1 731 - 19 de dezembro de 2001
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Gustavo Franco

Economia: o que
pensam os
candidatos?

"A economia está meio encrencada, e as
incertezas seriam menores se soubéssemos
exatamente quais são as diferenças, se é que
existem, de pensamento econômico entre
os candidatos"


Ilustração Ale Setti


Como sempre acontece, é a economia que vai decidir a eleição, ou, mais precisamente, o que os candidatos vão dizer sobre a economia. Embora se admita que na esfera da política é prematuro esperar manifestações com substância sobre temas econômicos, o assunto está muito vivo nos mercados, onde o tempo funciona de forma singular e os eventos todos ocorrem bem antes de suas respectivas datas.

Esses famosos e temidos senhores, os investidores, nacionais e estrangeiros, estão curiosos sobre as propostas econômicas dos pretendentes à Presidência. Querem saber se compram ou se vendem, se constroem fábricas ou colocam o dinheiro no overnight. Não estamos falando de especuladores, mas de todos os atores do processo econômico, assalariados, industriais, donas-de-casa, poupadores grandes e pequenos, que legitimamente têm dúvidas sobre o futuro.

A economia está meio encrencada, e as incertezas seriam menores se soubéssemos exatamente quais são as diferenças, se é que existem, de pensamento econômico entre os governadores Garotinho, Itamar Franco e Roseana Sarney, o ex-ministro Ciro Gomes, o ministro José Serra, o senador Eduardo Suplicy e mesmo o candidato Lula, agora, segundo se diz, em versão light.

O grupo tem em comum, abstraídas diferenças de etiqueta e adjetivação, o fato de todos se alinharem no campo da oposição, com a possível exceção da governadora Roseana, e mesmo assim por presunção. Já vão se aproximando as eleições, e o que se ouve sobre economia me faz lembrar o personagem-título de um filme de Woody Allen: Zelig, um homem que encarnava aquele de quem se aproximava, sendo de pouca importância sua verdadeira identidade. Aos literalistas em matéria de democracia, aqui vai um sofisma: quem disse que candidato a presidente deve ter uma identidade muito clara? Ele, ou ela, não deve apenas e tão-somente expressar a vontade do eleitor, e não necessariamente a sua?

Nessa linha, deve ser considerado normal que os presidenciáveis não tenham um Projeto no sentido maiúsculo do termo e que estejam esperando que seus marqueteiros, e respectivas pesquisas, lhes informem os desejos do eleitor, incluindo a indumentária do candidato, seus slogans e palavras de ordem, sem esquecer o indefectível "programa de governo", documento obrigatório e de amplamente reconhecida e desculpada irrelevância.

Mas, a despeito da cortina de fumaça habilmente construída pelos condutores da eleição, todos publicitários profissionais da melhor estirpe, devemos acreditar que o eleitor sempre será capaz de vislumbrar, ainda que no último instante, o que os candidatos e suas equipes realmente pensam sobre a economia. Seria ótimo que houvesse mais clareza sobre isso no início do jogo, mas, infelizmente, neste momento, o pensamento econômico dos candidatos é um mistério.

Seguramente, isso vale para os postulantes do campo governista, pois o pouco que deixam escapar sobre economia parece difícil de distinguir do que vem dizendo a oposição. Fica, assim, cada vez mais descaracterizada a continuidade das políticas do atual governo, especialmente se considerarmos as do primeiro mandato, época em que ele era popular e tinha um Projeto muito bem definido. Nesse cenário, o eleitor deve estar se perguntando: se o candidato do PSDB vai mudar as coisas, qual é mesmo a direção? Foi divulgado, por exemplo, que José Serra, caso eleito, manteria Armínio Fraga em seu posto, "pelo menos no início", o que já se ouviu de Cristovam Buarque. A interseção entre o pensamento econômico de José Serra e o de Armínio Fraga, pelo que se conhece de ambos, e até prova em contrário, é um conjunto vazio.

A falta de projeto vale também, e não surpreendentemente, para o PT e para seu eterno candidato, e por uma razão simples: o contrário de um Projeto, ou seja, o "contra isso tudo que aí está", não é um projeto alternativo, do mesmo jeito que colocar uma pintura de cabeça para baixo, se você não gosta dela, não criará uma pintura "alternativa", será apenas falta de educação artística.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com - www.gfranco.com.br)


 
 
   
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