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Saddam, o vilão,
ataca novamente
O ditador
do Iraque expulsa americanos
e compra mais uma briga com os Estados Unidos
Lizia
Bydlowski
Lá vão eles outra
vez. O Iraque de Saddam Hussein faz uma provocação, os
Estados Unidos de Bill Clinton batem na mesa. Saddam
persiste no mau comportamento, mais sanções da ONU. Nem
assim toma jeito? Mísseis americanos podem cruzar os
céus da antiga Mesopotâmia a qualquer momento. A nova
rodada de confronto entre os velhos inimigos é
igualzinha a todas as ocorridas desde que Saddam lambeu
as feridas da surra aplicada durante a Guerra do Golfo,
há quase sete anos, e começou a pôr as manguinhas de
fora novamente. O motivo da irritação dos Estados
Unidos é plenamente justificado: o bigodudo anda
querendo esconder seu saco de maldades e, como cortina de
fumaça, criou problemas até conseguir expulsar os
técnicos americanos que integram a Comissão Especial da
Organização das Nações Unidas, encarregada de
fiscalizar a destruição das armas químicas,
bacteriológicas e potencialmente nucleares do arsenal
iraquiano. Os motivos de Saddam Hussein só Alá conhece
ele sabe que passaria para o plano superior de maneira
muito radical se usasse alguma dessas armas de
destruição em massa contra inimigos externos, tanto que
não ousou fazê-lo nem durante a Guerra do Golfo. O
forte do ditador, no entanto, nunca foi a lógica e ele
ainda espera dar uma faturadinha posando de machão ao
peitar os Estados Unidos. Como até hoje quem se danou
com suas loucuras foi o povo iraquiano, Saddam continua
à vontade para cometê-las.
Tal qual em
ocasiões anteriores, a briga atual começou a ser
travada em torno da Unscom, como é chamada a comissão
de 180 membros criada por exigência do acordo de
cessar-fogo assinado pelo Iraque em 1991 para vasculhar o
país atrás das armas mais perversas e proibidas. Nas
mãos da Unscom está o fim do embargo contra o Iraque:
no dia em que ela se der por satisfeita, Bagdá recebe
autorização para voltar a vender petróleo, a única
riqueza exportável do país. Esse dia, no entanto,
parece estar longe, principalmente porque os Estados
Unidos não pretendem aliviar em 1 milímetro o
torniquete sobre seu vilão predileto. Saddam, como de
hábito, dá munição ao inimigo. Em outubro, a
comissão divulgou mais um relatório queixando-se de que
os iraquianos atrapalhavam no que podiam o seu trabalho.
A ONU começou a falar na possibilidade de ampliar as
sanções contra o país. Mais que depressa o Iraque se
antecipou: anunciou que havia gente demais dos Estados
Unidos na comissão (eles equivalem a 14%, o segundo
maior grupo; os mais numerosos, 22%, são os chilenos),
que se estavam apegando a detalhes para incriminar o
Iraque e que, por isso tudo, não ia mais aceitar a
presença de técnicos americanos, a partir dali
promovidos a espiões, nas visitas de inspeção.
Dito e feito
daí em diante, todo dia a equipe apresentava-se na área
a ser inspecionada, os guardas negavam passagem aos
americanos, e o grupo inteiro voltava ao escritório de
mãos abanando. Os Estados Unidos foram à ONU, pedindo
revanche. O sentimento internacional hoje não é mais
tão resoluto como há sete anos, quando o Iraque cometeu
um ato inequívoco de banditismo internacional ao invadir
o Kuwait e, muito pior, ameaçar o abastecimento de
petróleo do planeta. Mesmo assim, na quarta-feira
passada, o Conselho de Segurança aprovou resolução
proibindo o desembarque nos aeroportos dos
países-membros dos funcionários do Iraque que estejam
dificultando o trabalho da Unscom. Complicado é pôr a
medida em prática. Primeiro pela dificuldade em definir
quem é quem entre os funcionários passíveis de
embargo; depois porque, com ou sem ONU, no país de
Saddam as autorizações de viagem só saem mesmo a
conta-gotas.
Pisando em
ovos
Diante da resolução, o Iraque fez o que vinha
prometendo havia dias: expulsou os seis americanos que
cumpriam seu turno na comissão, em Bagdá. A ONU, em
protesto, resolveu remover o grupo inteiro, que consta de
mais 68 inspetores. Um protesto meio autopunitivo
pela primeira vez desde que perdeu a Guerra do Golfo o
Iraque não tem ninguém verificando se está ou não
carregando com fórmulas proibidas os 25 mísseis de
longo alcance que se acredita tenha escondidos em alguma
parte. Os técnicos americanos não puderam nem partir de
avião com o resto do grupo
foram imediatamente despachados, em três carros, para a
Jordânia, uma viagem de cerca de doze horas.
Previsivelmente, o presidente Clinton engrossou as
ameaças.
Os Estados Unidos
têm, dentro de casa, tanto a população (61%) quanto o
Congresso a favor de um ataque militar, até unilateral,
se preciso. Também mantêm um porta-aviões, o Nimitz,
no Golfo Pérsico, e na sexta-feira despacharam mais um,
o George Washington. O problema é definir,
politicamente, o que fazer com esse formidável poder de
fogo. Os países árabes, notadamente o Egito, são
contra um novo ataque militar ao Iraque, árabe como
eles, onde a população sofre privações e restrições
que os vizinhos cada vez mais condenam. Ninguém, na
região, morre de amores por Saddam Hussein. Ao
contrário. Ocorre que, em todas as represálias
americanas anteriores, caíram uns mísseis aqui e ali,
Saddam deu uma recuada e continuou no poder, tramando a
próxima jogada. Aos países árabes também não
interessa demonstrar apoio incondicional aos Estados
Unidos num momento em que Israel desafia ostensivamente
as pálidas pressões americanas em favor da retomada das
negociações, para valer, com os palestinos. Mesmo
dentro do Conselho de Segurança, os Estados Unidos pisam
em ovos. Rússia, China e França, principalmente, querem
acabar logo com a briga com o Iraque e reatar seus
negócios na região.
Escudo
humano
Mestre em aproveitar as chances que lhe aparecem, Saddam
Hussein trata de tirar proveito do impasse para reforçar
sua posição. A jogada mais cínica foi o recrutamento
de velhos, mulheres e crianças para acampar nos 39
palácios-bunkers que Saddam espalhou pelo país para
despistar inimigos, dormindo cada noite em um lugar. Seu
propósito: servir de escudo humano contra eventuais
ataques militares. Se tiver de voltar atrás, ou sofrer
um ataque aéreo risco real, ainda que
provavelmente limitado a alvos militares
faz-se de vítima, e tudo volta a ser como antes.
Inclusive o trabalho da Unscom, que deve continuar tão
difícil como sempre foi. Os técnicos da comissão já
puseram fim a cerca de 200.000 armas, mas sabem que,
assim que virarem as costas, o Iraque reporá rapidamente
o arsenal destruído.

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