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Economia Na atual crise, a falta de previsões confiáveis é quase tão nociva para empresas e consumidores quanto a ausência de crédito
Dois conjuntos de estatísticas medem o impacto das crises sobre a vida das pessoas e empresas. O primeiro, panorâmico, diz respeito à economia como um todo. Mostra o desempenho da inflação, do desemprego, do consumo e do PIB. Na última quinta-feira, por exemplo, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) reconheceu que seus trinta países-membros os mais ricos do mundo entraram em recessão. Já as vendas no varejo americano caíram 2,8% em outubro, a maior queda mensal desde que os números começaram a ser recolhidos, em 1992. A outra classe de dados expõe mais diretamente o comportamento dos consumidores e dos negócios. E é justamente dela que saem indicadores tão assustadores quanto os três que seguem: a montadora sueca Volvo recebeu pedidos de apenas 115 caminhões pesados em toda a Europa entre julho e setembro, 99,7% abaixo dos 41 970 do mesmo período do ano passado; a multinacional de entregas DHL prevê que o volume diário de encomendas movimentadas nos Estados Unidos cairá de 1,5 milhão para 100 000; a Starbucks viu seu lucro evaporar-se de 158,5 milhões de dólares para ínfimos 5,4 milhões no quarto trimestre em relação ao mesmo período do ano passado. Em meio a esse festival de horror financeiro, os consumidores e as empresas brasileiras tentam enxergar um horizonte. E não está fácil. Até setembro, o emprego e a renda dos brasileiros continuavam crescendo, em um indício de que o país, ainda que viesse a sofrer os efeitos da crise, resistiria a ela. Essa sensação chegou a ser reforçada por empresas como a Fiat, a Unilever e a Nestlé, que, a despeito do agravamento da crise, mantiveram seus ambiciosos planos de investimento no país. O vice-presidente de assuntos corporativos da Unilever, Luiz Carlos Dutra, disse que a turbulência não é linear e afeta cada setor de forma diferente: "Temos dados que comprovam que as companhias que continuam investindo em tempos de crise saem mais fortalecidas quando a situação melhora". Declarações no mesmo sentido vieram da Nestlé e da Fiat. O presidente da Nestlé, Ivan Zurita, anunciou que a empresa realizará duas aquisições até o fim do ano e que todos os investimentos serão mantidos no Brasil, o segundo maior mercado em volume da companhia depois dos Estados Unidos. "Claro que precisamos assumir uma nova realidade. Mas não podemos curtir a crise. Somos competitivos e precisamos continuar assim."
O governo reagiu a esses acontecimentos com medidas ousadas para estimular o crédito. Na quarta-feira da semana passada, a Caixa Econômica Federal ofereceu um crédito de 2 bilhões de reais a varejistas dos setores de eletrodomésticos, eletrônicos, móveis e materiais de construção. Antes da Caixa, no começo deste mês, o Banco do Brasil e a Nossa Caixa (do governo de São Paulo) já haviam anunciado 4 bilhões de reais, cada um, para fortalecer as financeiras e os bancos de montadoras. O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Jackson Schneider, espera que a intervenção dos bancos públicos permita uma recuperação do setor. As vendas de carros no país caíram em outubro. É a primeira vez que isso ocorre desde 2006. "Essas medidas trazem uma expectativa positiva. Espero que o ritmo de vendas volte aos patamares de setembro e agosto", disse ele.
Devido à sua dependência do crédito, a indústria automobilística é uma das que mais sofrem, no mundo, os efeitos da crise financeira. No caso mais grave, a General Motors americana anunciou não ter dinheiro necessário para continuar suas operações no primeiro semestre de 2009. "Já fizemos os cortes possíveis. Cortamos até o osso. Sem ajuda do governo não vamos conseguir operar nos primeiros seis meses de 2009", disse o presidente da companhia, Frederick Henderson, ao informar os resultados do terceiro trimestre. As ações da GM estão no menor patamar em 65 anos. A japonesa Nissan planeja demitir 40% dos trabalhadores de sua fábrica em Barcelona, eliminando um total de 1 680 empregos. "A crise teve um profundo impacto sobre o conjunto de nossa indústria", justificou em comunicado o presidente da Nissan e da Renault, o brasileiro Carlos Ghosn. Desde a quebra do banco de investimentos americano Lehman Brothers, em setembro passado, convencionou-se eleger a falta de crédito como a maior ameaça à economia brasileira e à dos demais países emergentes. É possivelmente verdade. Mas está cada vez mais difícil prever o que vai acontecer nos negócios e no consumo, em horizontes cada vez mais curtos. E esse fator é igualmente grave. Ao menos para os investimentos, a imprevisibilidade causa tantas seqüelas quanto a falta de crédito. Nunca foi tão difícil vislumbrar um próspero ano novo.
com a colaboração de Cíntia Borsato
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