Entrevista Mikhail
Gorbachev
Por uma glasnost global
O
último presidente soviético ensaia seu retorno
à política
russa desta vez, na oposição e diz que
o mundo
todo sofre de um déficit de lideranças

Antonio
Ribeiro, de Paris
| Meigneux/Sipa
 |
"O
planeta necessita de uma nova visão política para ajustar os mecanismos de cooperação
existentes entre as nações" |
A
Biblioteca do Congresso americano, a maior do mundo, dispõe de mais de
250 livros sobre a vida e a obra de Mikhail Sergeyevich Gorbachev. A abundância
de títulos reflete o fascínio despertado pelo estadista que desempenhou
papel central no fim da Guerra Fria e no colapso do comunismo. Sexto e último
dos sucessores de Lenin, Gorbachev governou a União das Repúblicas
Socialistas Soviéticas entre 1985 e 1991, quando o império comunista
desmoronou. Ao assumir o poder, tinha como principais objetivos ressuscitar a
economia e revitalizar o regime soviético. Esses esforços foram
sintetizados em dois programas de reforma: a glasnost (transparência), que
permitiu maior liberdade de expressão, e a perestroika (reestruturação),
a tentativa de modernizar o sistema econômico. Sobretudo por ter posto fim
ao domínio soviético na Europa Ocidental, Gorbachev ganhou o Prêmio
Nobel da Paz de 1990. Desde que perdeu o poder, ele se dedica a causas sociais
e ecológicas. Logo após a Eco 92, fundou a Cruz Verde Internacional,
organização ambientalista com representação em mais
de trinta países, incluindo o Brasil. No momento, ele prepara sua volta
à política. Dois meses atrás anunciou a criação,
em parceria com o bilionário Alexander Lebedev, do Partido Democrático
Independente, agremiação de oposição. Aos 77 anos,
Mikhail Gorbachev será a estrela de um ciclo de palestras sobre sustentabilidade,
promovido pela Cruz Verde Internacional em Belo Horizonte, entre 26 e 28 de novembro.
Ele deu a seguinte entrevista a VEJA.
O
senhor foi nomeado membro do Comitê Central do Partido Comunista da União
Soviética em 1971. Em 2007, as revistas publicaram um anúncio das
bolsas Louis Vuitton com uma foto em que o senhor aparece próximo aos vestígios
do Muro de Berlim. Em 36 anos, o mundo mudou um pouco, e o senhor deu uma grande
contribuição para essa transformação. Qual é
a diferença entre o homem Mikhail Gorbachev de antes e o atual?
Ainda
sou a mesma pessoa que era antes. A única diferença é que
o que aprendi e vivi desde então modificou quem sou hoje. Um de meus aprendizados
foi um princípio simples: coloque em prática as suas convicções.
Louis Vuitton lançou essa campanha, da qual a minha propaganda faz parte,
em defesa da luta pelo meio ambiente. Essa propaganda serviu para contribuir com
os esforços mundiais nessa área e para apoiar a Cruz Verde Internacional,
organização que eu fundei. Não a vejo como uma propaganda,
mas um passo natural na promoção de uma agenda importante, a da
ação contra a degradação ambiental.
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| "A democracia
é tanto um valor quanto um instrumento político. Como valor, é universal. Como
instrumento, deve ser ajustada a cada país. Há uma versão americana, uma francesa
e outra japonesa. A Rússia precisa desenvolver seu próprio modelo de democracia
" |
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É correta a tese de que o senhor
promoveu a glasnost e a perestroika apenas para corrigir os erros do sistema soviético,
mas não destruí-lo?
A coisa mais importante, tanto para o
ser humano quanto para os países, é não mentir para si próprio.
É por isso que nós precisamos da glasnost e da perestroika. São
duas ferramentas para uma discussão aberta sobre nossa situação
atual, são instrumentos para abrir os olhos e a mente das pessoas, para
que elas estejam abertas à mudança. Precisamos de uma glasnost global
para alinhar os interesses políticos, internacionais, nacionais e da sociedade
civil para responder aos desafios e problemas do mundo.
Em
1996, o senhor se candidatou à Presidência da Rússia, mas
recebeu menos de 1% dos votos. Como o senhor explica o fato de gozar de muito
mais popularidade no exterior do que em seu país?
Não me
arrependo de minha candidatura. Em 1996, como candidato, tive a oportunidade de
discursar em 22 regiões da Rússia e de expor minha opinião
à população. Quanto aos resultados da eleição,
eles foram duvidosos. Houve evidências de fraude. O regime de Ieltsin havia
cortado o meu acesso à mídia. Em 2005, quando celebramos o vigésimo
aniversário da perestroika, uma pesquisa feita no país mostrou que
metade da população apoiava a implementação da perestroika
e 53% avaliavam positivamente as ações do presidente da União
Soviética.
Como o senhor
avalia os líderes de seu período de governo, como Ronald Reagan,
Margaret Thatcher, Helmut Kohl e François Mitterrand? E como o senhor avalia
os que vieram depois: Bill Clinton, George W. Bush e Tony Blair? O que o senhor
tem a dizer sobre Angela Merkel, Nicolas Sarkozy e Barack Obama?
Tive a
sorte de ter colegas em muitos países que estavam prontos e aptos a liderar
os desafios que enfrentamos na época. Sem a parceria deles, não
teria sido possível acabar com a Guerra Fria e fazer a transição
para um novo mundo. As gerações seguintes de líderes tiveram
de lidar com múltiplos problemas de natureza distinta. As políticas
atuais estão sendo deixadas para trás pelo ritmo das mudanças
globais. Realmente temos um déficit de lideranças. O planeta precisa
de uma nova visão política, compatível com os desafios inéditos
e capaz de ajustar os mecanismos de cooperação internacional existentes.
Quem comanda a Rússia
atualmente? Vladimir Putin ou o sucessor dele, Dimitri Medvedev?
De acordo
com a Constituição da Rússia, o presidente é o chefe
de estado. Mas não acho que seja produtivo comparar o presidente e o primeiro-ministro.
Por sorte, eles trabalham em equipe.
Recentemente,
o senhor criticou a visão do Ocidente a respeito da disputa entre a Rússia
e a Geórgia pelo enclave separatista da Ossétia do Sul. Em um artigo
para o jornal New York Times, o senhor escreveu que "a Rússia
foi arrastada para a briga pela imprudência do presidente da Geórgia",
Mikhail Saakashvili. O que há de novo nos conflitos armados da Rússia?
Já
falei o suficiente à imprensa mundial sobre esse assunto. Minhas opiniões
não mudaram e, a julgar pela sua pergunta, você parece já
estar familiarizado com elas.
O
que significa democracia para os russos, em comparação com a noção
ocidental de democracia?
A democracia é tanto um valor quanto um
instrumento político. Como um valor, é universal. Mas, como instrumento
político, trata-se de um conceito que deve ser ajustado por país,
de acordo com sua história, suas tradições e a mentalidade
de seu povo. Há uma versão americana de democracia, uma versão
francesa, outra japonesa e, talvez, no futuro, tenhamos uma versão chinesa.
A Rússia também precisa desenvolver seu próprio modelo de
democracia. O país está no meio, talvez ainda no início desse
processo. Para responder à sua pergunta, vou repetir uma resposta que dou
aos americanos sempre que sou questionado sobre esse assunto: "Sinto-me lisonjeado
em saber que você acha que podemos fazer em 200 dias o que os Estados Unidos
levaram 200 anos para alcançar".
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| "Raíssa
foi parte de minha vida, se não minha própria vida, por quase cinqüenta anos.
Hoje, sinto falta do sentimento de apoio e compreensão que tive enquanto estivemos
juntos. Reitero o dogma cristão de que ‘é o amor que conduz a vida’ na Terra |
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Podemos imaginar um dia em que a igreja,
os partidos políticos e a imprensa serão menos servis e dependentes
em relação ao poder central na Rússia? Há esperança
de que a elite liberal da Rússia fale em nome dos oprimidos por um estado
autocrático? Alexander Soljenitsin disse que os intelectuais russos são
pessoas que possuem apenas diplomas, bons empregos, privilégios e conforto.
Fico
surpreso em perceber como a Rússia é freqüentemente vista em
preto-e-branco. Viaje para a Rússia, fique lá um tempo e você
verá que existem partidos políticos independentes e uma imprensa
livre. Ainda há muito espaço para melhorar, pois romper com o passado
é uma tarefa longa. Também não aceito nem concordo com a
definição que você deu dos intelectuais russos. Muitos deles
pavimentaram o caminho para as reformas e pagaram com sua liberdade, e
até com a vida, por isso. Afinal de contas, o próprio Alexander
Soljenitsin foi parte da elite intelectual russa, assim como o foram Andrei Sakharov
e tantos outros.
Os oligarcas
e a máfia são apenas um fenômeno do princípio do capitalismo
na sociedade russa ou um padrão histórico que está aí
para ficar?
Esse é um grande problema para nós. Trata-se
de uma herança do fim das "reformas" de Ieltsin, que criaram
um alto nível de corrupção, que, por sua vez, se tornou um
obstáculo enorme ao desenvolvimento da Rússia. Suas raízes
estão na forma como as privatizações ocorreram no país.
Elas foram feitas levando em conta apenas os interesses de alguns grupos poderosos
e relegando a maior parte da população à pobreza. Mas tenho
certeza de que com a continuação dessas reformas poderemos controlar
essa situação.
Como
o Ocidente poderia melhorar seus laços econômicos com a Rússia,
sobretudo as economias emergentes de rápido crescimento, como o Brasil?
A
crise financeira atual não apenas estilhaçou a base da economia
internacional como revelou a fraqueza do atual modelo de desenvolvimento baseado
no liberalismo econômico ultra-radical e na ideologia do Consenso de Washington.
Não há dúvidas de que precisamos de medidas urgentes de estabilização,
mas o mais importante é mudar o próprio sistema. O modelo econômico
deveria estar focado nas necessidades do povo, no bom funcionamento dos negócios,
nas preocupações ambientais, na mitigação das diferenças
sociais e nas medidas decisivas para combater a pobreza. Rússia e Brasil,
duas grandes nações, têm enorme potencial na formação
dessa nova agenda. Nós precisamos nos concentrar na agenda que está
realmente conectada com as necessidades humanas e com os desafios que temos pela
frente: a água, a energia renovável e o aquecimento global.
Em 2006, o senhor se associou ao bilionário
e deputado russo Alexander Lebedev para comprar metade do jornal independente
Novaya Gazeta, conhecido por sua disposição de desafiar as
políticas do Kremlin. Em setembro, foi anunciado que o senhor e Lebedev
estão criando um novo partido, o Democrático Independente, que deverá
estrear nas eleições para a Duma em 2011. O senhor também
é fundador da Cruz Verde Internacional, uma organização ambientalista
com filiais em mais de trinta países, incluindo o Brasil. Quais são
os seus principais interesses?
Não podemos colocar tudo no mesmo
saco. Eu fundei a Cruz Verde Internacional, a Fundação Gorbachev,
o Fórum Político Mundial e o Encontro Internacional de Laureados
com o Nobel da Paz. Estou feliz por ser capaz de contribuir para tentar fazer
do mundo um lugar melhor. Sendo um cidadão russo, porém, não
posso depreciar a importância da política de meu país. Acredito
que o sistema político atual da Rússia é "manco de um
pé", pois carece de um necessário elemento centrista. Espero
que o Partido Democrático Independente, que nós pretendemos criar,
possa preencher essa lacuna e abrir o caminho para as gerações mais
jovens aderirem ao processo político.
Suas
lembranças costumam começar com a frase "Raíssa e eu",
uma referência à sua falecida esposa, Raíssa Gorbachev. O
senhor poderia descrever qual a importância da força do amor por
trás da missão política?
Raíssa foi parte de
minha vida, se não minha própria vida, por quase cinqüenta
anos. Nossa vida não foi idílica, mas posso afirmar que tive duas
forças sustentando minhas escolhas políticas e o desenvolvimento
de minha personalidade: Raíssa e a Universidade de Moscou. Hoje, obviamente,
sinto falta desse sentimento de apoio e compreensão que tive enquanto estivemos
juntos. Reitero o dogma cristão de que "é o amor que conduz
a vida" na Terra.
O
senhor afirmou uma vez que não foi um líder por acaso. Como o senhor
quer que seu lugar na história seja lembrado no futuro?
A história
é uma dama imprevisível. Não quero irritá-la, portanto
vamos deixar essa pergunta para ela mesma responder.