BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
Publicidade
REVISTAS
VEJA
Edição 2087

19 de novembro de 2008
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
SEÇÕES
Carta ao Leitor
Entrevista
Claudio de Moura Castro
Leitor
Millôr
Blogosfera
PANORAMA
Imagem da Semana
Holofote
SobeDesce
Conversa
Números
Datas
Radar
Veja Essa
 

Roberto Pompeu de Toledo
Black is beautiful, fase 2

"A menina negra brasileira a partir de agora verá no Jornal Nacional as pequenas Malia e Sasha e – milagre – não sentirá, a rebaixá-la, a diferença de cor"

A eleição de Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos pode ser entendida, entre outras coisas, como a fase 2 do "black is beautiful", o movimento de orgulho negro com origem no programa libertário dos anos 1960. A essa luz, é uma revolução no gosto o que a presença de um negro na Casa Branca prenuncia. Claro que, se foi preciso surgir um movimento enfatizando que "negro é bonito", é porque negro era feio. Além de um ser inferior, conforme as doutrinas racistas, era também um erro, sob o ponto de vista estético. Não se veria filme de Hollywood estrelado por uma diva negra, nem anúncio em que o produto fosse recomendado por um galã negro. A fase 1 do "black is beautiful" insurgia-se contra esse estado de coisas. Na fase 2 a estratégia é outra e outros são os objetivos, mas a possibilidade de abalar a hegemonia da estética branca é maior.

Este é um assunto com o qual o Brasil, como país de maior população negra fora da África, tem muito a ver. Como tantas outras coisas, o Brasil abraçou desde sempre os códigos do gosto formulados nas matrizes americanas e européias. O resultado eram perversidades cujo efeito, à falta de uma expressão concreta, dá apenas para imaginar. Suponha-se uma menina negra que se encantasse com a mocinha da novela, ou o menino negro que admirasse a coragem do mocinho do filme. Entre eles e seus heróis havia, a rebaixá-los, e fazer com que se sentissem exilados do mundo do glamour, a diferença de cor. O desterro cultural dos negros vinha de longe. Em A Escrava Isaura, clássico da literatura brasileira de 1875 tido como um libelo contra a escravidão, a heroína-título é branca. Tudo bem o autor, Bernardo Guimarães, insurgir-se contra a escravidão; já se apresentasse a escrava como negra teria rompido a fronteira do bom gosto.

O "black is beautiful", em sua primeira encarnação, teve sucesso parcial. São resultados dele filmes de Hollywood com atores negros (embora raramente, talvez nunca, o casal romântico), modelos negras nas passarelas, apresentadores negros na TV americana. O Brasil foi atrás. Mas o movimento ancorava-se na afirmação negra pela diferença, não pela igualdade. Seu ponto de honra era a trancinha rastafári. Seu ideal de sociedade, uma utopia situada em algum ponto entre o socialismo e a fantasia regressista de uma África onde um dia todos foram bons e iguais. Por isso mesmo, o primeiro "black is beautiful" encontrou seu limite; sua opção fora pela marginalidade.

Esta fase 2, encarnada por Obama, tem como principal característica a renúncia à marginalidade. Obama chega sem trança rastafári e sem utopias. É no centro do sistema que vai operar. E é no centro do centro do centro, ou seja, a residência/escritório conhecida como Casa Branca, que o mundo verá alocada a função a ser protagonizada pelo casal negro Barack e Michelle Obama, pelas filhas negras Malia Ann e Natasha ("Sasha") e, eventualmente, por irmãos, pais, cunhados, primos e outros parentes negros do casal. Desde John Kennedy, não há família presidencial que chame mais atenção. O primeiro "black is beatiful" de certo modo coonestava a fórmula "iguais mas separados" em que se assentava a discriminação legal nos EUA. Os negros queriam se impor por modas, costumes e valores próprios. O "black is beautiful", fase 2, ataca pelo lado oposto. A família Obama apresenta-se como igual a todas as famílias americanas de classe média bem-sucedidas, só que negra.

A feição que a revolução do gosto assume com Obama é fruto de sua estratégia política. Decorre do fato de ele se ter recusado a concorrer como "candidato dos negros". Nem por isso tem menor potencial transformador, nos EUA como no Brasil e no resto do mundo. No Brasil, sempre atrasado, ainda faltam negros não só no centro do poder. Sua ausência é mais notória ainda nos melhores bairros (a não ser como empregados), nos melhores restaurantes, nos melhores shopping centers (nos dois casos, até mesmo como empregados), nas festas e recepções da classe média para cima, na própria classe média. Mas a menina negra brasileira a partir de agora verá no Jornal Nacional as pequenas Malia e Sasha e – milagre – não sentirá, a rebaixá-la, a diferença de cor. Não é pouca coisa.

 



Publicidade
 
Publicidade

 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |