Ponto
de vista: João Mellão Neto
Você
também é liberal
"Ser
liberal é compreender que a solidariedade
será sempre inócua enquanto se fizer pelos
outros o que eles podem fazer por si próprios"
Eu
sou e sempre fui um liberal. De origens que remontam a Locke e Thomas
Jefferson, o liberalismo vem nascendo, morrendo, mas sempre ressurgindo
na sociedade há mais de 200 anos. Por vezes ele sucumbe às
tentações totalitárias, como o comunismo ou
o fascismo. Mas sempre renasce, cada vez mais forte, quando as ilusões
e utopias se desvanecem. Por que ele está sempre de volta?
Talvez porque seja o único conjunto de idéias que
condiz com o espírito e a dignidade do ser humano.
Ilustração Ale Setti
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Ser liberal é repudiar a esquerda e a direita. Se imaginarmos
o espaço ideológico como um triângulo, teremos
em um vértice a esquerda, em outro a direita e no terceiro
o liberalismo. A direita é conservadora, imobilista e aferrada
aos privilégios. A esquerda, por sua vez, defende um Estado
onipresente, que comanda a sociedade e dita as regras da convivência
humana. O liberalismo não é de direita, porque não
teme a inovação e o progresso e abomina os privilégios,
e refuta a esquerda, porque entende que os direitos dos indivíduos
estão acima das imposições do Estado.
Você
talvez seja um liberal sem nunca se ter dado conta disso. Transcrevo,
a seguir, uma compilação de idéias liberais,
em que procurei resumir todos os princípios que regem a visão
de mundo do liberalismo. Se você, leitor, concordar com tudo
o que é dito a seguir, é porque, mesmo sem o saber,
é um liberal também. E não há por que
envergonhar-se disso.
O
CREDO LIBERAL
Ser liberal é, sobretudo, jamais temer a liberdade; é
acreditar no homem; é saber que, no âmago de cada um,
reside uma usina de força, uma energia divina à espera
de ser despertada.
É
apostar no indivíduo; crer na sua capacidade de, por si só,
reformar o mundo, melhorando-o, não só para si mas
também para seus semelhantes e seus descendentes.
Ser liberal é compreender que os direitos de cada indivíduo
não são concedidos pela sociedade nem outorgados pelo
Estado; são, isso sim, sagrados, emanados das mãos
de Deus.
Ser liberal é entender que a real liberdade não é
apenas a liberdade política; que esta só se torna
plena quando acompanhada da liberdade econômica.
É
defender que o mesmo direito de escolha que o homem, como cidadão,
consuma pelo voto não lhe pode ser vedado como produtor
e consumidor exercê-lo pelo mercado.
Ser liberal é saber que somente pela livre opção
dos consumidores, como pela livre concorrência entre os produtores,
é que se dá o verdadeiro progresso, obtido com produtos
e serviços cada vez melhores, oferecidos a preços
cada vez mais baixos.
É
vedar ao Estado o direito de estabelecer monopólios, criar
reservas de mercado ou outorgar privilégios a quem quer que
seja, sob qual pretexto for.
Ser liberal é respeitar os cidadãos no seu direito
à propriedade de todos os bens que, honestamente, amealharam.
É
proteger a propriedade de cada um da sanha de todos; é proteger
a propriedade de todos da sanha de cada um.
Ser liberal é compreender que a solidariedade será
sempre inócua enquanto se fizer pelos outros o que eles podem
fazer por si próprios.
É
auxiliar os fracos, socorrer os aflitos, mas jamais perder de vista
que só se dá uma ajuda efetiva quando os ajudamos
a se ajudarem.
Ser liberal é defender intransigentemente a igualdade. Não
como a padronização dos costumes ou o nivelamento
das rendas.
É
saber que a verdadeira igualdade é, isso sim, a igualdade
de oportunidades. E esta só se dá pelo acesso garantido
a todos, sem discriminações, a serviços eficientes
de educação, saúde, segurança e justiça.
Ser liberal não é pregar o fim do Estado nem sequer
enfraquecê-lo. É defender que ele seja forte e eficaz,
porque concentrado nessas suas básicas funções.
Pois
é somente através dessas garantias que o homem se
torna um cidadão, preparado e capacitado a desenvolver-se
em seus potenciais.
Ser liberal, por fim, é acreditar que não se louva
a Deus apenas pela prece, mas também pelo esforço
de cada um para construir um mundo melhor.
Pois
a verdadeira fé não se manifesta apenas pelos joelhos
que se dobram, mas principalmente pelo espírito, o qual nunca
se deixa dobrar...
João
Mellão Neto é jornalista (mellao1@uol.com.br)
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