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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
O
general e o circo
Cenas
da época
da ditadura,
recortadas
do
novo livro
do jornalista
Elio
Gaspari
E se o menino Ernesto Geisel, filho de pobres imigrantes alemães,
tivesse seguido atrás do circo que um dia passou lá
pelas lonjuras de Bento Gonçalves? O desejo de acompanhar
o circo, despertado pelo encanto do elefante e dos saltimbancos,
está relatado no recém-saído A Ditadura
Derrotada, terceiro volume da majestosa e indispensável
história da ditadura que vem sendo publicada pelo jornalista
Elio Gaspari. Há muitas maneiras de reagir ao livro de Gaspari.
Uma delas é imaginar-se num teatro do absurdo. Voltamos a
um período em que arbítrio e desvario andavam juntos
e, se não fosse a tragédia das mortes e torturas,
mereceria ser lembrado pelo clima de comédia.
Tome-se o caso do americano Douglas Guy McNair. Um dia, enquanto
se deixava cortar o cabelo no Salão Vogue, no centro do Rio,
ele ousou manifestar ao barbeiro uma opinião crítica
com relação à escolha do general Geisel
já havia muito desinteressado do circo, diga-se de passagem
para presidente da República. McNair não era
um americano qualquer. Era vice-presidente da multinacional Atlantic
no Brasil. Um major, Tancredo Bruno Porto, ouviu a inconfidência
e tomou providências. Foi ao Clube Militar, ali perto, recrutou
um funcionário e abordou o americano, anotando-lhe os dados
e averiguando-lhe os documentos. O incidente resultou na convocação
de McNair para explicar-se ao SNI, o famigerado Serviço Nacional
de Informações. Era muita folga considerar que a cadeira
de barbeiro lhe dava imunidade para externar a opinião que
bem entendesse.
Para reforçar o clima de comédia havia o inesgotável
repertório da Censura, amplamente citado no livro. Depois
que o velho marechal Cordeiro de Farias deu entrevista elogiando
o governo Castello Branco e criticando o de Costa e Silva, a Censura
houve por bem proibir entrevistas "cujo teor coloque em análise
governos revolucionários de forma crítica, ou exaltação
aos governos referidos". A linguagem é capenga, mas dá
para inferir que, se criticar era impensável, igualmente
não se permitiria a ousadia de sair por aí fazendo
elogios. Que atrevimento era esse?! Numa providência famosa,
a Censura proibiu notícias sobre o surto de meningite em
São Paulo. Em outra, proibiu menções à
"recessão econômica". No mundo encantado proposto pelos
censores não havia lugar para doenças nem apertos
econômicos. Vistos com benevolência, eles seriam como
produtores de enredos destinados a espargir bem-aventurança,
povoados por fadas, anjos e finais felizes. De outra índole
foi a determinação de proibir os filmes de kung fu,
considerados um "derivativo maoísta". A proibição
não atingia Geisel, que tinha nesses filmes os seus preferidos.
Fica a interrogação: teria ele, por causa disso, em
suas noites no Palácio da Alvorada, travado alguma solitária,
desesperada e secreta luta contra o vírus do maoísmo?
Tratava-se de um regime em que a regra era cada general por si e
a anarquia por todos. Enquanto um deles, Breno Borges Fortes, comandante
do III Exército, planejava invadir o Uruguai, em caso de
vitória da esquerda na eleição de 1971, outro,
Humberto Mello, comandante do II Exército, festeiro e falastrão,
dizia que o então ministro do Exército, Orlando Geisel,
estava terminalmente doente e que ele, Humberto, iria para o seu
lugar. Quem acabou doente foi o próprio Humberto, abatido
por um distúrbio intestinal no palanque em que se recepcionava
o presidente da Bolívia, em Mato Grosso. Quando perguntaram
ao general João Figueiredo, chefe da Casa Militar, o que
Humberto tivera, ele respondeu: "Uma idéia".
Era também um regime em que Ernesto Geisel, um "general honrado",
como já em 1964 o qualificara o jornalista Márcio
Moreira Alves, e a rigor merece ser qualificado até hoje,
se metia em diálogos dignos da turma da Operação
Anaconda. Uma vez, ele conversava com o tenente-coronel Pedrozo,
seu chefe de segurança, sobre um grupo de pessoas vindas
do Chile e presas no Paraná, já havia tempo. Pedrozo
informou que todas tinham sido mortas. "Tem gente que não
adianta deixar vivo, aprontando", argumentou. Geisel emendou: "É,
o que tem que fazer é que tem que nessa hora agir com muita
inteligência, para não ficar vestígio nessa
coisa".
Tudo era segredo. Psiu, não se pode dizer... Não se
podia dizer, mas Geisel já estava praticamente definido como
o próximo presidente desde março de 1971, três
anos redondos antes da posse. Era assim o sistema eleitoral vigente.
Geisel escolheu o sucessor com mais antecedência ainda. No
dia mesmo em que assumiu a Presidência, trazia o preferido
"na mochila", como diz Gaspari. Era o general Figueiredo, que enquanto
isso mataria o tempo na chefia do SNI. Escreve Gaspari: "Na noite
de 15 de março de 1974, quando o novo chefe do SNI entrou
na recepção do Itamaraty com seu uniforme de gala
(...) já era o candidato do presidente que acabara de ser
empossado". Se o menino Ernesto tivesse fugido atrás do circo...
Sim, teria menos tragédia a embeber-lhe a biografia. Mas,
sim, teria igualmente menos comédia. O regime era insuperável
também nesse item.
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