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19 de novembro de 2008
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André Petry (colunadopetry@abril.com.br)
Fim da moral que mata

"Eleitores do Colorado votaram proposta
que previa incluir na Constituição estadual
que um óvulo fertilizado equivalia a uma
pessoa: 73,3% rejeitaram a idéia"

Uma grande notícia ficou escondida debaixo da vitória de Barack Obama – é o começo do fim da moral que mata.

Obama prometeu em campanha, e reafirmou depois da eleição, que vai revogar as restrições impostas por Bush às pesquisas com células-tronco embrionárias, nas quais repousam as melhores esperanças de alívio e até de cura de doenças como diabetes, Alz-heimer e Parkinson. Bush proibiu o uso de dinheiro público para financiar essas pesquisas sob o argumento de que, ao destruir embriões, elas matam seres humanos. Bush é da opinião que óvulo e gente se equivalem.

Nos Estados Unidos, quem melhor representa essa corrente são os radicais da direita cristã. Eles defendem o absolutismo moral, religião infecciosa segundo a qual a moral não comporta exceção. Se eles são contra o aborto, o serão em qualquer situação, mesmo no caso da menina de 13 anos que engravida ao ser estuprada pelo próprio pai. O absolutismo moral é o que leva, como no caso das pesquisas com embriões, à defesa da moral que mata. Mata portadores de doenças incuráveis e fatais. Mata gente para preservar óvulo. Eles chamam essa obtusidade de firmeza.

A eleição de Obama é um sinal de que as coisas podem mudar. Os eleitores do estado do Colorado, além de escolher o presidente, votaram a Proposição 48, que previa incluir na Constituição estadual que um óvulo fertilizado é igual a uma pessoa – o que implicaria enormes restrições ao aborto e às pesquisas com embriões. Resultado: 73,3% rejeitaram a idéia. No estado de Michigan, a Proposição 2 removia restrições às pesquisas com células-tronco de embriões. A proposta passou por 52,6% contra 47,4%, placar mais apertado que a aprovação do uso medicinal da maconha (62,6% a 37,4%).

Conversei por telefone com Amy Comstock Rick. Ela comanda a Parkinson’s Action Net-work, entidade que representa os portadores da doença nos EUA (são 1 milhão; 60 000 novos casos são diagnosticados por ano) e, nessa condição, foi escolhida para presidir a Coalition for the Advancement of Medical Research, guarda-chuva de uma centena de órgãos que defendem o avanço da pesquisa e da tecnologia na medicina. Amy Rick está otimista com os novos tempos. Sobretudo com a saída de Bush.

"A oposição mais forte às pesquisas com células-tronco embrionárias", diz ela, "não vem do governo Bush, vem da pessoa do presidente. Bush é pessoalmente contra." Estaria Bush representando a maioria dos americanos? "Não. Três quartos dos americanos apóiam as pesquisas com embriões."

A normalização da pesquisa nos EUA, meca do dinheiro, do estudo e da tecnologia, será uma grande notícia para todos os cidadãos do mundo, doentes e sadios, incluindo os absolutistas morais que lutam para barrar a ciência e, um dia, vão se beneficiar dos seus avanços. Dos avanços, como se diria no vernáculo deles, da imoralidade que salva.



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