Tanto no fascínio
quanto na infelicidade, a vida de Georgiana, duquesa de Devonshire,
lembra a de sua descendente mais célebre Diana,
que todos os ingleses, à exceção do marido,
adoravam
Isabela Boscov
Fotos
Divulgação
UM CASAL DE TRÊSFiennes e Keira, como o
duque e a duquesa, no casamento realizado em 1774: ela
teria de dividir
a cama e a mesa do marido com a melhor amiga
Georgiana Spencer
era tão ingênua que se casou com o quinto duque
de Devonshire acreditando que ele estava apaixonado por ela.
Em poucos meses de casamento, a bela, audaciosa e espirituosa
Georgiana de fato efetuou uma conquista memorável:
deixou toda a Inglaterra caída de amores por ela. A
duquesa era um ícone, e qualquer vestido ou adereço
que usasse num dia era imediatamente copiado no outro. Era
tão sociável quanto seu marido era taciturno
e, com seu charme e vontade de aparecer, inclusive
em comícios, fez mais por levar ao poder seus amigos
da oposição progressista (progressista nos termos
do século XVIII, entenda-se), durante as décadas
em que os apoiou, do que o dinheiro com que o duque os financiava.
Em seus vastos salões (o casal era podre de rico),
ela reunia todo o quem-é-quem do período, e
nenhuma festa valia se ela não estivesse presente.
Georgiana, enfim, era uma dessas figuras nascidas para ofuscar.
E também para ser infeliz, num paralelo cheio de coincidências
com sua descendente mais célebre Diana Spencer,
a princesa de Gales. Um paralelo que A Duquesa(The Duchess, Inglaterra, 2008), que estréia
nesta sexta-feira no país, reconhece, mas não
força. O diretor inglês Saul Dibb prefere reconstituir
os fatos dispostos na premiada biografia da historiadora Amanda
Foreman e tirar deles um comentário sobre uma situação
paradoxal: a da mulher que tem poder com o casamento, mas
não dentro dele.
IMITADA E FESTEJADA
Georgiana em seu retrato mais famoso, dos anos 1780: aristocratas
e plebéias em peso copiavam as modas que ela lançava,
como o chapelão e a cabeleira
Como Diana, a duquesa
tentou em vão conquistar o marido, que até o
fim permaneceria imune aos seus encantos e irritado com sua
natureza carente. Keira Knightley, que vai aprendendo e melhorando,
usa sua leveza quase excessiva em favor da personagem: quanto
mais a duquesa borboleteia, mais o duque se retrai. Fantástico
no papel, Ralph Fiennes saúda tanto as tentativas de
sedução quanto de admoestação
da mulher com um "hmmmm" que contém quantidades
infinitas de incompreensão (o duque era conhecido por
uma certa estultice) e de reprovação. Georgiana
deve ter ouvido um sem-número de "hmmms":
por torrar fortunas nas mesas de jogo e em roupas nas quais
cabia graças a uma moderníssima bulimia (que
o filme não cita) e por ter demorado dezesseis anos
até produzir um herdeiro homem. Tendo levado sua melhor
amiga para morar com ela, viu-se impotente enquanto ela a
suplantava num humilhante ménage à trois
que lembra, claro, aquele que Charles e Diana compuseram com
Camilla Parker-Bowles.
Também como Diana, Georgiana
tinha fantasias românticas que excediam a função
de reprodutora designada para ela. Louca pelo parlamentar Charles
Grey, que depois se tornaria primeiro-ministro (além
de nome de chá, o Earl Grey), teve com ele uma filha.
O duque exilou-a por dois anos e ameaçou tirar-lhe os
filhos para sempre. Georgiana, naturalmente, renunciou a Grey
e agüentou o que tinha de agüentar até sua
morte, aos 48 anos, em 1806. Se A Duquesa falha em um
aspecto, é em não penetrar o tumulto emocional
que se desenrolava por trás das aparências que
esses personagens mantêm a todo custo. Mas pode-se argumentar
também que é aí que está sua grande
qualidade: em observar que, para pessoas nas circunstâncias
do duque e da duquesa, a vida é necessariamente um teatro.
E que o problema, como Diana descobriria, não é
o século em que a peça transcorre é
o papel que se tem nela.