Voz da experiência

O presidente argentino elogia o pacote brasileiro,
dá conselhos a FHC e diz que disputará
pela terceira vez as eleições em 2003

Vladimir Netto

"Estamos presos a exigências de organismos internacionais. O Brasil está apenas fazendo o que todos temos de fazer"
Foto: Ana Araujo  

O destino da Argentina está cada vez mais interligado ao do Brasil. Na semana passada, mesmo com a recente vitória da oposição nas urnas e a crise nas bolsas correndo solta, as manchetes dos jornais portenhos eram dedicadas a explicações sobre o plano econômico brasileiro. O presidente Carlos Menem, em visita ao Brasil, mobilizou sua equipe para acompanhar passo a passo as decisões do governo. Menem está ciente de que as medidas provocarão, aqui e na Argentina, problemas como agravamento do desemprego, que é em parte a razão de sua recente derrota eleitoral, e ainda assim apóia plenamente o pacote brasileiro. "O mais grave seria se o Brasil não tomasse essas medidas", afirma. Ao receber VEJA para uma entrevista entre Brasília e São Paulo, a bordo do luxuoso avião presidencial que mata de inveja seu colega brasileiro, Menem deu conselhos para Fernando Henrique, falou do plano de se recandidatar à Presidência em 2003 e chegou a mostrar seu lado supersticioso. Acendeu um incenso ao lado da imagem da Virgem de Valle, de quem é devoto. Na mesa, a foto da filha, Zulema, e do filho, Carlos Junior, que morreu em 1995. A entrevista:

Veja O que o senhor achou do pacote de medidas do Brasil?

Menem Essas medidas tomadas pelo Brasil são imprescindíveis. Elas causarão algum incômodo no funcionamento da economia argentina. Vai haver uma pequena queda no crescimento do PIB, mas isso não é tão prejudicial assim. O mais grave seria se o Brasil não tomasse essas medidas agora. O Brasil e a Argentina já tiveram experiências de hiperinflação durante governos que não tinham coragem de fazê-lo. Na Argentina, o ex-presidente Raúl Alfonsín vivia anunciando reformas, privatizações e controle de inflação. Não fez nada disso e o governo terminou com uma hiperinflação de 5.000% ao ano, e com o país à beira da desagregação. Se o presidente Cardoso não tivesse adotado essas medidas, os brasileiros teriam de enfrentar uma situação parecida com a que os argentinos viveram naquela época.

Veja Ou seja, a inflação voltaria a subir como no governo de José Sarney?

Menem E para que isso não se repetisse é que o presidente Cardoso tomou essas medidas. Estamos presos a exigências de organismos internacionais de crédito. O Banco Mundial e o FMI, por exemplo, exigem dos países que estão associados em mercados do tipo do Mercosul medidas para eliminar o déficit público, cortar gastos supérfluos e arrecadar mais. O Brasil está apenas fazendo o que todos temos de fazer.

Veja A crise pegou o Mercosul?

Menem O Mercosul vive uma crise diferente, de crescimento. Isso pode até parecer um contra-senso, mas não é. O Mercosul está crescendo em todos os sentidos: político, econômico, social e internacional. É uma das regiões mais prósperas do nosso planeta.

Veja Sim, mas o Mercosul não está imune à crise global da economia, certo?

Menem É verdade. Mas sabemos que esse tipo de situação pode acontecer a qualquer momento. Não esquecemos a crise do México. O que acontece uma vez pode acontecer de novo. E a crise mais dura para o Mercosul, e especialmente para a Argentina, foi a que começou no México no fim de 1994 e em 1995. Na época, a Argentina tinha um crescimento de 6%, 7% ao ano. Depois da crise mexicana tivemos uma queda de 4 pontos, e uma fuga de capitais que chegou a 8 bilhões de dólares. Mas superamos aquela crise e hoje estamos preparados para situações parecidas. Agora, nesse episódio das bolsas, a Argentina tem mostrado muito vigor. O nosso crescimento, que estávamos calculando em mais de 8%, se manterá em 7%, o que é também muito significativo.

Veja O Brasil está em pior condição que a Argentina para superar a crise?

Menem Eu não digo: a Argentina vai superar a crise. Digo: nós vamos superá-la, juntos. Todo o Mercosul. É uma crise que nos encontra bem preparados. Temos economias sólidas, vigorosas, em pleno desenvolvimento. E, à medida que avançarmos em nosso projeto econômico de integração e consigamos aumentar os nossos recursos, essas crises não irão se repetir, tenho certeza.

Veja O senhor teme que haja uma desvalorização do real?

Menem Alguns setores da sociedade argentina, e também da brasileira, têm medo, sim. Mas eu, que tenho um contato muito intenso com o presidente Cardoso, não temo isso. Nunca temi. O presidente Cardoso me disse, há algum tempo, que o Brasil é uma fortaleza e que não haverá desvalorização do real. E, depois que começaram a crise e as pressões, ele me garantiu de novo que não haverá desvalorização do real.

Veja Mas alguns analistas da economia brasileira acham que a desvalorização do real terá de acontecer, mais cedo ou mais tarde.

Menem Eu não creio nisso. Se o Brasil tomasse essas medidas enfrentaria sérios problemas no futuro. Muitas vezes esses analistas, não todos, opinam de acordo com os interesses da empresa em que trabalham. Aqui no Brasil esse é um tema dos especuladores. É a eles que realmente interessa a desvalorização. Não ao trabalhador, que vai ver o seu salário perder valor instantaneamente se isso acontecer.

Veja Quais são as precauções que a Argentina está tomando para se proteger caso a desvalorização do real ocorra?

Menem Estou seguro de que não vai acontecer isso, nem penso. Mas, se acontecer, manteremos firme o nosso modelo, que está em vigência há oito anos. Não mexeremos em nosso projeto, mesmo sob fortes pressões. No nosso sistema cambial, para cada peso na rua tem de haver 1 dólar depositado no Banco Central. Isso é que dá uma segurança a nossa economia. Mas nós, presidentes, estamos expostos a muitas pressões e lobbies para desvalorizar as nossas moedas. Temos dito sempre que não. Vamos manter a situação atual até as últimas conseqüências. Em 1995, eu dizia a mesma coisa que o presidente Cardoso está dizendo agora: o importante nesses momentos de crise é o país, e não a repercussão eleitoral das medidas.

Veja O que fazer para evitar ataques especulativos?

Menem O que já estamos fazendo: ajustar as contas públicas, trocar informações, consolidar o Mercosul, crescer de forma conjunta para que nossas economias se fortaleçam. É pouco provável um ataque especulativo em economias fortes. Isso só acontece em economias muito débeis.

Veja Como o senhor explica a vitória da oposição nas eleições de outubro?

Menem Nas outras eleições, os da oposição eram totalmente contra o plano econômico e perderam. Criticavam o desemprego, que é o maior problema da Argentina hoje. Em 26 de outubro, eles apoiaram a política de estabilização e tiveram melhores resultados. Isso significa que o programa econômico foi aclamado com 92% dos votos. Essa é a razão do sucesso deles, claro. Há um mês, eram totalmente contra o programa.

Veja Esse não pode ser o caminho para o sucesso da oposição no Brasil?

Menem Não gostaria de opinar em assuntos internos do Brasil como esse, mas não há outro caminho para o Brasil que não seja reeleger o atual governo. Essa é a minha opinião, que não tem de ser a opinião da oposição.

Veja A aproximação da Argentina com os Estados Unidos, bem como o ingresso na Alca, é uma forma de fugir da dependência econômica do Brasil?

Menem Não acho que haja essa dependência da Argentina para com o Brasil. De zero a 10, a importância do Brasil para a Argentina é 10. Mas o que existe são relações muito boas, de excelente nível comercial. Há uma complementaridade em nossas economias que tende a se equilibrar. É assim no mundo todo. Com os Estados Unidos, por exemplo, acabamos de conseguir abrir o mercado para a nossa carne, que antes estava fechado por uma suspeita de febre aftosa. É um mercado extraordinário que se abre. A Alca também nos dará condições de competir em outras regiões do mundo, como a Europa. A Europa já está bem mais adiantada em seu processo de integração. Nós temos de nos preparar para poder competir com essas novas regionalizações. Em 1999, eles terão uma moeda comum, que é uma coisa que o Mercosul também deve fazer. E que pode derivar para uma moeda única em todo o continente.

Veja Mas a União Européia é um acordo entre países de economia parecida. Nas Américas, um bloco como a Alca não poderia facilitar a dominação do mercado continental pelos Estados Unidos?

Menem A Alca não significa dominação dos Estados Unidos sobre o resto dos países. Ela significa igualdade de oportunidades. Até para melhorarmos nossas potencialidades e competitividade precisamos manter o calendário já acertado. Essa é a proposta do Brasil, e é a minha proposta também.

Veja O senhor apóia a candidatura do Brasil para o Conselho de Segurança da ONU?

Menem Apoiamos é a ampliação do conselho de segurança e a inclusão de Japão e Alemanha. Essa também é a posição do Brasil. A diferença é que achamos melhor uma cadeira rotativa, que contemple a possibilidade de um revezamento entre México, Argentina e Brasil no conselho de segurança.

Veja O segundo mandato é mais difícil que o primeiro?

Menem Claro. A cobrança é maior, e nós temos de ser bem mais perfeccionistas. É preciso ter muito mais cuidado. No meu primeiro mandato estávamos dedicados a fazer um ajuste do Estado. A partir desse processo, podemos nos dedicar ao que o Estado realmente deve fazer. O que é o Estado? A definição mais fácil é: a nação, o povo juridicamente organizado. E o povo se organiza e faz leis para que o Estado possa lhe dar assistência em educação, justiça e saúde. Isso é essencial. Por esse motivo admiro o presidente Cardoso, que está cumprindo a primeira etapa dessa jornada, que é entregar a empresas privadas todos os serviços que não estão ligados a esses serviços essenciais do Estado. Devemos fazer isso. O presidente Cardoso está fazendo. Mas não é fácil. E temos de conseguir bons resultados. Mas ele (Fernando Henrique) está conseguindo. E ainda tem muito o que vender.

Veja Se pudesse voltar atrás, o que faria diferente: criaria mais empregos, investiria mais em educação e saúde?

Menem Eu precisava ajustar o Estado e por isso não adiantaria criar mais empregos nem investir mais sem criar condições de sustento para eles. Não faria nada diferente.

Veja Que conselho daria a Fernando Henrique, se eventualmente ele conquistar um segundo mandato?

Menem Que ele escolhesse muito bem os seus colaboradores, esse seria o conselho. Vou contar uma anedota: um dia, dois caçadores andavam pela floresta quando apareceu um urso muito grande. O mais magro correu mais, sem olhar para trás, e o mais gordo ficou pedindo ajuda ao amigo. Quando viu que estava sozinho e não dava para fugir, fingiu-se de morto. O urso veio, cheirou o gordo, e depois se foi. O caçador mais magro então voltou e perguntou: o que aconteceu, o que disse o urso? Ao que o gordo respondeu: me disse que é para tomar cuidado com os amigos que tenho. Acho que o presidente Cardoso deve selecionar muito bem sua equipe. Valorizar e manter quem lhe foi mais fiel no primeiro mandato. Porque, além da honestidade, a lealdade é o bem mais valioso nessas horas. Quem acompanhou Jesus Cristo ao calvário foram só os mais leais, e a partir deles nasceu o cristianismo.

Veja Por que o senhor, sua família e seus assessores abriram tantos processos contra a imprensa argentina?

Menem Nem todos os meus familiares e assessores têm processos contra a imprensa. Apenas alguns. Antes queria dizer que nunca nenhum governo argentino deu tanta liberdade, tanto direito de opinar à imprensa. Quando assumi, todas as TVs e rádios eram do Estado. Nós as vendemos. Mas o que deve fazer uma pessoa quando se sente atacada, ofendida? Tem de recorrer à Justiça. Se existe algum patrimônio político é a honra e a dignidade. Muitas vezes vejo contra mim e meus familiares ataques infundados, agressões sem limite. E ainda existem na Argentina sérios obstáculos a quem quer reparar sua honra. Uma lei diz que a pessoa só pode ser condenada por calúnia ou difamação se ficar provado que ela tinha uma má intenção. Por causa disso, o Estado já perdeu vários processos, e eu mesmo já perdi três contra jornais na Justiça.

Veja O senhor considera a imprensa de seu país irresponsável?

Menem Eu tenho como princípio que há responsabilidade na imprensa, mas toda regra tem exceções. E eu continuo lendo absolutamente todos os diários nacionais argentinos. Diariamente, às 7 horas da manhã, leio as notícias, as boas e as ruins para o governo, e as comento com meu secretário de imprensa. Leio também alguns artigos de jornais de outros países, até do Brasil.

Veja Como tem sido a sua vida depois do fim do casamento com Zulema?

Menem Totalmente dedicada ao trabalho e a minha filha Zulema. Como hobby, pratico esportes, como a partida de golfe que joguei em Brasília, ou acompanho os jogos do River Plate, meu time. Trago sempre em meu gabinete as fotos de minha filha e de meu filho, que faleceu em um acidente. Este relógio (mostra o relógio) era o que ele estava usando no dia do acidente. Agora sou eu que o uso, para lembrar dele.

Veja O senhor gostaria de disputar um terceiro mandato presidencial?

Menem Eu quero um terceiro mandato. Pretendo disputar as eleições presidenciais de 2003.




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