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Edição 2087

19 de novembro de 2008
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SÓ MUDA O SÉCULO

Tanto no fascínio quanto na infelicidade, a vida de Georgiana, duquesa de Devonshire, lembra a de sua descendente mais célebre – Diana, que todos os ingleses, à exceção do marido, adoravam


Isabela Boscov

Fotos Divulgação
UM CASAL DE TRÊS Fiennes e Keira, como o duque e a duquesa, no casamento realizado em 1774: ela teria de dividir
a cama e a mesa do marido com a melhor amiga

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Georgiana Spencer era tão ingênua que se casou com o quinto duque de Devonshire acreditando que ele estava apaixonado por ela. Em poucos meses de casamento, a bela, audaciosa e espirituosa Georgiana de fato efetuou uma conquista memorável: deixou toda a Inglaterra caída de amores por ela. A duquesa era um ícone, e qualquer vestido ou adereço que usasse num dia era imediatamente copiado no outro. Era tão sociável quanto seu marido era taciturno – e, com seu charme e vontade de aparecer, inclusive em comícios, fez mais por levar ao poder seus amigos da oposição progressista (progressista nos termos do século XVIII, entenda-se), durante as décadas em que os apoiou, do que o dinheiro com que o duque os financiava. Em seus vastos salões (o casal era podre de rico), ela reunia todo o quem-é-quem do período, e nenhuma festa valia se ela não estivesse presente. Georgiana, enfim, era uma dessas figuras nascidas para ofuscar. E também para ser infeliz, num paralelo cheio de coincidências com sua descendente mais célebre – Diana Spencer, a princesa de Gales. Um paralelo que A Duquesa (The Duchess, Inglaterra, 2008), que estréia nesta sexta-feira no país, reconhece, mas não força. O diretor inglês Saul Dibb prefere reconstituir os fatos dispostos na premiada biografia da historiadora Amanda Foreman e tirar deles um comentário sobre uma situação paradoxal: a da mulher que tem poder com o casamento, mas não dentro dele.

IMITADA E FESTEJADA Georgiana em seu retrato mais famoso, dos anos 1780: aristocratas e plebéias em peso copiavam as modas que ela lançava, como o chapelão e a cabeleira

Como Diana, a duquesa tentou em vão conquistar o marido, que até o fim permaneceria imune aos seus encantos e irritado com sua natureza carente. Keira Knightley, que vai aprendendo e melhorando, usa sua leveza quase excessiva em favor da personagem: quanto mais a duquesa borboleteia, mais o duque se retrai. Fantástico no papel, Ralph Fiennes saúda tanto as tentativas de sedução quanto de admoestação da mulher com um "hmmmm" que contém quantidades infinitas de incompreensão (o duque era conhecido por uma certa estultice) e de reprovação. Georgiana deve ter ouvido um sem-número de "hmmms": por torrar fortunas nas mesas de jogo e em roupas nas quais cabia graças a uma moderníssima bulimia (que o filme não cita) e por ter demorado dezesseis anos até produzir um herdeiro homem. Tendo levado sua melhor amiga para morar com ela, viu-se impotente enquanto ela a suplantava num humilhante ménage à trois que lembra, claro, aquele que Charles e Diana compuseram com Camilla Parker-Bowles.

Também como Diana, Georgiana tinha fantasias românticas que excediam a função de reprodutora designada para ela. Louca pelo parlamentar Charles Grey, que depois se tornaria primeiro-ministro (além de nome de chá, o Earl Grey), teve com ele uma filha. O duque exilou-a por dois anos e ameaçou tirar-lhe os filhos para sempre. Georgiana, naturalmente, renunciou a Grey e agüentou o que tinha de agüentar até sua morte, aos 48 anos, em 1806. Se A Duquesa falha em um aspecto, é em não penetrar o tumulto emocional que se desenrolava por trás das aparências que esses personagens mantêm a todo custo. Mas pode-se argumentar também que é aí que está sua grande qualidade: em observar que, para pessoas nas circunstâncias do duque e da duquesa, a vida é necessariamente um teatro. E que o problema, como Diana descobriria, não é o século em que a peça transcorre – é o papel que se tem nela.

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